• Felipe Schadt

Klara Castanho e a violência jornalística


(Imagem: Reprodução Instagram)

> Sou professor de jornalismo há 10 anos e lembro que, desde sempre, a primeira lição que passo para os meus alunos e alunas é sobre o poder que jornalistas têm nas mãos e, portanto, da mesma maneira que podemos mudar o mundo com a nossa profissão, também podemos ser altamente destrutivos se ela for praticada de maneira injusta e leviana.


"O que faz um fato virar uma notícia?". Bem, essa é a segunda lição que passo em sala de aula. Muitas coisas acontecem todos os dias como um buraco na rua, um esquema de corrupção de alguma prefeitura, um famoso que fez algo relevante, entre outras infinitas coisas. Mas não são todos esses fatos que estampam as manchetes dos jornais. Só alguns merecem esse destaque.


Quem escolhe o que vira ou não notícia é o(a) jornalista. As convenções sociais deram a esse(a) profissional esse poder e é na universidade que aprendemos a como lidar com ele. É com embasamento teórico, como a Teoria do Newsmaking (algo como "modo de fazer jornalismo"), que vamos entender um conceito chamado "Valor-Notícia". Para um fato ter destaque, ele precisa estar imbuído de valores que farão dele noticiável.


Um dos Valores-Notícia existentes é o apelo à fama e a relevância popular, ou seja, tudo que famosos fazem gera comoção entre as pessoas. Um clássico exemplo foi quando um jornal destacou como notícia o seguinte fato: "Caetano Veloso estaciona seu carro no Leblon". Qualquer coisa, desde a mais ordinária, vira manchete se for sobre alguém famoso, que tem a vida transformada em um eterno interesse público.


Mas além da teoria que se aprende em sala de aula, tem a prática. E é na prática que os(as) estudantes aprendem sobre a ética e o bom senso. Esses dois norteadores farão o(a) jornalista perceber, além da teoria, o que deve ou não virar notícia. Nessa semana vimos como a falta de ética e bom senso no jornalismo causaram uma série de problemas para uma pessoa famosa.


Você já deve saber do caso Klara Castanho: jovem atriz que foi estuprada, engravidou por conta disso e resolveu doar, como prevê a lei, o seu filho. Tudo isso divulgado em uma live por uma apresentadora e em uma matéria por um jornalista. Um caso com muitas camadas de violência, no qual me atento aqui a falar apenas de uma delas, que foi a violência causada pelo mau jornalismo.


O caso dela obedece a Teoria do Newsmaking, já que ela é uma pessoa famosa, mas por outro lado, ignora totalmente o que se conhece por ética e bom senso jornalístico. Léo Dias, como jornalista, tem o poder de decidir o que vira ou não notícia. Poderia ter decidido em não divulgar a história privada da atriz, mas não. Buscou, na minha opinião, apenas o like, o view, o click que o "furo de reportagem" iria dar.


Já Antônia Fontenelle, que nem jornalista é, e portanto não tem condições (nem teóricas e nem éticas) para dizer qual fato deve ou não ser notícia, só quis se aproveitar de um caso para fazer palanque político, já que a mesma é pré-candidata a deputada federal e tem como eleitorado o público conservador.


Existe uma terceira lição que passo em sala de aula: jornalismo é sobre ajudar pessoas e deve servir como uma ferramenta para uma sociedade justa. O que foi feito com Klara Castanho está muito longe de ser jornalismo. Está mais para mau-caratismo e covardia.


Conhecimento é conquista! -FS

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