• Felipe Schadt

Saudade: os buracos da nossa alma


Mas quando há o desencontro, a ruptura, o fim do encontro alegre, esse bloco se fragmenta e desaparece, deixando um verdadeiro buraco na alma (Imagem: Internet)

> Ah a saudade. Todo mundo sente. Alias… Eu arrisco dizer que muitos estão sentindo saudade da vida que tínhamos antes de um vírus nos obrigar a ficar trancafiados em casa. Pensando bem, ficar trancafiado em casa nos faz sentir várias saudades. Saudade dos amigos, dos familiares, da rotina e por que não do trabalho? Será que chegamos a esse ponto, o de sentir saudade de tudo? Penso que pra responder essa pergunta a gente precise responder um outra antes: o que é saudade? A grosso modo, e o que diz o senso comum, saudade é o sentimento que a falta de alguma coisa lhe causa. Mas porque algumas coisas fazem falta. Vou recorrer a Espinosa. Pra quem já é leitor dos nossos textos, já leu a respeito da Potência de Agir. Mas é uma teoria tão bacana que vou repeti-la, porque nuca é demais falar sobre ela. Todos nós somos regidos por uma energia. Essa energia oscila, ora para cima, ora para baixo. Essa energia, chamada de Potência de Agir, sofre essas variações a depender do encontro que você tem com o mundo que, por sua vez, lhe afetará, lhe provocando um afeto. O afeto é a tradução em sentimentos do estado da sua potência de agir. Quando você tem um encontro que te afeta positivamente, você tem um aumento de potência que pode ser chamado de alegria. Pense no encontro da sua boca salivante com sua comida favorita, ou pense no encontro da sua pele trêmula e gelada com um tecido quente e confortável, ou pense no encontro da sua carteira vazia com o salário no quinto dia útil. Todos esses encontros provocam o ganho de potência. Provocam, alegria. Agora quando um encontro te afeta negativamente, você tem uma diminuição de potência que pode ser chamada de tristeza. Pense no encontro da maquininha de obturação com o seu dente cariado, ou pense no encontro dos seus olhos com aquela cena triste do filme, ou pense no encontro do seu celular novinho com o chão. Todos esses encontros provocam a perda de potência. Provocam tristeza. Vamos focar nos encontros alegres. Mas agora na perspectiva de outro filósofo: o bigodudo, Nietzsche. Ele compreende que aquilo que te causa alegria é o instante de vida que merece ser vivido. Ele chegou a essa conclusão graças a ideia do Eterno Retorno. Essa ideia funciona como um filtro. Um filtro para a pergunta: “Qual instante de vida merece ser vivido?”. A resposta é simples: “O instante de vida que merece ser vivido é aquela que eu quero viver”. E como você sabe qual instante de vida você quer viver? Submetendo ele a dois níveis de querer. Vamos descomplicar nos exemplos. Há uns anos, recebi uma proposta para voltar a trabalhar como jornalista. O salário era muito melhor do que eu ganhava como professor e as condições de trabalho também eram mais favoráveis. Eu já havia trabalhado como jornalista assim que terminei a faculdade e, naquela altura, já estava dando aulas há cinco anos. Ponderei muito e fiquei extremamente confuso, mas Nietzsche me ajudou. Qual instante de vida merece ser vivido? A de um jornalista ou a de um professor? Qual instante de vida que eu quero? Submeti a vida como jornalista e a vida como professor aos níveis de querer. Primeiro nível: “Eu quero ser jornalista?” A resposta veio rápida: sim, eu quero. Afinal de contas havia estuda para isso. “Eu quero ser professor?” Também respondi depressa: sim, eu quero. Tanto que era a minha profissão. Aí veio a hora do desempate. O segundo nível de querer. A pergunta cabal que definiria tudo: “Eu quero ser jornalista até o infinito do tempo?” Aqui eu precisei de mais reflexão. Quando Nietzsche sugere essa pergunta, que é o segundo nível de querer, ele está lhe forçando a pensar na seguinte situação: “Isso que você quer, você faria infinita vezes?” E quando o filósofo fala “infinitas vezes”, ele quer dizer isso literalmente. “Ir para uma redação, entrevistar pessoas, pesquisar dados, escrever textos, editar textos todos os dias, repetidas vezes até o fim dos tempos de minha existência?” Bom… Eu não queria isso. Mas e sobre ser professor? Submeti isso também ao segundo nível de querer. “Quero ser professor até o infinito do tempo?”, “Quero montar aulas, encontrar alunos na sala de aula, corrigir provas e explicar matérias todos os dias, repetidas vezes até o fim dos tempos da minha existência?” Bom… Eu queria! Sendo assim, escolhi ficar com as aulas e manter minha posição de professor. E de fato eu daria aulas infinitas vezes. Uma emendada na outra, várias vezes por dia, sete dias por semana, doze meses por ano… Mas isso é impossível. Só que mesmo assim, eu gostaria que a aula nunca acabasse. E aí que está o pulo do gato. Eu gostaria que a aula durasse para sempre, pois a aula era o motivo do aumento da minha potência. A aula me deixava alegre. Por isso que eu viveria nela, retornando para a aula eternamente. Portanto o instante de vida que vale a pena ser vivido, no conceito desses dois filósofos, é aquele que te causa alegria e, por te causar alegria, você gostaria que durasse para sempre. Mas não dura. E uma hora o desencontro vem. Eu sempre amei o mar. Quando eu vou à praia, eu tenho meu ritual particular. Olho para a imensidão azul por alguns instantes em silêncio, faço uma tartaruga na areia e depois vou para a água receber as ondas que o oceano me oferece. Eu me alegro com o momento e fico ali o máximo que eu posso, querendo que aquele instante durasse para sempre. Mas chega o fim da tarde e o sol começa a sumir, o céu a escurecer e eu tenho que deixar o mar. Penso que todos os encontros que temos com o mundo faz com que surja em nossa alma blocos de sensações. Esses blocos são as nossas experiências que vão fortificando nossa essência. Esses blocos se unem formando uma espécie de parede, um grande mural que representa tudo aquilo que você experimentou. Esse mural é único para cada pessoa, pois cada pessoa experimenta o encontro com o mundo de uma maneira extremamente particular. Alguns murais são mais lisos, outros são mais ásperos. Mas todos possuem uma característica em comum: a existência de buracos. Quando temos um encontro alegre, um bloco de alegria surge imediatamente nesse muro na sua alma. E lá ele permanece enfeitando a parede da sua essência. Mas quando há o desencontro, a ruptura, o fim do encontro alegre, esse bloco se fragmenta e desaparece, deixando um verdadeiro buraco na alma. Esse buraco, eu chamo de saudade. Quando eu encontro uma turma para dar aula, sempre é muito alegrador. Assim que a aula começa, já sinto que estou em um momento alegre, e portanto, quero que dure para sempre. Enquanto isso, o bloco de alegria está lá no mural da minha alma, firme e belo, se destacando no meio dos outros blocos. Mas aí, chega o final da aula. O desencontro eminente faz o bloco, antes firme e forte dissolver, enquanto os alunos deixam a sala de aula. Assim que vejo todas as carteiras vazias e percebo que minha aula não durou para sempre, sinto um espaço vazio no meu ser. Sinto falta do momento alegre que acabara de viver. Sinto saudade. "Mas aí é só esperar a aula seguinte para matar a saudade”, dirá você. E eu digo, invocando Heráclito que já dizia que não se pode entrar duas vezes no mesmo rio, não se pode entrar duas vezes na mesma sala de aula. Já que somos impermanentes, segundo Espinosa, mudamos a todo instante e tanto eu quanto os meus alunos não seremos mais os mesmos na próxima aula, pois já teremos sido transformados pelos outros inúmeros encontros que teremos com o mundo. Afinal, cada encontro que temos nos transforma naquilo que não éramos antes do encontro acontecer. Portanto a aula seguinte será um novo encontro que me causará uma nova sensação de alegria, uma nova vontade de repeti-la infinitas vezes, um novo bloco na minha alma e uma nova saudade. Isso explica o porque não conseguimos “matar” uma saudade. Porque para você preencher o vazio que um bloco deixou, você precisa construir um bloco exatamente igual ao anterior o que, para a nossa ideia aqui, é impossível, pois os encontros sempre são inéditos, únicos e particulares, logo, cada bloco construído será inédito, único e particular. Isso parece triste, mas na verdade não é. A saudade é a confirmação metafísica de que você viveu um momento alegre, um momento no qual você queria que durasse para sempre, um instante de vida que valeu a pena viver. E é aqui que a gente pode entender a razão por não sentirmos saudades de momentos ruins. Mais, percebemos também que quanto mais saudades eu tenho, mais instantes que valeram a pena eu vivi. Você não sente falta de tudo. Na verdade você sente falta de momentos específicos. Você percebe agora que abraçar alguém que você gosta era um momento que valia a pena ser vivido; que encontrar a família reunida no almoço de domingo era um momento que valia a pena ser vivido; que se sentir livre era um momento que valia a pena ser vivido. Mas não se preocupe. Você nunca irá preencher essa saudade. E calma, não é nenhuma visão apocalíptica. Só estou dizendo que a saudade é assim. Um buraco na alma que te lembra de instantes de vida alegre e que jamais serão preenchidos, mas serão substituídos por outros encontros alegres que, por sua vez, serão substituídos por outros e assim por diante. Eu sinto saudades do mar. E sei que jamais irei preencher isso. Fico satisfeito em saber que ao invés de preencher um buraco, vou criar outros blocos. E assim seguirei sendo um colecionador de momentos alegres. E que bom que tenho saudade. Ela me faz lembrar de todos eles. E você? Sente saudade do que? Ou melhor: quais são os buracos na sua alma? Conhecimento é Conquista

-FS

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© 2020 por FELIPE SCHADT.

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