Silva, o bolsonarista

e o roteiro de uma tragédia

Atenção: Esse é um conto de ficção escrito por mim, Felipe Schadt. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

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Parte 1: Salve Silva

 

Em um acampamento de manifestantes bolsonaristas qualquer em frente a um quartel mais qualquer ainda, dois homens compartilhavam um celular. Estavam assistindo um jovem porém famoso podcaster.

 

"No fim das contas, Hitler nem era tão ruim assim. Porque, se liga, na economia ele tirou a Alemanha do buraco, gerou emprego e talz. Será mesmo que ele era o vilão da história ou eram os judeus que queriam implementar uma ditadura judia no país? Não sei... eu tenho minhas dúvidas sobre essa história que nos contaram sobre o nazismo. Será que morreu mesmo esse monte de judeu?..."

 

- Vou compartilhar isso no grupo da família - disse o primeiro homem.

- Manda pra mim também - respondeu o segundo.

- Vocês viram o vídeo falando sobre o nazismo? - apareceu um terceiro. - Eu sempre tive minhas dúvidas sobre isso, sério.

- Muita coisa que nos contaram na escola é mentira, cara. Não da pra confiar nos professores não. Tudo esquerdista - respondeu o primeiro.

- Mas viu... Deixa eu falar uma coisa pra vocês animadora. Acabei de ver um vídeo que o cara estava explicando que na Alemanha, o HItler perdeu as eleições e tudo mais. Só que a pressão popular por ele foi tão grande, que obrigou o cara que ganhou a chamar ele para ser Primeiro Ministro - voltou a dizer o homem que chegou por último. - Se funcionou lá, pode funcionar aqui. Imagina o Bolsonaro assume como o Primeiro Deputado? Assim ele teria poder para comandar a câmara e impedir o Lula de governar.

- Seria lindo - disse o primeiro homem.

- Selva!! - gritou o segundo fazendo todos em volta gritarem e aplaudirem, mesmo sem saber o porquê gritavam ou aplaudiam.

- Não vai funcionar... - disse um homem sentado numa cadeira de praia com uma lata de cerveja na mão.

- Como não vai funcionar? Nosso Mito vai...

- Esquece o Bolsonaro! - interrompeu o homem sentado. - Ele é carta fora do baralho. Abandonou a gente. É só mais um vendido para o sistema. Se a gente quiser salvar o Brasil, vai ter que ser por nossa conta - continuou o homem sentado.

 

A medida que ia falando, mais gente se juntava para ouvir. Ele dizia coisas como "isso é culpa dos esquerdistas" e "temos que eliminar eles da nação para o país prosperar". A cada frase proferida, um silencioso concordar de cabeças era feito entre as dezenas de pessoas que já estavam em volta dele e de sua cadeira de praia. 

 

- Precisamos ter coragem de assumir o país. Começar reunindo patriotas de coragem para enfrentar a repressão que será jogada em cima de nós. Aqueles que não podem lutar na rua, devem lutar na internet, compartilhando nossas manifestações, informações contra o inimigo e divulgação da nossa causa. Boicotes a tudo que for proveniente da esquerda deve ser urgente! Precisamos fazer a esquerda sangrar. E se perguntarem o porquê queremos isso, devemos responder o óbvio: Os esquerdistas tomaram nossa pátria de assalto e vão destruir tudo como gafanhotos se não fizermos nada. Eles afundaram nossa nação na lama. Nessa lama moral que suja nossa história gloriosa - continuou, de maneira mais inflamada. - A meta final e inabalável deve ser a remoção dos esquerdistas por completo!

 

Um urro de homens e mulheres tomou conta de todo acampamento. Uma mulher que estava filmando todo o discurso perguntou para um homem do seu lado qual era o nome do moço que discursava, para ela marcar nas redes sociais. O homem também não sabia, mas gritou perguntado.

 

- Patriota! Ei, patriota! Qual é o seu nome?

 

Todos ficaram em silêncio. Então ele respondeu:

 

- Meu nome é Silva!

 

Dessa vez os gritos eram de "Salve Silva!" Alguns gritavam "Selva!". E outros assobiavam silvos agudos e estridentes. Era uma cacofonia de dar medo.

 

...

 

Parte 2: O germe 

 

Os dias se passaram e os acampamentos bolsonaristas ficavam cada vez mais lotados. Principalmente quando Silva estava presente. Ele começou a visitar as concentrações verde e amarelas uma a uma, sempre seguido de uma milícia que era conhecida como Acibem, sigla para Armada dos Cidadãos de Bem. O Acibem era violento, truculento e composto de brutamontes que possuíam porte de arma - herança do governo Bolsonaro. Alguns ex-policiais também faziam parte da milícia bolsonarista. 

 

Assim que Silva chegava em algum acampamento, carros de som eram preparados e centenas de pessoas se aglomeravam para ouvirem ele falar. Seus discursos eram inflamados e cheios de frases de efeito sobre se ter amor a pátria e de como era necessário eles se unirem para salvar o país.

 

A medida que Silva ia ganhando popularidade por causa dos discursos e por causa das redes sociais, mais bolsonaristas começavam a enxergar nele um líder. Alguém que expressava o exato sentimento que todos ali tinham. Ele era sedutor e convincente. Tinha postura e parecia ser inquebrável, muito diferente do derrotado Bolsonaro que, nessa altura do campeonato, já era página virada. E se o ainda presidente era uma carta fora do baralho, Silva era o Ás de paus numa mesa que se tinha um Rei virado num jogo de truco.

 

Mas Silva era um cara comum. Pouco mais de trinta anos, Silva era católico e morava com os pais e por isso não trabalhava, ou pelo menos não se sentia na obrigação de se manter em emprego nenhum, já que seu pai era um ex-militar e recebia uma generosa pensão do exército. Isso fazia com o que seu pai o tratasse como um soldado. Já a mãe achava que ele ainda era uma criança de 10 anos. Os irmãos, todos mais velhos, já nem moravam no Brasil há algum tempo. Um estava em Miami, casou com uma ricaça herdeira de um magnata do ramo de bebidas. A outra era, na visão dele, uma perdida que foi morar na Europa para ser blogueira fitness e ativista da causa animal. Ele era um caçula. Um acidente, segundo o próprio pai.

 

Tentou fazer faculdade pública, mas não conseguiu passar no vestibular de Engenharia. Colocou a culpa nas cotas. Fez faculdade particular mas trancou o curso três vezes. Nunca chegou a se formar. Passava a maior parte do tempo jogando na internet e assistindo outras pessoas jogarem enquanto se informava sobre qualquer coisa em blogs e vídeos no YouTube. Ficou viciado em vídeo de finanças e até participava de encontros com coachs que prometiam prosperidade fácil aos gritos e com coreografias. Pediu dinheiro para o pai e investiu em uma academia que, por causa da pandemia, faliu. 

 

Seu ódio pela esquerda começou aí. Ele não tinha votado no Bolsonaro. Achava ele um babaca. Votou no Amoedo no primeiro turno e no segundo simplesmente não votou. Mas viu no presidente características que combinavam com as suas. A primeira delas era o discurso contra a quarentena. Se não fosse ela, ele não teria perdido todo o dinheiro que tinha investido na academia. A segunda era a ideia de liberdade de escolher se vacinar. Ele viu um vídeo certa vez que alertava os perigos das vacinas que ninguém falava e que a obrigatoriedade era uma afronta contra os direitos individuais. A terceira era que Bolsonaro, assim como ele, odiava o politicamente correto.

 

Tudo isso unido ao ódio que ele sentia da esquerda, fez ele admitir que Bolsonaro era também um mito para ele. Participou de todas as manifestações bolsonaristas que se seguiram. Leu todos os livros de Olavo de Carvalho, além de ter feito todos os seus cursos online. Era um financiador assíduo do site Terça Livre. Mas nunca emitia nenhuma opinião. Nas reuniões de família, no futebol com os amigos, na balada e até mesmo na internet, Silva se mantinha quieto e pacato. Até que no dia 30 de outubro, ele soltou tudo que sentia em um grito histérico pela janela do seu quarto "MORRAM ESQUERDISTAS DOS INFERNOS!!!".

 

Assim que ficou sabendo que haveria uma manifestação na sua cidade. Se vestiu de verde e amarelo, se envolveu com a bandeira do Brasil e foi protestar na rodovia junto com outras dezenas de pessoas iguais a ele. Ali se sentiu acolhido e esperançoso. Mas o silêncio de Bolsonaro era ensurdecedor. Além disso, as fakenews sobre a prisão de Alexandre de Moraes, sobre as fraudes nas urnas comprovadas, sobre a anulação das eleições, só faziam ele sentir mais ódio de todo mundo. 

 

Seu desejo era de matar todos que votaram no Lula. Em seus devaneios, se via empunhando uma arma e atirando na pessoas que estavam comemorando na paulista no último domingo. Ele gostava de pensar nessa cena. Mas só pensava. Não tinha coragem de dizer em voz alta. Até que sua paciência chegou no limite.

 

Um vídeo do próprio Bolsonaro pedindo para que os manifestantes desobstruíssem as vias fez ele entender o óbvio: o presidente já era. Junto disso, pessoas que antes apoiavam o presidente começaram a criticar as manifestações. "Ratos!!", pensava ele. Com tudo isso, ou os bolsonaristas fariam algo ou o próprio bolsonarismo ia acabar ali.

 

Os manifestantes saíram das rodovias e começaram a acampar na frente dos quartéis. Eles achavam que o exército faria alguma coisa. Silva não acreditava nisso. Mas resolveu seguir a massa. Cansado física e mentalmente, pegou uma cerveja e viu uma cadeira de praia vazia. Se sentou, abriu a latinha e deu uma bela golada. Foi então que começou a prestar atenção em três homens a sua frente conversando algo sobre transformar Bolsonaro em um tipo de "Primeiro Deputado".

 

...

 

Parte 3: A Marcha 

 

- Salve Silva! Tudo pronto pro pronunciamento. Já confiscamos o celular de todo mundo - disse um membro da Acibem.

- Perfeito. É a hora da ação, patriota.

 

Silva entrou em uma churrascaria completamente lotada de pessoas vestidas de verde e amarelo. A maioria empresários, religiosos, membros da Acibem e entusiastas de primeiro escalão.  Um púlpito havia sido colocado no canto em cima de um palco improvisado. Assim que foi avistado, todos ficaram rapidamente de pé em silêncio esperando que ele chegasse no lugar reservado a ele. Quando Silva pegou no microfone, disse calmamente: "Salve!" e em uníssono, todos responderam, "Salve Silva!".

 

- Podem se sentar - foi obedecido. - Amigos patriotas, hoje estamos aqui para dar curso a nossa maior manobra. Por conta disso, pedi para que todos os celulares fossem confiscado pela Acibem para garantir a nossa própria segurança. Hoje é véspera de Natal e vocês escolheram estar aqui, lutando pelo nosso país e pelo nosso ideal ao invés de estar com suas famílias. Eu admiro muito isso e acredito que seja uma das maiores demonstrações de amor a pátria que eu já vi. Mas agora, precisamos de uma demonstração ainda maior.

 

As pessoas se remexeram nas cadeiras ansiosas pelo que viria a seguir.

 

- Em uma semana, a esquerda assumirá o país com os seus bandidos e cúmplices. As instituições faliram e estão lá bajulando os carrascos do nosso Brasil. Mas nós não aceitaremos. Nós somos o povo e é do povo o poder de uma nação - gritos de "Salve" aconteciam aqui e ali. - E para tomar o nosso poder de volta das mãos dos esquerdistas, precisamos marchar! Eles não darão de bom grado, a democracia nesse país já se mostrou ser uma novela de mal gosto... Não há outro caminho a não ser tomar o poder à força!

 

Os gritos de "Salve" ficaram mais altos. Silva continuou.

 

- Amanhã, marcharemos rumo ao Palácio Guanabara e o tomaremos. Será a partir dali, primeira capital de nossa república que iniciaremos um novo tempo no Brasil. Será o primeiro passo para uma nova era política na nossa nação, o começo da Novíssima República!

- Salve Silva! Salve Silva! Salve Silva!

 

A cidade do Rio de Janeiro estava basicamente deserta. Todos estavam preocupados com o almoço de Natal e com as festividades de ano novo que se aproximavam. Todos menos os bolsonaristas, que ainda resistiam em acampamentos não só no Rio mas em várias outras partes do país. O marasmo no bairro das Laranjeiras foi quebrado pelo barulho de carros que seguiam na rua Paissandu, rumo a rua Pinheiro Machado. Ali se encontrava o Palácio Guanabara, sede do governo do Rio de Janeiro.

 

Completamente tomada de carros, a rua Paissandu dava acesso direto a parte da frente do palácio. Foi dessa rua que Silva, membros da Acibem e apoiadores que sabiam do plano, desceram dos seus automóveis e, de braços dados, marcharam juntos. Havia, ao todo, pouco mais de 80 pessoas. 

 

Na linha de frente estava Silva e mais oito homens da Acibem, quatro de um lado e quatro do outro. Atrás deles, mais milicianos e no fim da fila, os apoiadores. Na primeira fila, Silva empunhava a bandeira do Brasil enquanto os oito homens do seu lado seguravam uma faixa escrita "Deus, Pátria e Família", servindo como um escudo para os nove da frente. Logo atrás, o resto da milícia vinha de mãos vazias, enquanto a última linha impunha dezenas de celulares em transmissões ao vivo para toda a internet. Só havia uma pessoa fora do lugar. Um adolescente que estava na frente da primeira linha filmando tudo de uma perspectiva diferente. Enquanto filmava ele falava com as milhões de pessoas que o acompanhava na live.

 

Chegaram no portão de acesso do palácio e Silva pegou um megafone de um miliciano que estava atrás dele.

 

- Atenção! Viemos salvar o Brasil! Queremos entrar no Palácio e assumir o controle a partir de agora. Não estamos sozinhos, há milhões de cidadãos de bem nos assistindo ao vivo e nos apoiando. A voz do povo é a voz de Deus e Deus quer que entremos! 

 

Um policial militar que estava na guarita que fica à esquerda do palácio saiu solitário para ver o que estava acontecendo. Junto com ele, várias cabeças apareceram nas janelas dos prédios da rua, todas elas com celulares na frente filmando tudo. 

 

- Patriota! - disse Silva para o policial. - Não queremos de maneira nenhuma te ferir. Queremos apenas salvar a nossa pátria e você pode nos ajudar. Iremos entrar!

- Não posso fazer isso. Não há ninguém aqui hoje, é natal.

- Sabemos disso, soldado. Por isso escolhemos essa data, para que não houvesse conflito. Somos pessoas de bem que querem o bem do país. Para isso, precisamos entrar no palácio e assumir a responsabilidade da nação a partir daqui. 

 

Assim que disse isso, Silva avançou com os seus homens rumo a escadaria que dava acesso ao prédio. O policial rapidamente colocou a mão no coldre. Silva parou, pegou o megafone e disse.

 

- Você vai atirar em cidadãos de bem?

 

O policial chamou reforços pelo seu radio colado ao ombro.

 

- Nós iremos entrar soldado. Pelo bem do nosso país! - Silva avançou, sempre junto com os oito homens do seu lado e atras da faixa "Deus, pátria e família".

 

Encurralado, o policial tirou a arma do coldre e apontou para a massa liderada por Silva que, não parou. 

 

- Para trás! Estou avisando! Eu vou atirar!

 

Eles não pararam.

 

Um barulho seco ecoou pelos prédios e um grito seguido de uma massa de verde e amarelo  correndo de maneira histérica foi a sequência da cena. Nas janelas, as pessoas continuavam olhando e ali no chão, na calçada da rua Pinheiro Machado, Silva estava ensanguentado com a faixa suja de sangue aos seus pés e a bandeira do Brasil na ferida causada pelo tiro. Os homens da Acibem não reagiram contra o policial. Ao invés disso, foram socorrer Silva que tentava se manter de pé. Três viaturas da polícia chegaram na sequência e Silva ordenou para os seus homens que fugissem. Muitos obedeceram, mas um resolveu ficar.

 

Os policiais saíram da viatura com armas em punho, renderam Silva e seu miliciano. As pessoas que ainda estavam ali sacaram seus celulares e filmaram toda a ação. O rapaz que estava filmando tudo de perto, mostrava o horror da cena enquanto agradecia comentários de apoio. 

 

Silva estava sendo algemado e preso pela polícia do Rio de Janeiro.

 

...

 

Parte 4: O Jogo

 

Silva estava preso por um ano e meio. Foi acusado de promover um atentado contra a democracia. Mas para a opinião pública a Marcha Fluminense, como ficou conhecida, só rendeu a ele mais reconhecimento. Todos os dias recebia cartas de apoiadores e manifestações. Vigílias eram feitas na porta do presídio, produtos com a frase "Salve Silva" eram vendidos à exaustão e uma versão da bandeira do Brasil com a esfera em preto e branco era um símbolo da resistência.

 

O tiro que ele tomou naquela tarde de natal pegou de raspão, mas seus apoiadores chamavam de milagre. Se um dia Bolsonaro havia sido chamado de Mito, hoje, Silva era muito maior do que isso. Bolsonaro alias que naquela altura estava sob asilo político na Arábia Saudita junto com seus filhos. Fugiu, diferente do Silva que ficou e lutou.

 

Uma horda de advogados tentavam a todo custo encontrar brechas na lei para anular a condenação de mais de 15 anos de prisão. Não seria fácil, se não fosse a aclamação popular e o interesse político. Cláudio Boaventura, um ilustre desconhecido do ramos de imóveis, havia se lançado à prefeitura do Rio de Janeiro e resolveu surfar na onda do bolsonarismo de Silva. Conseguiu mexer os seus pauzinhos e prometeu a ele que o tiraria da prisão se recebesse apoio político. Silva concordou.

 

Silva deixou a cadeia com pompas de herói e conseguiu eleger Boaventura logo no primeiro turno como mágica. O novo prefeito do Rio ficou tão grato, que ofereceu para Silva um cargo na secretaria de Estado de Defesa Civil. Silva recusou, queria se dedicar a algo muito maior: a presidência da república.

 

Ele foi convencido durante seu período na cadeia a tentar entrar no poder pelas vias democráticas. Mas para isso, ele precisaria se render ao sistema para, quando entrasse lá, implodisse-o. Mas tinha medo de como seus apoiadores iriam lidar com isso, afinal, ele só chegou onde chegou graças ao seu discurso anti-sistema. Então começou, ainda na prisão, a se corresponder com seus apoiadores por meio de cartas. Foram 15 cartas no total no qual ele explicava o que deveria fazer para salvar o Brasil do esquerdismo. E nessas correspondências, ele enfatizava que a via democrática era á única possível por enquanto. Essas cartas viraram um livro chamado "A guerra que escolhi". Virou best seller e rendeu a Silva um bom dinheiro.

 

Seus apoiadores, portanto, já sabiam exatamente o que deveriam fazer: vencer as eleições de 2026. A ordem era conseguir todo apoio possível. Os primeiros a aderirem foram os líderes das igrejas neopetencostais e os empresários. Silva resgatou o velho bolsonarismo no discurso. Agradou a direita e se alinhou a ala mais conservadora do congresso que, com o seu nome, esperava conseguir muitos votos para a reeleição na câmara.

 

Porém, Lula não havia feito um governo de todo ruim. A economia não decolou, longe disso. Mas faz o máximo que podia para manter o país nos eixos. O petista teve muita dificuldade para governar, já que o congresso barrava praticamente toda proposta do executivo. Velho demais para uma reeleição, seu vice, Geraldo Alckmin saiu candidato junto com Simone Tebet como sua vice na chapa. Boulos, o nome mais forte da esquerda e tido por muitos como sucessor de Lula, concorreria ao senado. Com isso a era petista havia chegado ao fim.

 

Com um discurso bem mais moderado e conciliador, Alckmin estava liderando as pesquisas, com Silva bem na sua cola. Às vésperas do início da pré-campanha uma bomba cai no cenário político. Silva desiste de concorrer à presidência e resolve sair como deputado. O plano era muito simples: ser o deputado mais votado da história, usar todo apoio que ele teria na câmara, ser líder da oposição e presidir o congresso. 

 

Silva foi bem sucedido na sua escolha. Por São Paulo, recebeu mais de 18 milhões de votos para deputado. Alckimin também venceu com facilidade logo no primeiro turno. Seu adversário, Ciro Gomes, não teve mais do que 8 milhões de votos no Brasil todo. Silva estava dentro do jogo e agora poderia jogar.

 

Porém, no dia 01 de janeiro de 2027, o Brasil assistiria a cena mais assustadora da política nacional.

 

...

 

Parte 5 (final): O plano 

 

Silva estava reunido com o núcleo duro de sua milícia em sua casa, no bairro do Morumbi, em São Paulo. No mesmo dia 24 de dezembro, quatro anos depois de ter planejado a Marcha Fluminense, ele rabiscava em um caderno desenhos toscos com linhas e círculos que não diziam nada. Depois de muito silêncio, ele resolveu falar.

 

- Mataremos todos eles. Um por um. Primeiro será o presidente, logo na posse. Um patriota estará infiltrado como um esquerdista e atirará assim que o carro do presidente passar perto dele. Para não nos comprometer, esse patriota se sacrificará na sequência não deixando rastros. A culpa recairá sobre a esquerda que não aguentou ver o partido dos trabalhadores definhar e perder o protagonismo. Esse herói patriota deverá ser devidamente lembrado - apontou para um rapaz que estava à sua esquerda.

 

- Será uma honra servir a pátria! Salve Silva! - disse o membro designado para a missão.

 

Silva agradeceu e voltou a rabiscar antes de continuar.

 

- Sinto que a vice é mais maleável a negociações. Ela pode viver por mais tempo, ou pelo menos até minha presidência na câmara se confirmar. Esse outro patriota aqui - apontando para um homem à sua direita - é o piloto número 1 da frota de helicópteros do planalto. Articularemos um compromisso no qual a vice precise utilizar a aeronave. Esse patriota se sacrificará pela nação e todos acharão que foi um acidente. Honraremos o seu nome para que todos se lembrem de sua bravura.

- Salve Silva! - gritou o piloto.

 

Silva desenhou um pouco mais e depois voltou a falar.

 

- Eu assumo o Brasil na sequência e a primeira medida será pedir estado de sítio, alegando não termos segurança o suficiente por causa das mortes do presidente e da vice. A partir daí, troco o comando da Polícia Federal e da Guarda Nacional transformando as duas em uma única unidade que chamaremos de Polícia Nacional. A Acibem será ampliada e atuará fazendo o serviço que nem o exército tem coragem de fazer. Vocês - olhou para os seus milicianos - reunirão outros patriotas comprometidos para aumentar nossa força de atuação. Iremos precisar disso.

 

Silva voltou a rabiscar. Cinco minutos depois, continuou a descrever seu plano.

 

- Iremos começar a prender todos os esquerdistas declarados sob suspeita de crime contra a nação. Aqueles que resistirem, devem ser eliminados. Mas nos começaremos a limpeza pelas favelas. Fatalmente entraremos em confronto com as facções criminosas. Isso será bom, pois a opinião pública nos dará respaldo, afinal será uma guerra declarada contra o crime organizado. Infelizmente nem todo mundo verá isso com bons olhos. Estou falando da imprensa. Logo que eu decretar estado de sítio, iremos deflagrar a operação "Parem as Máquinas". A Acibem irá entrar em cada redação de jornal, revista, TV e rádio desse país e dará o recado com a maior clareza do mundo: "ou está com a nação ou está contra a nação". Quem aceitar a parceria, receberá uma grande quantia em dinheiro, isso fará com que jornais menores não pensem em recusar. Quem resistir, deverá ser eliminado. Com o controle da imprensa, estaremos livres para iniciar a operação "Ponta da praia". Os adultos esquerdistas devem ser submetidos a trabalhos forçados e as suas crianças levadas para escolas militares. Quem resistir deve ser eliminado.

 

Silva mostrou que o papel que rabiscava era um esboço de várias bandeiras. A única que não estava rabiscada era de uma bandeira de fundo verde com uma cruz amarela no meio. Embaixo dela estava escrito: Deus acima de tudo. Brasileiros acima de todos.

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