Carnaval epicurista
- Felipe Schadt

- há 18 minutos
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Eu não sei você, caro leitor, mas eu adoro o carnaval. E eu o adoro por todos os motivos clichês que você já deve ter escutado por aí: “Momento de extravasar”, “cinco dias sem pensar nos problemas”, “todo mundo fica feliz nessa época do ano”, “festejar sem medo de ser feliz” e a lista poderia seguir ao infinito. Goste você ou não, o carnaval é a síntese perfeita da felicidade que só o brasileiro é capaz de exalar.
Mas não foi sempre assim. Eu já disse por aqui em algum texto que eu aprendi a gostar do carnaval tardiamente. 2026 é só o meu quarto carnaval de verdade. Entenda “carnaval de verdade” como aquele aproveitado em bloquinhos de rua, fantasia e muita festa no meio de centenas de desconhecidos. Parece só insalubre pra quem vê de fora, mas para quem está dentro, é uma insalubridade feliz.
Quando fui curtir meu primeiro carnaval de verdade, no já longínquo 2022, o mundo estava ávido para festejar. Era o primeiro ano pós-covid e até eu, adepto do “Unidos do Sofá”, decidi sair às ruas para comemorar tudo o que eu podia, sobretudo a sobrevivência daqueles dois anos infernais de pandemia. Mas eu, por não saber como curtir, não fiz nada que me causasse culpa envergonhada no dia seguinte.
Mas minha moderação não se deu só pela minha inexperiência carnavalesca. Quando vi muitos amigos chutando o balde e tudo o que aparecia pela frente e, no dia seguinte, sofrendo com a ressaca física e moral, eu entendi muito rápido que a alegria do carnaval tem um preço. Se jogar de cabeça na avenida significava dores profundas no cocuruto, por outro lado, ficar de freio de mão puxado não te causaria nenhuma alegria digna de ser lembrada em tempos vindouros. Seria possível encontrar um meio termo entre a loucura e a sensatez na avenida? Foi só dois anos depois, em 2024, que eu descobri a resposta.
Um grande amigo meu (que terá seu nome preservado para que sua vergonha continue restrita) resolveu que viveria o carnaval da forma mais intensa possível. Nos primeiros minutos de carnaval ele se desgarrou do bando e, o que eu ouvi depois foi quase assustador. Digamos que ele bebeu tudo o que tinha no balde, chutou-o e foi buscá-lo para enchê-lo e beber tudo outra vez. Resultado, passou tão mal, mas tão mal, que nos outros quatro dias de folia ele passou jogado no sofá sem forças para reagir à vida.
Esse meu amigo foi um exemplo clássico de hedonista. Os hedonistas gregos acreditavam que a busca pelo prazer era o grande motivo da existência. Assim ele o fez. Viveu o hoje como se não houvesse o amanhã. Para infelicidade desse meu amigo, o amanhã houve. E eis o problema do pensamento hedonista radical, a vida só é considerada no instante e o instante deve ser preenchido de prazer, custe o que custar.
“Exagerei. Mas tudo bem, é carnaval”
Epicuro, filósofo grego de 341 a. C., era um hedonista. Era chamado por seus rivais de porco por causa justamente da fama desenfreada que os adeptos dessa corrente filosófica tinham. Mas essa pecha era injusta, pois Epicuro acreditava nos prazeres como fonte máxima da vida, porém a vida para ele deveria ser preservada ao máximo para que ela pudesse ser preenchida de prazeres por mais tempo possível.
Para você entender esse conceito, vou contar o que eu fiz nesse mesmo carnaval de 2024. No primeiro dia, eu levei um número limitado de bebidas na minha mochila com gelo. Uma quantidade que ia me deixar alegre sem me derrubar. Além disso, para cada dosagem de álcool, uma garrafinha d’água. Esse balanceamento, eu sabia, iria evitar qualquer tipo de ressaca, além de me deixar completamente hidratado. E se a bebida era controlada, o meu tempo também foi. Ao contrário dos meus amigos, que ficaram até altas horas da madrugada na folia, eu já estava dormindo às 22h, longe dos perigos noturnos. Tudo isso, pois no dia seguinte, às 9h, eu iria para outro bloquinho.
E assim eu fiz durante os cinco dias de carnaval. E eu só consegui curtir os cinco dias de carnaval porque eu fui um exemplo vivo do epicurismo, ou seja, viver os prazeres de maneira moderada para que os prazeres possam ser prolongados. Pense comigo: meu amigo viveu de forma desenfreada no dia 1 de carnaval e sentiu ao máximo todos os tipos de prazeres. Isso fez com que ele estragasse seu corpo que, por sua vez, o impediu de sentir mais prazeres nos dias seguintes. O carnaval para ele durou um dia.
Agora veja o meu caso. Eu não senti todos os prazeres que ele sentiu. Escolhi sentir menos prazer, o que manteve meu corpo saudável para, no dia seguinte eu sentir mais um pouco de prazer e no outro dia mais um pouco e assim por diante. No fim, meu carnaval durou cinco dias.
Se você ainda não entendeu, vou usar um exemplo culinário. Você tem uma barra de chocolate e só comprará outra na semana que vem. Se você comer ela toda na segunda-feira, ficará seis dias sem sentir o gosto do chocolate. Agora, se você comer um pouquinho por dia, terá uma semana inteira de prazer.
Mas eu fico me perguntando se Epicuro, que nasceu justamente nessa época do ano, seria tão moderado assim se vivesse um carnaval no Brasil. Falo isso porque eu também entendo o folião menos epicurista da avenida que esquece os ensinamentos do mestre e vive tudo o que pode sem nenhuma moderação e que, talvez, esteja agora, na segunda de carnaval, jogado no sofá sem forças para aproveitar o lindo dia que faz lá fora. Quem sabe eu mesmo não seja essa pessoa...
“Exagerei. Mas tudo bem, é carnaval”, diria qualquer epicurista brasileiro.
Conhecimento é conquista
-FS





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