• Felipe Schadt

Um vírus imune à Fé


William Kamkwamba percebeu que a fé não resolveria os seus problemas. (Imagem: Reprodução / TED Talks):

> A Fé não irá nos ajudar. Começo o esse texto de maneira polêmica para fazer um filtro mesmo. Os fortes que resistirem ao título e a essa introdução, sejam bem-vindos, mas adianto, terá que ter estômago forte para ler algumas coisas. Não quero abalar a sua fé nem a de ninguém. Só quero trazer uma perspectiva de que ela não irá nos ajudar… Pronto, acho que agora só ficou quem realmente quer seguir adiante. Não diga que eu não avisei. Falo isso porque falar de Fé sempre é muito complicado. Principalmente para aqueles que são apegados à ela. Mas é isso aí… Vamos torcer a Fé. Fé é acreditar em algo sem a necessidade de comprovação. Ter Fé é assumir que não se pode comprovar algo em que se acredita. E os sapiens são os mestres em acreditar nessas coisas. Foi a nossa habilidade de contar histórias e de acreditar nelas que nos trouxeram até aqui, pois foi essa crença que nos possibilitou a cooperação em larga escala e, consequentemente, a criação de uma comunidade grande o bastante para dominar o planeta. Nossos primos distantes, os chimpanzés, não possuem Fé. E é por isso que eles não dominaram o mundo. O bando suporta um máximo de 50 membros cooperando para o grupo sobreviver e prosperar na selva e não dá para dominar o mundo com 50 macacos. Isso porque tudo gira em torno de um macho alfa que controla a cadeia de relações entre os outros do bando. Além disso, há uma condição importante para que o grupo se mantenha unido: a confiança que uns tem nos outros. O macho alfa é o membro mais confiável do bando e por isso exerce o papel de liderança. Essa confiança existe pois todos os membros do grupo se conhecem e já trocaram entre si. Um grupo com muitos chimpanzés faz com que nem todos possam se conectar de forma efetiva o que afeta a relação do bando. Um macaco pensaria: “Por que vou dividir essa banana com aquele macaco que eu nem conheço?”. Obviamente essa pergunta não é feita, mas o raciocínio existe. Então há um racha no grupo e, forma-se outro, com outro macho alfa e outros membros. Com os humanos a dinâmica não é tão diferente. Nossas relações e estágios de cooperação também se baseiam na confiança que temos uns nos outros. Mas por que conseguimos cooperar com pessoas que jamais vimos antes? Porque diferente dos nossos primos chimpanzés, temos Fé. Ou seja, os seres humanos são capazes de cooperar com outros humanos se todos eles acreditarem nos mesmos mitos. Esses mitos só existem na imaginação das pessoas e são reforçados justamente quando muitas delas acreditam neles. Aqui vai três mitos coletivos muito famosos: Estado Nação, Dinheiro e Deus. Um alemão protegeria a vida de outro alemão que ele não conhece se esse fosse atacado por franceses em uma emboscada, tudo isso porque os alemães compartilham da crença nos mesmos símbolos e em linhas imaginárias que dividem um território do outro; 156 milhões de brasileiros acreditavam que um pedaço de papel com o rosto de um artista modernista tinha valor; Adriano e Tadeu mataram muçulmanos nas cruzadas por que acreditavam no mesmo Deus e que esse Deus os abençoaria por isso. Os alemães deixaram de acreditar nos símbolos nacionais e na linha imaginária que dividia seu país e a Alemanha Oriental deixou de existir. Tente comprar um voo para a República Democrática Alemã e falhe miseravelmente; Os brasileiros deixaram de acreditar na cédula cor-de-rosa com o rosto de Mario de Andrade e por isso os 500 mil cruzeiros não valem mais nada. Tente ir até uma padaria e pagar sua conta com uma dessas pra você ver o padeiro rir da sua cara. Mas pessoas ainda matam outras por acreditarem em mitos religiosos, porém se essas pessoas deixassem de acreditar em suas divindades, o efeito poderia ser muito similar ao da Alemanha Oriental e do Cruzeiro Real. Só que a história inventada sobre Deus foi muito bem contada e é por isso que dura 2 mil e 20 anos. E essa história diz que Ele é o todo poderoso que tudo sabe, tudo cria, tudo pode. Deus se tornou uma espécie de chave mestra para resolver todos os problemas que não conseguimos resolver. A era teológica, alta e baixa idade média, nos comprova isso. Se um trovão ecoasse no céu e alguém perguntasse: “Por que antes de uma tempestade há barulhos no céu?”, e ninguém soubesse explicar, recorria-se à chave mestra: “Deus estava mostrando sua fúria!”. Quando marinheiros morriam de hemorragias após apresentarem inflamação nas gengivas e alguém perguntasse “Por que eles morrem desse jeito?”, e ninguém conseguisse solucionar, lá vinha a chave mestra outra vez: “Porque Deus quis assim”. E quando surgia um arco-íris no céu e alguém ficasse curioso sobre: “Por que os arco-íris existem?”, e nenhum ser humano pudesse explicar, chave mestra neles: “É a aliança que Deus fez com Noé”. Mas aí veio a ciência e descobriu que o trovão é uma manifestação sonora do atrito da massa de ar quente chocando com a massa de ar frio; que os marinheiros morriam de escorbuto, doença causada pela falta de vitamina C no organismo; e que o arco-íris é um fenômeno ótico que separa a luz do sol por meio das gotículas de chuva em um espectro de nove cores. Sim o arco-íris tem nove cores, é que você nunca contou o infravermelho e o ultravioleta. Mas usar essa chave mestra é muito tentadora. Ela nos poupa do ônus da ignorância. Se não temos resposta, a gente diz que é Deus e está tudo certo. Muitos já aceitam a teoria do Big Bang, mas aí vem a pergunta que adoram fazer: “Mas o que veio antes do Big Bang?”… A ciência diz não saber ainda, porem como nós não gostamos de ficar sem respostas, pegamos a chave mestra chamada Deus e logo atribuímos à ele a solução do problema. Essa chave mestra só funciona porque acreditamos nela. Agora imagine se, não houvessem pessoas que não comprassem esse historia. Ainda estaríamos achando que o trovão é um esbravejar do Criador? Provavelmente sim. A ciência só pôde avançar porque algumas pessoas se negaram a simplesmente acreditar. Elas quiseram botar as coisas a prova. E o que acontecia quando se colocava as coisas a prova? A crença morria. William Kamkwamba se recusou a esperar que os ancestrais fizessem alguma coisa para a chuva voltar na seca Malawi. Pegou um dínamo, uma bicicleta e mais algumas engenhocas e construiu um moinho de vento que gerava eletricidade para uma bomba d’água irrigar a plantação da família. Eles perceberam que ter uma boa colheita nada tem a ver com as vontades dos deuses, mas sim com um bom sistema de irrigação. O Menino que Descobriu o Vento é um filme que mostra muito bem como a Fé pode ser um atraso. Em tempos de pandemia, a Fé pode até ser letal. Enquanto a ciência, comprovadamente, explica que a melhor maneira de controlar o COVID-19 é ficando em casa, higienizando as mãos e evitando aglomerações, alguns homens de Fé, sem nenhuma comprovação, dizem que Deus os protege da contaminação e por isso ignoram a quarentena. Inclusive muitos pastores não engoliram o fechamento de seus cultos pelo isolamento social, dizendo, mais uma vez sem nenhuma comprovação, que o povo em oração está imune ao vírus. Ou pior, quando o presidente da república anuncia que fará um chamamento nacional para dia de jejum religioso contra o coronavírus. Muita gente, por outro lado, deposita sua Fé na comunidade científica e na criação da cura do COVID-19. Vamos voltar uma frase importante que eu disse no começo: “Fé é acreditar em algo que não se pode comprovar”. Se você acredita na ciência, não é Fé que você tem nela. Ninguém reza para vacina contra poliomielite funcionar, porque é cientificamente comprovada que aquela gotinha funciona. Você só precisaria rezar, ou ter Fé, se algo não é comprovado. A comunidade científica não precisa de sua Fé, pois se você reza pela ciência, significa que você não confia nela. Se confiasse, não rezaria para outra entidade intervir. Sugiro um exercício: imagine se esses cientistas resolvessem parar agora de trabalhar porque eles têm Fé de que se eles se ajoelharem, juntarem as mãos e rezarem em seus laboratórios, a cura irá surgir. Ou melhor. Imagine que todos, todos mesmos, chefe de estados, médicos, enfermeiros, agricultores, caminhoneiros e você parassem de fazer o que estão fazendo para jejuarem uma vez por semana e fazerem uma corrente de oração todos os dias para combater o coronavírus. Pareceu absurdo para você? Por causa da inquisição na baixa Idade Média, gatos eram considerados animais malignos e ligados ao demônio. Isso foi reforçado graças a uma bula pontifícia, uma espécie de alvará escrito pelo Papa, que condenava uma prática satânica em uma cidade alemã. A bula Vox in Roma, escrita no início dos anos de 1230 pelo Papa Gregório IX, relatava um ritual que pessoas utilizavam gatos pretos para “bruxaria”. Isso bastou para as pessoas, com Fé na igreja e na inquisição, perseguissem os bichanos quase que os dizimando de toda a Europa. Um século depois, sem população de gatos, os ratos literalmente fizeram a festa nos sujos centros europeus. Com os ratos, pulgas que eram hospedeiras da bactéria Yersinia pestis, a peste bubônica. Por causa da crença em uma história que não tinha nenhuma comprovação, a de que gatos pretos serviam para rituais de magia, cerca de 200 milhões de pessoas morreram na Europa medieval. Felizmente alguns homens e mulheres não acreditam em histórias. Felizmente essas pessoas decidiram colocar essas histórias à prova. Essas mesa gente que não espera milagres mas cria alguns em laboratórios. Se não fosse a falta de Fé dessas pessoas, estaríamos onde? Porém, e sempre há um porem. Você que foi teimoso e ficou ouvindo esse podcast mesmo com as advertências pode me perguntar: “Mas a Fé pode nos motivar a fazer coisas boas”. Eu te lanço uma provocação para você pensar a respeito: “Se a Fé em Deus te motiva a fazer coisas boas, no dia que comprovarem que Ele não existisse, você continuará fazendo as coisas boas mesmo sem a Fé para motiva-lo?”. Essa provocação nem é minha, é do irônico filósofo dinamarquês, Kierkegaard. Mas sejamos justos. A Fé serve para te confortar. Para te dar um alívio. Mas esse conforto é particular e egoísta. E o alívio é sobre ter respostas para algo que você não sabe explicar. Sem contar que não é nada complicado acreditar sem precisar de uma prova. E por você ter essa anestesia, você se conforma com ela e fica parado esperando a chuva chegar ao invés de construir um sistema de irrigação. É muito mais fácil ter Fé de que tudo vai melhorar num passe de mágica do que construir quites de higiene para distribuir para moradores de rua que não têm acesso nem a água e sabão. A Fé é boa para você, mas de nada adianta para a humanidade, principalmente nesse momento de pandemia, ficar em casa e rezar… Quer dizer… Se rezar te faz ficar em casa, então continue tendo Fé. Conhecimento é Conquista

-FS

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© 2020 por FELIPE SCHADT.

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