Diário de Bordo #31 - Os Pupilos do Schadt (2026)
- Felipe Schadt

- há 10 minutos
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Fiquei em silêncio em algum momento daquele encontro. Vi meus alunos lotando a cafeteria que eu escolhi para celebrar meu aniversário (de maneira adiantada, eu sei) e felizes por estarem ali comigo e com seus colegas. Eu estava cercado de amor.
Quando percebi que houve uma movimentação para um casal de alunos meus irem embora (eles tinham outro compromisso), eu logo me adiantei e pedi uma foto para registrar aquele momento com todos que apareceram. O ambiente da cafeteria ajudava muito, pois era um cenário bonito. Me fizeram sentar sozinho no sofá e, atrás de mim, se espremeram para caber na fotografia.
Senti mais uma vez que estava onde deveria estar: junto dos meus alunos. Um professor tem o privilégio de sempre estar olhando para seus alunos na sala de aula. É quase que parte da nossa condição de educador vê-los o tempo todo. Bem, ali, naquela fotografia, eu não os via. Experimentei algo que ainda não tinha provado. Mesmo não os vendo à minha frente, eu me senti seguro por ter a certeza de que eles estavam ali, sendo a minha base.
Foi então que, depois das fotos tiradas, eu me levantei e pedi um minuto da atenção deles. Eu precisava falar algo que eu havia aprendido sobre o amor e que foi sacramentado naquela manhã com eles.
Câmbio.
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Meu relógio do Mickey apontava para às 09h40 quando eu cheguei na cafeteria Lorem Ipsum, em Jundiaí. Eu me apaixonei por esse café desde a primeira vez que eu o visitei. Jeito, cheiro e aspecto de casa de vó. Até o chão era revestido do típico ladrilho avermelhado das casas dos anos 1980 e 1990. Espaçoso e cheio de sofás, poltronas e aconchego, percebi que seria o lugar perfeito para receber a segunda edição do Pupilos do Schadt.
Desde o ano passado, eu decidi reunir alguns ex-alunos para comemorar meu aniversário. A escolha desses alunos é muito simples: “Quais foram os alunos que tiveram uma real conexão comigo e com a minhas ideias?”. Não se trata de alunos favoritos, se trata de conectividade. Amo todos os alunos que passaram pela minha sala de aula, mas do mesmo jeito que eles possuem seus professores do coração, eu também me reservo o direito de ter os meus alunos que ganharam um espaço especial no meu peito.
Muita gente pode achar presunçoso da minha parte eu ter pupilos. De certa maneira eu também acho, sabia? Mas também acho que todo mestre precisa de pupilos na mesma medida que pupilos precisam de mestres. No fim é uma grande brincadeira. Uma desculpa rebuscada para eu rever os meus ex-alunos que marcaram minha trajetória como professor. Além disso, sou apegado a tradições, sobretudo aquelas que eu mesmo crio. E o Pupilos do Schadt já virou uma das minhas favoritas.
Aos poucos eles foram chegando no café e eu, sempre que os via entrando, abria um sorriso sincero, os meus braços e meu coração para receber um por um. E a cada reencontro, eu me sentia maior e mais feliz. Era como se cada um deles representasse uma peça importante do quebra-cabeças da minha própria condição de professor. Bem, acho que no fim é isso mesmo.
Vale um parágrafo para mencionar os presentes lindos que ganhei, o que aumentou ainda mais minha potência de agir (para citar Espinosa). Cartinhas com recados fofos e de agradecimento que atravessaram minha alma com muita ternura; chocolates para adoçar a minha vida; uma camisa da Die Mannschaft (Seleção Alemã de Futebol) para eu torcer na Copa do Mundo (e tenho plena convicção de que me dará sorte); uma caixinha de música que toca Fix You do Coldplay; e uma livro importante e histórico que tinha um objetivo mas que ganhou outra finalidade.
Sobre esses dois últimos, quero dar algumas explicações. Quando cheguei em casa, muito tempo depois do encontro, revi cada um deles com muito carinho. A caixinha de música eu ganhei de alunos que sabem muito bem do meu amor por Coldplay e que me elegeram como “a luz de Fix You”, que na música é a luz que guia de volta para casa. Mal sabem eles que eles são a luz que ilumina meu caminho desde o dia em que os conheci.
Sobre o livro, ele se trata de Morangos Mofados, de Caio Fernando Abreu. Quando ele foi comprado para mim, segundo minha ex-aluna, era para um propósito. Infelizmente o propósito teve que mudar e ela, sabendo disso, escreveu um bilhete lindíssimo com um trecho de outra música que está sendo muito importante para mim: “O amor não é uma coisa fácil, mas é a única coisa que você deve carregar e a única coisa que você não pode deixar para trás” (Walk On - U2). Chorei muito com esses dois presentes em particular, pois eles vieram exatamente na hora certa.

Quando todos já estavam presentes, reencontrando seus próprios amigos, se conectando com novas pessoas, conhecendo novas histórias, eu me senti agraciado por estar cercado de tanta gente boa. Tão natural quanto se misturarem, foi o movimento que fizeram na sequência. Meus ex-alunos da faculdade se juntaram para falar coisas sobre o mundo do trabalho; meus ex-alunos que entraram ano passado na faculdade, falando da faculdade; e os ex-alunos que acabaram de se formar no colégio, ainda falando e relembrando a vida que não teriam mais na escola. Meu trabalho era observar atentamente como essa dinâmica acontecia e absorver ao máximo o que eles diziam.
Eles não sabem (saberão agora) que a coisa que eu mais gosto ao reuni-los - além de reencontrá-los - é poder aprender com as histórias que eles trazem na bagagem. E é muito legal ver como as histórias mudam e ganham outros contornos de um ano para o outro. Isso me faz ficar já ansioso para o ano que vem. O que vai mudar em um ano?
Mas além das histórias, esses meninos e meninas (alguns já com filhos e eu ainda os considerando assim) me ajudaram a compreender algo que eu estava matutando há algumas semanas e que eu não tinha uma conclusão clara. Quando eu falo que nós, professores, aprendemos tanto quanto os alunos, eu não falo da boca para fora. Consegui a atenção de todos após uma foto que tiramos para registrar nosso encontro. Ali eu tentei - sem chorar - dizer a eles o que eu havia aprendido naquela manhã.
O amor não é, definitivamente, uma coisa fácil. Minha maior dúvida havia se tornado sobre quem deveria receber o meu amor. Amor é para quem precisa ou o amor é para quem merece? Uma grande e sábia amiga havia me dito dias antes que o amor é para quem sabe senti-lo. Bom, eu confirmei isso revisitando a minha história com meus pupilos.
O amor não tem um prazo para acontecer. Às vezes ele acontece de cara. Foi exatamente assim que aconteceu quando eu, em agosto de 2024, entrei na sala de aula do Terceirão do Colégio Domus Sapiens e vi aqueles alunos que desconfiavam do novo professor de filosofia. Mas a desconfiança deles e o meu medo acabaram quase que de maneira instantânea e o amor entre nós reinou todas às sextas-feiras até o final daquele ano. Até hoje eu lamento por ter tido tanto pouco tempo com eles. Mas isso mostra que não precisamos de tempo para aprender a amar. Quando é amor, ele vem na hora!
Mas há também situações no qual o amor precisa ser maturado. O Terceirão de 2025 do mesmo colégio me conheceu quando eles ainda estavam na 2ª série do Ensino Médio. Foi um encontro difícil e nós não fomos com a cara um do outro. Demorou um pouquinho para que eu os entendessem e eles me entendessem de volta. “Hey! Vem comigo! E não desiste de mim não, pois eu jamais desistiria de vocês”, dizia eu quando precisava muito da atenção deles em sala de aula. Bom, não desistimos um do outro e aprendemos a nos amar. Amor também é construção e manutenção diária.
O amor também é confiança. Quando vejo meus ex-alunos de faculdade, já formados, seguindo os paços na direção que por muitas vezes eu apontei, percebo o quanto eles acreditavam em mim. Até hoje, muitos deles - os pupilos pelo menos - me pedem conselhos sobre como fazer e agir em dada situação. Foi dando aula para alguns deles que também aprendi que amor é capaz de perdoar. Eu não era um professor fácil e muitas vezes, no auge da minha arrogância, machuquei alguns alunos. Felizmente alguns deles me perdoaram mesmo antes de eu pedir perdão, o maior ato de amor que conheço.
O amor é, portanto, para quem merece e faz por merecer todos os dias. O amor também é para quem precisa, pois às vezes necessitamos de afeto para aprender a dar afeto. Mas o amor é, sobretudo, para quem sabe senti-lo, afinal de contas, quem está disposto a amar reconhecerá fácil o amor que vem independente da onde. Independente se ele é para quem merece, para quem precisa ou para quem sabe senti-lo, aprendi que devemos dar amor. Esse é o nosso papel. O que farão com ele não nos compete. Nosso dever, nosso imperativo categórico (para citar Kant) é amar, pois só o amor pode mudar o mundo.
“Feliz aniversário, Felipe! Continue sempre levando sua alegria e amor por onde for!”, me escreveu em seu bilhete, uma de minhas pupilas.
Pode contar com isso, Filippini.
Conhecimento é conquista
-FS





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