Diário de Bordo #30 - Tudo o que eu posso deixar para trás
- Felipe Schadt

- 1 de jan.
- 8 min de leitura

Não tinha chegado na segunda semana de 2007 e eu começaria o ano sofrendo uma das piores desilusões amorosas da minha vida até aquele momento. Foi por telefone que a garota que eu era apaixonado no colégio terminou nosso namoro de apenas três meses.
Eu me lembro de ter desabado na cadeira do computador que dividia espaço com o telefone fixo da casa dos meus pais. Eu chorava copiosamente e minha mãe, indignada com o desespero do filho dramático, tratava de me animar de um jeito muito particular: "Pode parar de chorar que eu não criei filho meu para chorar por causa de mulher!"
A dona Josy só queria ajudar, eu sei, mas não ajudou em nada naquele momento. Mas me lembro de ela ter dito algumas horas depois que eu deveria tentar ver as coisas com bons olhos, já que eu iria começar, em duas semanas, as aulas na faculdade. Isso sim ajudou, pois vi na vida universitária vindoura a chance de recomeçar.
Dias mais tarde do telefonema, eu recebi uma encomenda. Era um CD do U2, o All That Can't Leave Behind (2000), famoso por músicas como Beautiful day, Elevation e Stuck in a moment. Eu havia comprado esse álbum para presentear a namorada do telefone. Ela gostava de U2, ou pelo menos eu achava que gostava. Naquela altura do campeonato, eu me convenci que ela só dizia que gostava para me agradar. Isso foi importante para eu ficar com o CD para mim sem arrependimentos.
Nesse álbum há uma música que me salvou. Walk On fala justamente sobre superar o que foi e seguir em frente. O título do CD já me dizia isso: "Tudo o que você não pode deixar para trás". A faixa em questão dava a resposta da única coisa que você não podia deixar para trás. O amor!
Foi aí que eu entendi e aprendi a sempre que preciso, deixar tudo para trás. A única coisa que eu devo carregar é o amor que aprendi a sentir e que me ajudaria a compreender melhor as pessoas que surgiriam na minha vida.
Câmbio.
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Normalmente o primeiro dia do ano é utilizado para se curar da ressaca da festa da virada. Ou, para os mais reflexivos, pensar as metas e objetivos do ano que acabou de nascer (eu mesmo fiz isso no ano passado e se você quiser ler, clique aqui). Há aqueles de atitude e já começam o novo ano colocando as resoluções em prática. Porém eu farei um pouco diferente, inclusive do que eu já fiz. Vou olhar para trás e ver o que me aconteceu.
Essa reflexão do passado é comum no último dia do ano. Chame-me de atrasado se quiser. Mas só hoje eu consegui olhar com muita clareza o que me aconteceu no ano que mudou para sempre a minha vida. E é agora, já no avançar da noite do primeiro dia de 2026, que eu me permito olhar para trás e refletir um pouco.
Esse Diário de Bordo pode soar egóico. Bobagem. Ele é egóico por essência. Mas isso é um alerta para você, caro leitor ou cara leitora, parar por aqui antes de ler um homem de quase 37 anos refletindo sobre ele mesmo. Mas se você ficar, não me venha achar patético. Eu avisei.
Olhar para o passado é possível de duas maneiras segundo Espinosa. A primeira é como nostalgia, ou seja, viver uma alegria que já passou. Muita gente usa desse subterfúgio para escapar da realidade dura e encarnar o seu lado mais saudosista: "Mas no meu tempo era melhor...". Você também pode olhar para o passado de uma maneira mais negativa, vivendo uma dor que já passou, ou seja, com a culpa. Culpa é ficar pensando no que você não fez e deveria ter feito (ou fez e deveria não ter feito) e se sentir mal por isso. Não há mais o que fazer, esqueça. Mas o sentimento de culpa é muito grande e algumas pessoas o carregam por toda uma vida.
Tentarei não ir por nenhum desses caminhos. Tentarei uma via mais estoica e só ver o passado e, na melhor das hipóteses, ver o que eu aprendi com o que me aconteceu. Não dá para viver e nem mudar o que já está no passado. Mas acho que dá para aprender com ele.
Vejamos. Em 2025, para aqueles que acreditam, muitos ciclos se encerrariam. Os numerólogos de plantão dizem que ele é o ano 9, o fim de uma era iniciada em 2017. Longe de mim acreditar nessas coisas (apesar que os últimos acontecimentos da minha humilde existência vem me convidando a pensar diferente), mas de fato vários ciclos que completaram nove anos no ano passado se encerraram para mim.
Em 2017 três coisas gigantescas aconteceram. Primeiro eu fui para o meu intercâmbio que mudaria para sempre minha percepção de mundo. Esse intercâmbio só aconteceu após eu me divorciar no ano anterior. E foi nesse intercâmbio que eu conheci o segundo acontecimento gigante: eu comecei meu relacionamento com a Carol. Por fim, o último acontecimento gigante foi a minha entrada no Mestrado da USP, algo que eu já sonhava dois anos antes.
O intercâmbio para a Filadélfia durou apenas três meses, mas reverberou por muitos anos na minha vida. Até então eu não sabia lidar com a solidão. Quando precisei encarar o fato de que era eu comigo mesmo - e isso aconteceu em um dia que fiquei gripado e precisei me virar sozinho atrás de remédio (e em inglês) -, eu cresci muito. Eu vinha de um casamento no qual eu transferi toda a minha imagem de mãe para minha esposa na época. Casei mas não cresci. No intercâmbio eu cresci. Foi lá que aprendi a lavar roupa (com ajuda da minha mãe em uma videoconferência).
Além do crescimento e do aprendizado solitário, o intercâmbio me fez conhecer a Carol. Foi na agência dela que eu fechei negócio e, por conta disso, acabamos flertando e, semanas antes de eu embarcar, estávamos completamente envolvidos emocionalmente. Assim que voltei dos Estados Unidos, engatamos um namoro e, um ano depois, decidimos morar juntos.
Mas antes de continuar o raciocínio sobre a Carol, quero falar sobre o Mestrado na USP. Em 2016 eu já havia passado pela minha primeira tentativa de ingresso. Trabalhava como voluntário no Núcleo de Comunicação e Educação da ECA (Escola de Comunicações e Artes) para me aproximar dos professores e ter uma chance maior na seleção do mestrado. Chamo isso carinhosamente de "engraxar o sapato" do seu futuro orientador. Lembro exatamente da conversa que tive com um dos meus professores no almoço de um evento que rolava na USP. Ele, vendo todo meu esforço em fazer parte, foi taxativo ao dizer qual projeto de pesquisa teria chances de ser aprovado. Fiz exatamente o que ele me falou e fui aprovado no final de 2017 (assim que voltei do intercâmbio foquei nos estudos para a seleção).
Fiz o mestrado no meio de uma pandemia e, na bacia das almas, após duas prorrogações de prazo, consegui finalmente entregar minha dissertação, defendê-la e ouvir da boca do meu orientador - um dos pesquisadores mais brilhantes do mundo no ramo da Comunicação e Educação - que eu era Mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo. Júbilo total!
A partir disso, o caminho óbvio era me manter conectado com os grupos de pesquisa para garantir um futuro doutorado que deveria vir em algum momento. O fato é que eu não queria fazer Doutorado. Não depois de ter sofrido tanto com o mestrado. Era 2022 quando defendi minha tese, na lógica, eu deveria entrar no Doutorado já em 2023. Sem condições. Então o que eu fiz? Continuei engraxando sapatos. Trabalhei como voluntário para a ABPEducom (Associação Brasileira de Pesquisadores e Profissionais em Educomunicação) e aprendi muito enquanto estive à frente da Diretoria de Comunicação.
Na minha lógica era o seguinte: vou manter o vínculo com o núcleo duro da Educomunicação (no qual eu já fazia parte) para, quando eu quiser, pedir caminho livre para o Doutorado. Só que eu nunca achava o momento certo para entrar no Doutorado. "Ano que vem eu entro", dizia eu todo ano. Foi aí que eu fui picado por um mosquitinho chamado Ensino Médio.
Quando fui convidado para dar aula para um colégio eu pensei que não duraria muito. Ledo engano. Gostei tanto que acabei encontrando dois colégios para lecionar. O meu tempo ficou reservado para esse ofício e ser voluntário para os projetos educomunicativos ficava cada vez mais impossível. Mas eu não queria largar o meu ingresso para o Doutorado. Bem... aí chegou 2025.
Foi o primeiro grande ato do "ano que tudo termina". Lembro de como me despedi das minhas funções. Foi logo após um evento que realizamos em Brasília. Eu já sabia que ali seria minha deixa para eu encarar o fato de que minha vida profissional havia mudado. Eu não precisava de um Doutorado, eu precisava me dedicar aos meus alunos do Ensino Médio. "Ser mestre é muito mais legal que ser doutor", me convenci. E eu acho isso de verdade. Na escola, ali com a mão suja de canetão, eu me sinto mais útil do que se eu estivesse escrevendo artigos acadêmicos. Não estou dizendo que eles não são importantes, longe disso. Só estou dizendo que meu lugar é com os meus adolescentes.
Mas essa não seria a única coisa que se encerraria em 2025 após 9 anos. O que parecia impossível para muita gente (até mesmo para mim) aconteceu 9 anos depois de ter começado. Meu relacionamento com a Carol terminou no exato dia em que comemoraríamos 9 anos juntos. Foi em uma mesa de um restaurante que gostamos muito, com uma taça de vinho cada um, brindando a decisão que havíamos acabado de tomar.
Claro que não foi do nada. Há pelo menos um ano as coisas já não estavam tão legais para a gente. Não éramos de brigar, mas a rotina acabou com nossa dinâmica. Nos perdemos e, confesso, eu desisti do relacionamento muito antes dela desistir. Estávamos tão acostumados com a vida que tínhamos que não percebemos que nós havíamos deixado de ser um casal para ser colegas de quarto.
A Carol lutou muito mais do que eu, tenho que admitir. Eu já tinha ido para a lona muito antes do fim oficial. Mas a nossa lógica, no fim das contas, foi a seguinte: "merecemos muito mais do que isso". De fato. E essa ficha caiu justo na viagem que a gente sempre sonhou em fazer juntos.
Foi na Alemanha que percebemos que a rotina não deixava a gente prestar atenção. Viramos brothers. Na viagem mesmo tivemos uma longa e dura conversa sobre a possibilidade de cada um seguir o seu caminho. E por mais que parecesse lógico, na nossa cabeça, prestes a completar 9 anos juntos (dividindo uma casa há quase 8), essa possibilidade era impossível.
Bem, aconteceu. Terminamos. Não anunciamos aos quatro cantos, pois achávamos que as pessoas saberiam naturalmente. Embora nossa maturidade em assumir que não funcionávamos mais como casal foi latente, não foi fácil. Choramos muito nos dias que seguiram. Já no dia seguinte eu dormi exausto de tanto chorar. Nunca imaginei que conseguiria chorar tanto em um espaço tão curto de tempo. Foi trágico, duro, difícil. Mas hoje, creio que foi a melhor decisão que tomamos.
Dois ciclos de 9 anos encerrados em 2025 para o deleite dos numerólogos de plantão. Ok, eu reconheço. Ponto para vocês. Mas vocês [numerólogos] também dizem que o ano de 2026 será um ano de novos começos. Bom, vou deixar para admitir sua vitória depois. Talvez em outro texto que virá em breve.
Voltando ao assunto principal, ao fazer uma avaliação do que eu vivi e encerrei no ano passado, creio que o saldo é positivo. Estou morando sozinho pela primeira vez; vi meu time ser campeão duas vezes; fiz um show especial de 15 anos da minha banda num teatro; trabalhei em dois colégios e em uma universidade; voltei para a Alemanha; palestrei sobre Educomunicação em um TEDx; fui escolhido como patrono, paraninfo e professor homenageado pela primeira vez na vida; tive um cachorro por três dias; e aos 45 minutos do segundo tempo, me tornei um apaixonado indubitável.
Aprendi muita coisa com esses encerramentos e com o início de novas coisas. Sobre os fins, aprendi o que eu quero como profissional e que tipo de homem eu devo ser para dividir a vida com alguém. Sinto que essas duas coisas me prepararam para tudo o que eu tenho certeza que viverei a partir de agora.
Sobre os inícios, penso que você só vai perceber o extraordinário que você merece, quando você tiver coragem de deixar algumas coisas para trás. Sinto que estou pronto para abrir os braços para a vida e viver. Aceitar o que o mundo tem a me oferecer. E isso me faz saber exatamente o que eu posso deixar para trás. E o que seria? Tudo que não for amor.
Câmbio, desligo.
Conhecimento é Conquista!
-FS





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