• Felipe Schadt

Socorro, estou sendo cancelado!

Hoje não temos mais o direito de errar. Temos que ser perfeitos o tempo inteiro

Cena do Episódio "White Christmas", de Black Mirror, em que Joe é "cancelado" (Imagem: Reprodução)

> Quem gosta de cometer um erro? Difícil alguém que goste de vacilar e se orgulha das cagadas que fez durante a vida. Porém há uma máxima que ouvi de um professor de matemática depois de ficar chateado comigo mesmo devido a minha incapacidade de achar o valor de X. “O melhor caminho do acerto é o erro”. Aquilo foi um alívio… Já que pelo menos o caminhar estava certo.


Mas essa adorável frase que me ajudou a não me abater com Bhaskara e Pitágoras, parece não ter muito mais efeito na vida pós-moderna que pulsa nas redes sociais da internet. Cometa um erro e automaticamente você será uma pessoa cancelada!


Isso me lembrou um episódio chamado “White Christmas” do seriado Black Mirror. Nesse episódio o protagonista, Joe, está preso em uma cabana com outro personagem e relembra sua antiga profissão que consistia em ajudar garotos tímidos a conquistar mulheres por meio de um dispositivo no qual ele podia ver o que seus clientes viam e, portanto, falar exatamente o que ele tinha que fazer com a garota-alvo. Um dia, após uma discussão doméstica com sua namorada grávida, Joe é bloqueado por ela. E quando eu falo bloqueado é bloqueado mesmo. Ele não consegue interagir mais com ela, tendo a sua imagem trocada por borrões e sua voz mutada. O interessante é que esse bloqueio não era virtual e sim real. Anos se passam sem Joe poder falar ou ser visto por sua namorada. As coisas pioram quando ele descobre que a cabana no qual estava com o outro personagem era uma armadilha da polícia para que ele confessasse sobre as ilegalidades de seu trabalho. Após ter todo seu esquema revelado, Joe é bloqueado para todas as pessoas se tornando uma ser humano cercado de tudo e invisível para todos.


Óbvio que o Black Mirror é uma hipérbole da nossa sociedade, mas vamos parar para pensar um pouco sobre o nosso personagem.


Joe foi acusado de utilizar os seus clientes para satisfazer seu desejo voyerista, ou seja, ele gostava de ver seus clientes em momentos íntimos e seu trabalho era só um pretexto para ele realizar suas fantasias. O que Joe merecia? Abusando da minha capacidade de julgar, ele deveria ser preso e reeducado para voltar apto a viver novamente em sociedade. O que é a real função do sistema prisional, inclusive. Mas Joe teve um castigo muito pior, a morte social.


Nosso personagem nunca poderá desfrutar do mantra do meu professor de matemática, pois o erro dele foi suficiente para que o tirassem de qualquer tipo de caminho rumo a coisa certa. Logo, ele nunca terá a possibilidade de acertar.


Claro que estamos dando um exemplo fictício e, de certa maneira, extremo. Mas vivemos em um momento em que tudo e qualquer um está passível de ser cancelado. Como no caso do protagonista da série, não há uma chance de redenção ou uma perspectiva de melhora. Errou? Cancelado!


Esse boicote social está na contramão de um dos discursos mais famosos da história. Aquele em que Jesus pergunta para os vorazes homens e mulheres que queriam apedrejar a adúltera. “Aquele que jamais pecou, que atire a primeira pedra”. Ou melhor, o cancelamento anula a ideia máxima de Cristo, o perdão.


Perdoar significa dar uma nova chance. Cancelar significa… Cancelar oportunidades de acerto.


Mais uma amostra da modernidade liquida descrita por Zygmunt Bauman transbordando pelo tecido social. Não queremos mais consertar alguma coisa que apresentou defeito porque é muito mais fácil descartá-la e trocá-la por uma nova. Pra que vou dar uma segunda chance para alguém se eu posso simplesmente anulá-la?


Eu não sei e você percebeu, mas o cancelamento ainda impede as pessoas de acertarem. Imagina se meu professor, ao perceber que errei simplesmente me cancelasse? Eu jamais aprenderia. E é fácil perceber o quanto o erro é benéfico, pois ele nos ensina exatamente o que não fazer numa próxima situação similar. Mas como terei uma chance de provar que eu acertei se isso não importa mais?


Errar é bom. Ou pelo menos não deveria ser visto como o fim do mundo. Ninguém gosta de errar, mas quem aqui não errou nenhuma vez na vida? E não me venha dar uma de professor Girafalez quando o mesmo disse “Só errei uma vez na vida, quando pensei em estar errado”. Erramos todo os dias e isso é ótimo para o processo de desenvolvimento. Errar faz parte do método científico de experimentação. Errar faz parte da tentativa. Errar é mais humano do que acertar.


É um erro sair cancelando os outros por terem errado. Mas fique tranquilo, eu não vou te cancelar por isso. Espero que você, cancelador geral da república, aprenda com esse erro e perceba que meu professor estava certo.


Talvez eu seja cancelado ao final desse texto. Talvez você ache que eu estou querendo justificar o injustificável. Talvez você ache que eu esteja dando munição para os passadores de pano desta nação. Talvez você queira vir com exemplos extremos para comprovar que existem erros que não podem ser tolerados… Saiba que eu concordo com você. O que eu não concordo é como banalizamos o erro e tudo, do erro na prova de matemática até um comentário maldoso nas redes sociais seja taxado como erros imperdoáveis.


E o que vai acontecer quando você cancelar todo mundo que errou? Porque todo mundo erra…


Ei… o que você está fazendo? Você vai me cancelar por causa desse texto? Mas se você não concorda com ele, só precisamos debatê-lo… Calma… Se eu errei deixe que eu acerte agora… Espera… Não… Não me cancela! Não… Não! Me dá outra chan………


CANCELADO!


Conhecimento é Conquista

-FS

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© 2020 por FELIPE SCHADT.

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