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  • Foto do escritorFelipe Schadt

Taylor Swift: um amor não correspondido



> Quando Taylor Swift surgiu para o mundo em 2006, num momento que a internet dava seus primeiros passos rumo a digitalização da música, eu fiquei completamente apaixonado pela menina loira de cabelos cacheados que cantava country. Ela entrava no meu panteão de deusas que possuíam meu amor platônico.


Como todo amor platônico, ensina Platão, não ser correspondido é a base que o sustenta. Amor platônico é Éros e Éros é desejo, ou seja, amor na falta. Quando você satisfaz um desejo, o amor acaba, logo, um amor platônico de verdade tem como premissa não se realizar. O que eu quero dizer com essa volta filosófica é que amores platônicos são feitos de uma pessoa que ama e de outra que não ama de volta.


Tudo bem ela nunca ter correspondido meu amor, fiz muito pouco para que isso acontecesse na verdade. O problema é que essa não reciprocidade eu estou vendo acontecer entre a “loirinha” e seu público, um dos mais fieis e eufóricos que eu já vi e que, ao contrário de mim, fez e faz de tudo para deixar claro esse sentimento por ela.


Eu sou muito fã de duas bandas: U2 e Coldplay. Já fiz muita loucura para vê-las de perto, como por exemplo, atravessar o planeta ou dormir na calçada. Por isso - e por bem menos - já fui muito criticado. Mas sempre o fui por quem não é como eu e tantos fãs que amam seus ídolos e fazem coisas que beiram a maluquice por eles.


Por causa disso, eu sei muito bem o que os fãs da Taylor Swift estão sentindo. Enfrentar filas virtuais e físicas por um ingresso que, via de regra, custa muito caro; se submeter ao descaso de empresas que vendem esses ingressos; mudar toda sua agenda para viajar para longe; enfrentar filas com sol e calor extremos e filas com chuva e frio; aperto e empurrões na pista; horas em pé até o show começar; e todo o cansaço para enfrentar mais muvuca para ir embora para casa.


Só que eu consigo perceber uma diferença muito grande entre a minha experiência com o U2 e o Coldplay com os shows da "Eras Tour" da diva pop norte-americana. E eu estou falando do tratamento que cada artista dá ao seu público.


Desde sempre o U2 é preocupado com o bem-estar de seus fãs. Em 1986, no famoso concerto do Live Aid, a banda irlandesa tinha, como todas as outras bandas, tempo para tocar apenas três músicas e durante a apresentação da canção “Bad”, Bono viu que uma fã passava muito mal na grade da pista que recebia cerca de 40 mil pessoas. Enquanto a música rolava, o vocalista tentou alertar os seguranças e teve que descer do palco para socorrer a fã. Isso fez com que o U2 não tivesse tempo o suficiente para executar a terceira música do seu repertório, o sucesso “Pride: In the name of love”.


Hoje em dia, o U2 se preocupa muito com a segurança dos seus fãs entes, durante e depois do show, oferecendo alternativas para que os fãs não precisem ficar horas na fila para entrar no estádio, por exemplo. Lembro que em 2017, no Morumbi, os 500 primeiros fãs receberam uma pulseira numerada ás 7h da manhã do dia do show para que pudessem ir descansar e só voltar na hora da abertura dos portões sem perder seu lugar na fila. Para completar, esses 500 fãs - me incluo no meio - foram conduzidos em fila e caminhando até a grade do palco. Sem correria e empurrões.


Com o Coldplay as coisas não são muito diferentes. Nos shows do Brasil em 2023, muita água foi distribuída para os fãs que estavam na pista, principalmente no Rio de Janeiro, onde o calor é bem forte. Em São Paulo, no terceiro show dessa turnê, uma chuva torrencial caia no Morumbi, causando pontos de alagamento onde os fãs esperavam na fila. A banda escolheu não ensaiar aquele dia para que os portões fossem abertos mais cedo para tirar as pessoas das ruas alagadas.


A última do grupo britânico liderado por Chris Martin aconteceu nessa semana, na Austrália. Dois vôos que iam para Perth - local do show - foram cancelados e muitos fãs não conseguiram chegar na cidade para ver o espetáculo. Problema deles, certo? Errado! O Coldplay anunciou que voltará para Austrália no final de 2024 e garantiu ingressos gratuitos para os fãs que foram prejudicados pelos cancelamentos dos vôos. Tem até um comunicado oficial no site da banda dando instruções para que essas pessoas possam entrar em contato e garantir seus ingressos. Sem contar que o Coldplay planta uma árvore para cada ingresso vendido da turnê do “Music of The Sphere”.


E saindo um pouco da minha bolha, o que dizer do RBD que mesmo sem sua estrela principal, Anahí, continuou os shows pelo compromisso com os seus fãs. Acontece que a cantora foi diagnosticada com infecção renal grave e só foi para o hospital quando realmente não aguentou mais e às lágrimas, anunciou que não conseguiria continuar o show. Os outros quatros artistas do grupo seguraram as pontas e não desmarcaram nenhum compromisso com o público que lotou os shows finais no Allianz Parque.


Também não tem como não lembrar de Dave Grohl, vocalista do Foo Fighters, que, durante uma apresentação da banda na Suécia, em 2015, caiu do palco e simplesmente quebrou a perna. O problema é que o show tinha acabado de começar e o lugar estava lotado. “Eu vou para o hospital concertar isso e eu volto para terminar o show”, disse o vocalista ainda no chão sendo atendido pelos paramédicos. Dito e feito. Ele foi para o hospital, engessou a perna, voltou para o palco e, sentado e com o auxílio de um enfermeiro - que ficou segurando sua perna o tempo todo - fez basicamente o show inteiro com a mesma vitalidade de sempre. Tudo em respeito aos fãs.


A Taylor Swift precisa salvar fãs esmagados na grade? Não. Precisa dar ingressos gratuitos para quem perdeu o vôo para o show? Não. Precisa plantar uma árvore para cada ingresso vendido? Não. Precisa fazer um show com dores físicas ou com a perna quebrada? Não também. Mas ela precisa mostrar que se importa.


Nenhuma menção até agora sobre Ana Clara Benevides, a não ser uma nota em seu Instagram de lamentação sobre a morte da fã. Nenhum auxílio à família. Nenhuma homenagem. Também não houve muito respeito aos fãs que já lotavam o Engenhão-RJ para ver o show e que souberam, menos de três horas antes do início do espetáculo, que ele seria adiado para dois dias depois.


O que eu quero dizer é que os fãs dão muito e recebem o mínimo: o show. Repito, ela não é obrigada a fazer mais do que faz em cima do palco. Claro que não. Mas como artista que é que movimenta um público fanático e cheio de amor, o mínimo é pouco. Por isso há aqueles que vão preferir recorrer ao Oasis e parafrasear a banda britânica quando eles cantam “Don't Look Back In Anger”: “por favor não ponha a sua vida nas mãos de uma banda de rock n’roll que jogará tudo fora”.


No fim, penso que sou um privilegiado. Meus relacionamentos com as bandas que escolhi amar são saudáveis e felizes. Tipo aquele romance correspondido.


Conhecimento é conquista. -FS



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