• Felipe Schadt

Exposed Blog - parte 1: A privacidade está morta!


"A privacidade está morta e fomos nós quem a matamos."

> A vida privada morreu. Ou, a ideia coletiva de privacidade é apenas uma ilusão. E isso se deu numa noite de outono em uma quarta-feira de 1980 em que, em um programa de TV norte-americano com audiência para cerca de 6 milhões de pessoas, uma moça chamada Vivianne contou que nunca havia tido um orgasmo na vida porque seu marido sofria de ejaculação precoce. Segundo Zygmunt Bauman, foi o inicio da revolução pós-moderna.


A fala de Vivienne é revolucionária porque ela coloca no centro da praça pública uma informação que não faz parte do interesse público, mas que, a partir dali passaria a ter. Ou pelo menos, descobriríamos que a intimidade alheia causa o nosso interesse. A linha entre público e privado passaria a ser extremamente tênue.


E sobre isso que eu quero pensar. O que aconteceu com a nossa vida privada? Por que ela se tornou relevante para o público? Por que informações de cunho particular têm tanto valor atualmente?


Tem um pensador cujo o nome é Pierre Levy que dedicou parte de seu trabalho a falar sobre a cibercultura. Segundo ele, dentro da internet teremos basicamente os mesmos hábitos que tínhamos fora, como comprar, trabalhar, jogar, namorar… o que muda é a forma que como essas ações são realizadas.


Vou exemplificar com minha inabilidade na juventude em conseguir a atenção do sexo oposto. Como eu era prejudicado esteticamente, minha única chance com as garotas era no papo e, meu deus, como era difícil conversar com garotas. Quando conseguia conversar, nossa, como demorava para acontecer alguma coisa, quando acontecia. Eu podia contar nos dedos os relacionamentos que tive durante o ensino médio… nos dedos de uma única mão, alias. Mas na faculdade a coisa era outra. O capital estético ainda não era um dos melhores, mas a velocidade da conquista havia sido ampliada graças ao MSN. A única coisa que eu precisava descobrir era o contato da garota pretendida e, na janela de bate papo, desenvolver toda minha lábia. Se eu recebesse um fora, era simples desligar o computador e fingir que a pessoa não existisse, diferente da escola que, o confronto direto aconteceria a não ser se eu faltasse ou me mudasse de colégio. Além disso, tudo era mais direto. Rápido. Limpo. E meu primeiro ano de faculdade foi infinitamente mais alegrador do que meu ensino médio inteiro. E estamos falando de uma época pré WhatsApp e Tinder que acelerou e facilitou ainda mais a busca pela cópula furtiva.


O que eu quero demonstrar é que o jogo continua o mesmo, só mudamos a maneira de jogar, pois tanto o tabuleiro quanto as regras se tornaram diferente. Mas outra característica da cibercultura chama muito atenção. Na internet fomos, pela primeira vez, convidados a produzir. Antes dela vivíamos em uma espécie de cultura da leitura. Isso significa que éramos receptores passivos sem a menor possibilidade de devolver para o livro nossas impressões sobre ele. Isso também servia para a TV, Rádio e Cinema… Éramos meros espectadores dos sons e das imagens que nos chegavam e, caso não concordássemos, problema nosso.


Quando o Facebook te pergunta: “o que você está pensando” ele está te convidado a justamente dizer o que você pensa sobre o que você leu no livro, viu na TV, ouviu no Rádio e assistiu no cinema. Somos incentivados a produzir a todo instante nas redes. Opiniões no Facebook, fotos no Instagram, noticias no Twitter, vídeos no YouTube. Nos produzimos e alimentamos a internet com informações. E a internet precisa dessas informações para sobreviver. Das nossas informações.


A informação, de modo geral, tem muito valor e não é de hoje. A partir da modernidade, ser bem informado significava estar entre os iluminados se diferenciando dos seres sem luz, mais conhecidos como alunos. - E eu não to falando mal de aluno não, é que a palavra aluno significa “sem luz” -. Era função do iluminado passar a informação adiante para aqueles que não a tinham.

Mas não era toda informação que tinha valor. Eram apenas aquelas que faziam certa diferença na coletividade e promoviam avanços progressistas na sociedade. E quem dizia qual informação tinha mais valor que a outra? Os acadêmicos. Basta ler enciclopédias do século XX e verá uma série de coisas e não verá outras. E você já percebeu que as informações com valor eram as que podiam ser encontradas nas enciclopédias e as que não tinha valor, não ganhavam espaço nessas páginas sagradas.


Você nunca veria a história da Vivienne em uma enciclopédia. Mas na pós-modernidade, a história dela ganhou valor. E por que? Simples. Quem tem informação tem poder, certo? Essa lógica também ganhou força na cibercultura, mas de um modo um pouco mais… digamos… democrático. Na cibercultura não basta ter informação, você precisa produzir informação. Bom, e que tipo de informação nós produzimos? Isso mesmo, informações sobre nós mesmos.


Quando a Vivienne contou sobre sua desventura sexual, ela ganhou atenção e essa atenção incentivou outras pessoas a também quererem atenção. Então passamos a expor nossa própria intimidade em troca de atenção, que é simbolizada pelos likes, views, seguidores e compartilhamentos. Quanto mais atenção, mais poderosa é a informação e mais poderoso se torna o seu portador.


Na internet a informação que tem valor hoje não é aquela que está consagrada em uma enciclopédia, tanto porque elas nem existem mais. Mas sim a informação que tem o máximo de atenção possível. Já se perguntou como o Whindersson Nunes ficou famoso? Ele oferecia informações sobre sua própria vida de um jeito particularmente engraçado. De dentro da sua casa e sem camisa, da maneira mais intima e privada possível, o maior youtuber brasileiro contava histórias da sua vida expondo, muita vezes, seus medos, desejos e intimidades da sua relação com amigos e familiares. E já parou para pensar que você quer exatamente o mesmo e usando uma tática muito similar? Nem todo mundo tira a camisa e grava vídeos, mas dê uma olhada nas suas redes sociais e veja o quanto você fala sobre sua própria intimidade, posta fotos de momentos particulares, revela situações e desejos que antes jamais ganhariam publicidade. Tudo isso porque você entendeu a lógica do ciberespaço: para ter poder é preciso criar informações e como você só consegue criar informação sobre você, ela precisa ser interessante o suficiente para ganhar a atenção. Por isso apelamos para expor nossa vida privada em troca de likes.


E as grandes corporações da web adoram isso. Pois você oferece de bom grado informações particulares muito valiosas para elas, como por exemplo os lugares que gosta de frequentar, as pessoas que você gosta de seguir, o tipo de filme que você gosta de ver, o tipo de comida que gosta de comer… Ou oferece tudo isso utilizando sem ler os termos e condições de aplicativos engraçadinhos que mostram como você seria se fosse do sexo oposto. Tudo isso vira um valioso banco de dados sobre você. Me arrisco a dizer que o Facebook te conhece melhor do que você mesmo. Mas esse é um papo para outro texto, me cobre.


Gabriel García Márquez disse que todo ser humano tem três vidas: a pública, a privada e a secreta. Na internet funciona um pouco diferente. A vida pública é o que postamos e, normalmente o que postamos é sobre nossa vida privada. Nos sobra a vida secreta e você concorda comigo que todos temos segredos. As informações sobre a vida privada são valiosas e por isso as trocamos por poder virtual. Mas os segredos são tão íntimos que não valem a pena ser trocados por atenção. Talvez porque esses segredos ou nos envergonhem ou nos comprometem. Mas algumas pessoas entenderam que esses segredos, sejam eles quais forem, valem muito mais do que histórias da vida privada. Algumas pessoas resolveram expor segredos de outras pessoas nas redes em um movimento conhecido como exposed. Uma espécie de super poder, um tipo de informação muito mais valiosa. Mais valiosa por estar além da privacidade que, nessa altura do campeonato, nem é mais relevante pois todos entraram na vida privada um do outro sem pedir licença. Já nos acostumamos com isso.


A privacidade morreu e fomos nós quem a matamos.

Na segunda parte desse texto, convidarei você a refletir sobre o preço que esse poder cobra da gente como sociedade; Quanto vale expor segredos? Quando vale expor segredos? Quem ganha? Quem perde?

Tudo isso na parte 2 desse texto. Posto na semana que vem.

Conhecimento é Conquista

-FS

3 visualizações

© 2020 por FELIPE SCHADT.

This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now