• Felipe Schadt

O Carro de Giges

Fiscalização x Moral: O que Platão pode nos ensinar a respeito do trânsito?

Se você for até o Google e digitar “o Anel de Giges” (1), irá encontrar uma história pertencente ao livro “A República” de Platão que conta uma anedota bem interessante para entendermos a relação entre moral e fiscalização e que hoje, graças a discussão sobre as multas de trânsito que nosso presidente quer afrouxar, se torna bem pertinente.


Pra resumir (pois sugiro a leitura da história na íntegra), Giges era um cara gente boa. Sabe o boa praça? Aquele sujeito longe de qualquer suspeita que sempre anda na linha e nunca faz mal pra ninguém? Giges era assim. Um dia ele encontrou um anel e percebeu que quando ele o colocava, ninguém conseguia mais vê-lo. Giges se tornava invisível. Percebendo sua invisibilidade, Giges começou a cometer todo o tipo de atrocidade que ele viesse a desejar, deixando para trás aquele cara gente fina. Com o anel, fazia tudo que queria. Sem o anel, voltava a andar na linha.


A história nos ensina algo muito interessante: a boa conduta só é praticada a medida que sou fiscalizado. Sem fiscalização, eu só pratico a boa conduta se eu quiser. Bom, chegamos aqui ao núcleo duro do que podemos entender como MORAL.


Moral é fazer o certo (e não estamos aqui discutindo o que é certo ou não) sem que forças externas te obriguem a fazer isso. O que isso quer dizer: que a ação correta é uma atitude que você escolhe tomar independente do que está fora de você. Trocando em miúdos: é fazer o certo mesmo quando não tem ninguém olhando.


Você está no supermercado e com um desejo incontrolável de comer um chocolate. O problema é que você não tem dinheiro suficiente para comprá-lo. Mas, tomado pelo desejo e fiel as suas inclinações, você decide subtrair o doce do estabelecimento. Na frente da gôndola, você avista o objeto de desejo. Olha para os lados e não vê ninguém. Olha para cima e não vê câmeras. Você está sozinho. Só você e você mesmo. Não há nada além de você que possa te impedir de roubar o chocolate. É nesse exato instante que você poderá agir com moral. Mesmo com nenhum tipo de fiscalização, você tem a chance de deliberar consigo mesmo e decidir, na moral, que não vai afanar a guloseima. Decidido a fazer o certo, você desiste da ideia e vai embora com a sensação de dever cumprido.


Imagine agora se ao invés de estar sozinho na gôndola, existisse seguranças te observando, câmeras te vigiando e outros compradores por perto. Não precisa ser muito inteligente para constatar que você não roubaria o chocolate. Mas o pulo do gato vem aqui: você não roubaria o chocolate devido a uma decisão sua com você mesmo (na moral) ou por causa da fiscalização que você estava sendo submetido?


Espero que você tenha percebido o óbvio: quando mais fiscalização, menos chance eu tenho de agir com moral. Quando somos vigiados, nossas escolhas e condutas não são feitas na moral, são feitas por causa da vigilância que estamos submetidos. Quando Giges percebe que ninguém mais pode vigiá-lo, ele faz exatamente o que ele sempre desejou. Já enquanto ele era vigiado, ele se mantinha na linha. Isso significa que Giges jamais foi um sujeito bom, pois a sua bondade só durou enquanto ele estava sob vigilância.


E os exemplos poderiam seguir pela infinitude. Mas quero destacar apenas um. Um bem propício para o momento. Veja: você só respeita os limites de velocidade quando há um radar. Estou certo? Não minta para você mesmo. Você sabe que eu estou certo. A placa da Rodovia Anhanguera diz 100 km/h, mas você está mais rápido, afinal, você sabe quais são os pontos de fiscalização. Ou seja, você não respeita a determinação de trânsito porque você é um exímio respeitador das leis de trânsito. Você obedece porque você está sendo fiscalizado e tem medo da represália (em forma de multa) que sofrerá se for pego. Se não houvesse radar, garanto que você não andaria abaixo dos 100 km/h permitidos.


Recentemente, o presidente Jair Bolsonaro levou pessoalmente ao congresso uma proposta de lei que visa abrandar as multas de trânsito e ampliar o limite de pontos na carteira de habilitação de 20 para 40. Além disso, o projeto retira a multa de R$ 293 para os motoristas que transportarem crianças sem a cadeirinha de proteção, obrigatória desde 2008 (2). Segundo o presidente, a medida visa acabar com a “industria da multa”.


Bolsonaro está dando para os motorista um anel muito parecido com o que Giges encontrou. Você não ficará invisível, claro. Mas terá menos consequências caso seja pego. Veja o exemplo: você acorda atrasado e precisa chegar o quanto antes em um compromisso, porém precisa levar sua filha para a creche que fica no caminho oposto ao seu destino final. Para ganhar tempo, você rapidamente se troca, arruma sua filha e corre para o carro. Chegando lá você percebe que esqueceu a cadeirinha no quarto. Você pensa: “Bom, vai sem cadeirinha mesmo, não tem mais multa”, coloca a criança no banco de trás sem a devida proteção e acelera para seguir caminho. Perceba que a frase: “Bom, vai sem cadeirinha mesmo, não tem mais multa” soa muito parecido com “Não vou ser punido mesmo, então farei a coisa errada”.


Isso nos mostra que você não está preocupado com o que é certo a se fazer. Você está preocupado com o seu bem estar (não se atrasar para seu compromisso). Para saciar o desejo de chegar na hora, você invoca o Anel de Giges em forma de CNH, liga o foda-se e ponto. Como Giges, você só faz o certo quando é fiscalizado.


Mas há outra perspectiva interessante. Você se lembra da máxima: “menos fiscalização significa mais chances de agir com moral”. Isso é verdade. Vamos voltar as caso do sujeito atrasado para seu compromisso. Assim que ele chega no carro e percebe que esqueceu a cadeirinha ele se questiona: “Bom, não vou ser mais multado se eu for sem a cadeirinha, mas é o melhor a se fazer?”. Nesse instante ele está tendo a possibilidade de agir com moral. Suponhamos que ele escolha chegar atrasado, mas garantir a segurança da filha. Isso significa que, mesmo sem fiscalização, vigilância ou multa, o sujeito fez o certo. Agiu na moral.


Duvido que o presidente tenha tido esse nível de reflexão sobre o assunto. Não imagino ele no Palácio do Alvorada fechando o livro de Platão e tendo uma epifania: “Vamos dar ao motorista mais chances de agir com moral. Vamos flexibilizar a multa, tá ok?”. Chega até ser surreal uma visão dessas. A atitude foi do nível populista mesmo. Dar um “agrado” popular para tentar voltar a ter apoio das massas, uma vez que sua popularidade anda em queda livre (3).


De qualquer forma, se o projeto for aprovado, muita coisa poderá acontecer. Mas não acredito que nenhuma delas seja algo perto de uma reflexão sobre a moral. E sabe porquê? Porque nunca fomos ensinados a agir com moral. Pelo contrário. Fomos ensinados a obedecer na base do castigo e da fiscalização: “Pára se não vou contar para sua mãe!”; “Fica quieto! Ele tá olhando!”; “Não faça isso porque se ele te pegar fazendo, você tá perdido!”; e o meu favorito “Deus está vendo!”.


Infelizmente seremos como Giges. Sem um anel, é claro. Mas com um carro.

Conhecimento é Conquista -FS

(1) https://www.ebah.com.br/content/ABAAAfE1IAJ/anel-giges


(2) https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2019/06/05/projeto-tira-multa-de-motorista-com-crianca-sem-cadeirinha-mas-mantem-perda-de-pontos.ghtml (3) https://exame.abril.com.br/brasil/popularidade-de-governo-bolsonaro-cai-15-pontos-desde-janeiro-diz-ibope/

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© 2020 por FELIPE SCHADT.

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