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Trinta e sete voltas em torno do Sol

  • Foto do escritor: Felipe Schadt
    Felipe Schadt
  • há 1 dia
  • 3 min de leitura
    Eu e meus amados pupilos para mais um encontro de aniversário
O privilégio do astronauta é poder ver o mundo macro

Quando eu era criança, eu vivia dizendo aos sete ventos que eu queria ser um cientista da NASA. Veja bem, não era qualquer tipo de cientista. Era especificamente da NASA. Eu não sei dizer o motivo, mas suspeito que seja porque eu achava que seria o máximo que um cientista poderia chegar. 


Minha predileção por ciência começou cedo, com um livro que meu pai tinha do Jacques Cousteau. Eu adorava ver as fotos que aquele oceonógrafo havia capturado a bordo do Calypso. Aquilo foi meu primeiro contato com um mundo que não era o meu. Depois, veio o Mundo de Beakman, programa infantil que era exibido pela TV Cultura nos anos 1990. Foi com o personagem de Paul Zaloom que eu criei o desejo de ser um cientista.


Só que essa vontade foi diluindo com o tempo e quando eu já não tinha nenhuma pretenção em ir para a NASA, eu vi uma fotografia que eu só compreenderia por completo às vésperas dos meus 37 anos. “Pálido Ponto Azul”, foi uma imagem tirada no dia 14 de fevereiro de 1990 (12 dias depois do meu primeiro aniversário) pela pela sonda Voyager 1, de uma distância de seis bilhões de quilômetros da Terra.


Minha primeira impressão foi: “nossa, como somos pequenos!” É o efeito “overview” que todos que tiveram a oportunidade de ver nosso planeta do espaço sentiram. Não fui para o espaço, vi a foto em um livro didático, mas a sensação de miudeza foi forte o bastante.


A partir daí, outras imagens do nosso planeta foram chegando aos meus olhos e minhas constatações continuavam as mesmas a respeito do nosso tamanho perante ao universo. Até que um texto de Stephen Hawking mudaria um pouco minha perspectiva. 


“Quando vemos a Terra do espaço, não vemos divisões. Vemos uma unidade”, disse o físico. Foi então que eu entendi que estamos todos dividindo o mesmo lugar, a mesma pedra azul perdida no vazio do infinito. Somos todos pertencentes da mesma e única aldeia global (para citar Marshall McLuhan).


Eu gostava tanto dessa ideia de unidade que eu usava esse mesmo texto de Hawking nos shows da minha banda para introduzir a música final. Era um vídeo mostrando imagens do nosso planeta do espaço com a voz robotizada do programa de computador que permitia o cientista em questão se comunicar. A mensagem que eu queria passar era que “ou a gente muda o mundo juntos ou o mundo não vai mudar”.


Na minha cabeça, era inadmissível as pessoas não se ligarem nisso. Eu ficava enfurecido com a capacidade da maioria de não enxergar que estamos todos juntos e que, portanto, precisaríamos trabalhar juntos para termos uma vida melhor para todos. A visão micro me incomodava, pois me fazia acreditar no quanto egoístas somos capazes de ser.


Mas foi só agora em janeiro de 2026 que eu tive total compreensão do que eu custava entender sobre essa nossa incapacidade de ver o todo. Chris Martin, vocalista do Coldplay, em uma entrevista, disse algo muito bonito sobre como os seres humanos são parecidos por justamente compartilharem a mesma casa, mas o quanto é um privilégio poder compreender isso. As pessoas enfrentam tantos problemas particulares e pequenos (em relação ao universo) que não possuem tempo ou condições de pensarem no todo. “É um luxo ver o mundo do tamanho que ele é”, resumiu o vocalista. 


Enxergar macro não é fácil. Você precisa se desprender do cotidiano e normalmente você não quer fazer isso. Eu tenho a tendência de achar que o meu problema é sempre um grande problema. Mas quando você se permite pensar sobre seu tamanho perante o mundo, sobre como existem bilhões de pessoas com seus próprios problemas e no tempo que você tem para viver tudo isso, sua perspectiva muda. E na minha minúscula experiência, isso mudou o jogo pra mim.


Temos que tentar ser astronautas (ou cosmonautas, se preferir) e enxergar o todo. Temos pouquíssimo tempo para isso, pois para o todo, para o universo, o tempo que nos foi dado é um piscar de olhos. E você sabe que dá para fazer pouquíssima coisa nesse instante fugaz, portanto, seria bom se escolhêssemos fazer a coisa mais humana que existe: amar uns aos outros.


Hoje, 02 de fevereiro, eu completo 37 voltas em torno do Sol e, vendo (ou tentando ver) de uma forma mais macro possível, estou cada vez mais convencido de que só o amor pode mudar o mundo. Esse mesmo mundo que é um pálido ponto azul no universo e que é ao mesmo tempo a nossa casa.

Conhecimento é conquista

-FS

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© 2026 por FELIPE SCHADT.

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