• Felipe Schadt

#VidaCrônica - O Bigode do meu Pai: É Pênalti!

Nessa crônica você vai entender como um brasileiro resolveu não torcer para a Seleção canarinho.

O pênalti cobrado por Roberto Baggio em 1994

A Copa está chegando e eu, como todo mundo, estou empolgado. Mas minha seleção é outra. É a Alemanha. Graças ao bigode do meu pai...

Não era um bigode qualquer. Era uma bigodela de respeito. Típica de um oficial do alto escalão de alguma corporação militar.

Com os meus cinco anos de existência eu não entendia nada da vida naquele inverno de 1994. Mesmo assim, algumas coisas eram tão significativas que você aprendia a entender quase que por osmose. Como por exemplo que era ano de Copa do Mundo e que você, por ser brasileiro, deveria parar o que estava fazendo quando aqueles 11 caras, 10 deles de camisa amarela entravam em campo.


Era um domingo, 17 de julho. Todos nós estávamos na sala da casa de meus tios para ver a grande final da competição. Brasil e Itália iriam disputar o título máximo do futebol e o mundo colocava o olho no estádio Rose Bowl através da televisão. Todo mundo, menos eu.

Enquanto o frenesi tomava conta daquela sala, eu estava em outro mundo. Desenhando em um papel figuras praticamente rupestres que só uma criança consegue fazer. Estava sentado no chão, bem de frente para a televisão, mas meu olhos estavam colado no papel e a cada desenho, um apelo para os adultos darem atenção para minha famigerada arte incompreendida.


- Mãe, olha! - Que lindo filho! "Que lindo filho? Mas você nem olhou!". Tentei de novo, dessa vez com meus tios. - Tio, tia. Olha! - Olha que bonito... Uhhh!!!!


Um tal de Branco tinha chutado a bola em uma cobrança de falta e um tal de Pagliuca tinha defendido. E meu desenho tinha ido para escanteio.


Sentei emburrado e fiquei com raiva daquilo tudo. Todo mundo parado, com os olhos vidrados na frente da televisão. Minha mãe gritando a cada lance como se os jogadores do outro lado da tela pudessem ouvir. Meus tios preocupados como se tivessem apostado uma grana alta naquela partida. Minha prima, menor que eu, entendia menos a situação ainda e não compactuava com a atmosfera instalada dando atenção total a sua boneca no canto da sala. Aí resolvi olhar para meu pai.


Um cara alto, olhos claros, com cabelos louros que já davam sinal de que iriam abandonar aquele couro cabeludo em alguns anos, uma pequena saliência na região da barriga que se transformaria em um barrigão tão logo o cabelo fugisse da cabeça. Mas o que me impressionava no meu pai era o bigode.

Não era um bigode qualquer. Era uma bigodela de respeito. Típica de um oficial do alto escalão de alguma corporação militar. Aqueles pelos abaixo do nariz o deixava imponente. Quase um super herói pra mim. E se tinha uma coisa que eu sabia era: "Quero ter um bigode igual o do meu pai". Aquilo sempre esteve ali. Desde que nasci o bigode já fazia parte do meu pai.


O tempo passou. Na verdade, os dois tempos passaram. E nada de ouvir o pitoresco grito de gol do narrador. A impaciência tomava conta do lugar. Aquele chão revestido por madeira parecia tremer a cada "Uhhh" que era emanado da boca dos meus familiares. Mas mesmo assim o jogo não me chamava a atenção. Nem quando ouvia-se "Romááário", ou "Sai que é tua Taffarel!". Eu queria logo que aquele jogo idiota acabasse para que tudo voltasse ao normal.


Foi então que eu ouvi o Galvão Bueno, fatídico narrador esportivo dizer: "Final de jogo!". O alívio se instaurou no meu jovem coraçãozinho. Mas tão rápido veio o alívio, tão rápido ele se foi. Como uma bola de sorvete que cai no chão à primeira lambida. O narrador disse: "Agora vamos aos pênaltis". O ditado que diz que nada é tão ruim que não possa piorar valeu pra mim naquele dia. Todo mundo tenso, procurando algo que os salvassem daquele sofrimento quando o meu pai se levanta como um raio e grita como um trovão.

- Se o Brasil ganhar eu raspo meu bigode!


... Continua ...


Conhecimento é Conquista

-FS

*Texto publicado em 2014

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© 2020 por FELIPE SCHADT.

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