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O sonho americano não fala só inglês

  • Foto do escritor: Felipe Schadt
    Felipe Schadt
  • há 6 minutos
  • 4 min de leitura
Bad Bunny se apresentou durante o show do intervalo do Super Bowl em Santa Clara, Califórnia. (Foto: Kevin Mazur/Getty Images)
Bad Bunny se apresentou durante o show do intervalo do Super Bowl em Santa Clara, Califórnia. (Foto: Kevin Mazur/Getty Images)

O que mais de 135 milhões de espectadores em todo mundo assistiram no show do intervalo do Super Bowl LX, foi muito mais que uma apresentação musical para entreter o público entre o segundo e terceiro quartos da partida mais importante da temporada da NFL. Bad Bunny comandou uma das maiores carteiradas latino-americanas da história do showbizz com consciência geográfica, crítica política e humanismo.


Enquanto eu assistia a reprise do show - porque eu havia escolhido sofrer com o Corinthians ao invés de assistir o Halftime Show do Super Bowl -, eu me sentia vingado por causa de uma leve discussão que tive com meu professor de inglês há dez anos. Eu fazia intercâmbio em uma cidade chamada Camden, que faz fronteira com a Filadélfia e lá, no campus da Rutgers University, eu tinha aulas com um professor britânico de "Inglês Acadêmico" e entramos no embate sobre a América ser o continente e não o país.


Ele, um imigrante - europeu, mas imigrante -, defendia piamente que a América era os EUA e as únicas divisões aceitáveis eram as Américas do Norte, Central e do Sul. Eu, com meu inglês cheio de sotaque brasileiro, argumentava que a América era todo o continente e que, portanto, eu também era, ao pé da letra, americano. Não consegui convencer meu professor naquele dia, mas acho que Benito Antonio Martinez Ocasio, o rapper porto-riquenho Bad Bunny, conseguiu passar o recado para o mundo todo.


"Juntos, somos a América" era a frase em inglês que estampava a bola de Futebol Americano que Bad Bunny carregava durante sua performance e que deu o tom final da apresentação, após o cantor listar todos os países do continente americano, um por um, e pedir, também em inglês, a frase mais icônica do imaginário coletivo patriótico estadunidense: "God bless America". O recado foi dado. A América que ele se referia, era muito mais do que a que fica entre Nova York e Los Angeles.


Aliás, foi a única frase em inglês que se ouviu durante a apresentação de Bad Bunny que fez questão de cantar e falar apenas em espanhol (junto com o inglês, língua oficial de Porto Rico). Além disso, na abertura, foram mostrados os dizeres na transmissão "el espectáculo de medio tiempo del Súper Tazón", ou seja, "o espetáculo do intervalo do Super Bowl" em espanhol. Além da frase na bola e do "God bless America", o inglês só voltaria para o telão do estádio mais uma única vez.


O que também se viu no show de pouco menos de 15 minutos de duração, foi fortíssimas referências à cultura porto-riquenha - e latina de modo geral - como a plantação de cana-de-açúcar, a "casita", que representa uma típica casinha de Porto Rico, além de celebridades latinas como Cardi B, Karol G, Pedro Pascal, Ricky Martin e Jessica Alba. O orgulho latino-americano transbordava pelo gramado do Levi's Stadium, em San Francisco.


Bad Bunny, já perto do fim de sua apresentação, surgiu com uma bandeira de Porto Rico, com o triângulo em azul-claro, que faz referência aos rebeldes pró-independência do país. Foi nesse momento que ele cantou "El Apagón", uma de suas músicas mais críticas. Ao subir em um poste de energia, ele acenou para a destruição causada pelo furacão Maria, em 2017, que abalou toda a infraestrutura elétrica de seu país que sofreu com a negligência governamental.


As referências geográficas também foram base para outra investida do cantor: a política imigratória de Donald Trump. Desde que voltou à Casa Branca, Trump nunca escondeu que não mediria esforços para perseguir os imigrantes - sobretudo os latinos - que viviam de forma ilegal nos EUA. Seu Serviço de Alfândega e Imigração (ICE), polícia que virou alvo de protestos no país após causarem mortes por excesso de força, havia aparecido na fala de Bad Bunny uma semana antes na premiação do Grammy, que consagrou o álbum Debí Tirar Más Fotos como o melhor álbum do ano. "Fora ICE!", disse Benito já com a estatueta nas mãos.


Ao mostrar o povo latino em seu show no Super Bowl, o rapper deixou claro que a América é para todos os americanos. Idosos jogando dominó em uma mesa de bar, dançarinos, lutadores de boxe e até mesmo um casamento (real) tiveram espaço. O povo foi a estrela do show e o amor o grande catalisador. "A única coisa mais poderosa que o ódio é o amor", estampava os telões do estádio ao final da apresentação. A terceira e última aparição do inglês daquela noite.


Quem não gostou nem um pouco da já considerada a "mais política apresentação do Super Bowl de todos os tempos", foi o presidente Donald Trump que não poupou palavras para descrever seu descontentamento com o que assistiu - pela TV, pois Trump boicotou o evento após o anúncio de Bad Bunny e Green Day como atrações.


Ele reclamou do espanhol de Bad Bunny, do palco escolhido, das músicas e de tudo o que viu. Mas ele acertou em uma coisa que disse nessa declaração: "Foi um tapa na cara do nosso país". Exatamente, Trump. Foi porque todo estadunidense médio tem certeza de que o mundo se resume aos EUA. Espero que o tapa na cara tenha acordado vocês para a realidade: "Juntos, somos a América" e isso incluiu os outros 35 países que a compõem. Uma aula de geografia para quem se acha dono do mundo.


Uma vez, em um show do U2, Bono criticava Donald Trump durante as campanhas presidenciais em 2016. Irlandês, o vocalista do U2 sabe mais do que ninguém que seu povo, como muitos outros povos, ajudaram a construir os EUA no passado. Esse mesmo EUA que hoje persegue imigrantes. "A América é uma ideia", dizia o líder do U2 tentando explicar que não se trata de um território, se trata de um conceito. No caso específico, um conceito de liberdade. A birra do cantor com Trump era justamente por o candidato (à época) querer acabar com a liberdade dos imigrantes.


O sonho americano é muito maior do que o que nos foi vendido. O sonho americano não possui fronteiras e por isso cabe todos nós. O sonho americano não fala só inglês e o Benito mostrou isso para o mundo no Super Bowl, ou eu deveria dizer, Super Cumbuca?

Conhecimento é conquista

-FS

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