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Borboletas no cosmos

  • Foto do escritor: Felipe Schadt
    Felipe Schadt
  • há 1 dia
  • 4 min de leitura
A Nebulosa da Borboleta: o formato que anuncia o fim de uma estrela (Imagem: Internet)
A Nebulosa da Borboleta: o formato que anuncia o fim de uma estrela (Imagem: Internet)

Não sou muito fã de mesacasts (podcast feitos numa mesa). Gosto mais dos podcasts que estão muito mais para um programa de rádio do que as entrevistas mambembes de fenômenos da internet como Flow, Podpah, Inteligência Ltda., entre outros. Sempre acho que, no fim das contas, esses mesacasts só fazem sucesso por causa dos convidados que vão até lá e sustentam o episódio nas costas.


Além disso, esse tipo de programa se tornou um grande "caça corte". Tanto é, que outro ingrediente do sucesso são as falas polêmicas que convidados sensacionalistas fazem questão de soltar nos microfones que, cada vez mais, dão mais espaço para desinformação e demais mazelas profetizadas por Umberto Eco.


É por essas e outras que eu não costumo gastar meu precioso tempo dando audiência para esse tipo de programação, a não ser que os convidados sejam Juca Kfouri e Miguel Nicolelis. Não importa onde esses dois senhores de cabelos brancos estejam dando entrevistas, eu faço questão de ouví-las na íntegra. O Juca, jornalista como eu, tem uma visão crítica de mundo - e do próprio jornalismo - que me encanta muito, além de ser um arquivo vivo do futebol. Já Miguel Nicolelis, neurocientista, é na minha humilde opinião o sujeito mais inteligente que já vi, um exemplo perfeito - e em extinção - de um humanista que encheria Isaac Asimov de orgulho. O primeiro, corintiano doente e o segundo, palmeirense roxo.


Estava ouvindo a entrevista do Dr. Nicolelis em um desses mesacats da internet quando ele disse uma coisa - dentre tantas - que me chamou a atenção e me fez parar por um instante de ensaboar os pratos do café da manhã. Ele estava explicando que Carl Sagan - outro habitante do Olimpo da sabedoria humana - nos comparava com borboletas. Quando observamos borboletas no jardim, pensamos no quanto elas são extraordinárias e bonitas ao mesmo tempo que lamentamos sua breve existência que dura um pouco mais do que uma semana.


"Imagina um ser cósmico olhando para nós de algum canto do universo. Ele deve ter o mesmo sentimento que nós temos quando olhamos para as borboletas. 'Olha como eles [humanos] são extraordinários e bonitos, pena que possuem uma existência tão breve'", disse, mais ou menos assim, o neurocientista na mesa de entrevista.


Isso me fez lembrar na hora de outro cara fenomenal que gosto muito de acompanhar em uma entrevista a outro mesacast. Clóvis de Barros Filho, professor e palestrante, explicava como nossa vida em escala cósmica é menos que um piscar de olhos e que, independente do que façamos ou deixamos de fazer, o movimento do universo continuará impávido ante a nossa existência.


Quem tem tempo para pensar no tempo?

Nicolelis defendeu, após lembrar a fala de Carl Sagan, que nossa vida é extraordinária e breve demais para nos ocuparmos com coisas que não fazem nenhum sentido do ponto de vista humano. Já o professor Clóvis enfatizou que devemos fazer da nossa vida um espetáculo no qual nossa existência seja preenchida de contentamento. Fazer da vida uma vida que valha a pena viver, diria Nietzsche se ouvisse essas duas entrevistas.


Coloquei o prato ensaboado na cuba e apoiei meus dois braços na pia logo que pausei o áudio da entrevista que eu estava ouvindo. Eu precisava pensar um pouco sobre o tempo que eu tive e ainda tenho. Quantos bater de asas eu ainda tinha antes que eu alcançasse a eterna fraqueza e caísse na grama do jardim onde a primavera é eterna? Ou sendo menos poético, quantas louças eu ainda levaria na vida?


Lembrei de um texto recente que escrevi também sobre uma entrevista que assisti, no qual Chris Martin, vocalista do Coldplay, falava sobre o luxo de poder enxergar o mundo de maneira macro. Não são todas as pessoas que têm o privilégio de entender que somos todos moradores da mesma casa, infelizmente há problemas menores que tiram nosso foco. Também acho luxuoso poder pensar sobre o próprio tempo. Mais luxuoso ainda é poder decidir o que fazer do próprio tempo. Quem tem tempo para pensar no tempo? Infelizmente, nem todas as borboletas podem descansar dois dias na semana para começar.


Mas mesmo assim, olhar para a humanidade como um todo gastando a única vida que se tem fazendo guerra um com os outros por abstrações mentais que nem existem de fato - Estado-nação, dinheiro e religião - é o ponto que o Dr. Nicolelis estava chegando antes de eu pausar a entrevista. É de uma burrice sem precedentes não perceber o óbvio que, de tão óbvio, se tornou uma frase que todo mundo conhece: "No fim do jogo, peão e rei voltam para a mesma caixa".


Eu acho que se houver algum ser cósmico olhando para nós, ele não deve fazer isso com fascínio. Ele deve se perguntar o que nos leva gastar nossa breve existência criando subterfúgios para deixá-la mais curta e miserável possível. Seria como se olhássemos as borboletas em um jardim gastando seus preciosos dias de vida comendo as próprias asas e julgando as outras borboletas que decidiram voar.


Conhecimento é conquista

-FS

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