Diário de Bordo #33 - Um paraninfo com o coração em chamas
- Felipe Schadt

- há 1 dia
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Eu havia avisado com muita severidade: “em uma situação de incêndio, nada de desespero!”. Minhas instruções tinham sido claras para aquela simulação. Todos deveriam ficar em pé, deixar tudo para trás e, fileira por fileira, saírem calmamente da sala em fila indiana. Estava me gabando do treinamento que eu tinha no currículo para esse tipo de situação.
O alarme tocou. Todos ficaram de pé e parecia que tudo iria funcionar, até que, como uma debandada dos animais mais destrambelhados que se possa imaginar, todos eles saíram correndo. Eu tentei gritar, gesticular e até segurar uma das alunas que atropelava todo mundo para sair da sala o mais rápido possível. Ainda bem que era uma simulação.
Em compensação, dois dos alunos tinham uma nobre discussão sobre quem deveria ir na frente. Eu, como professor e adulto responsável, estava na contenção. O capitão que é o último a abandonar a sala de aula. E com uma calma irritante, os dois saiam da sala com zero senso de urgência. Ainda bem mesmo que era uma simulação.
No corredor eu via fumaça e sentia o seu cheiro. Parece que a escola caprichou no treinamento. Mas estranhamente, os alunos não saíam rumo a porta principal. Eles entravam à esquerda, no pátio interno do colégio. Quando vi uma mesa com um computador e um projetor apontado para parede. “Seu lugar é ali, professor”, disse o coordenador apontando a cadeira junto à mesa enquanto os alunos me cercavam sentados na arquibancada do pátio. “Vamos assistir a instruções dos bombeiros?”, pensei. Mas eu não poderia estar mais enganado.
Foi então que eu percebi o que estava acontecendo quando a moça do marketing (que foi minha aluna na faculdade) filmava todas as minhas reações. Eu só consegui responder a única coisa possível: “Seus canalhas!”
Todos riram e eu me sentei. Não havia incêndio, mas meu coração estava em chamas.
Câmbio!
Minhas aulas de Filosofia com o terceirão da The Joy School são às sextas-feiras, das 12h50 às 13h40, ou seja, a última aula da semana. Tanto eu, quanto eles estamos cansados e por isso essa aula tinha tudo para ser a mais mambembe de todas, ainda mais que, a cada 15 dias, eles fazem o pedágio (que insistem em chamar de trote) e, por eu participar, fazem os vídeos e fotos na minha aula.
Mas e se eu te contar que nada disso tira a magia que, de alguma forma, paira naquela sala entre 12h50 às 13h40? Tem até dia que perdemos a noção do tempo e tomamos um susto quando o sinal toca com aquele típico sentimento de “mas já?”. A aula sempre flui e, por mais cansados que eu e eles estejamos, nós gostamos de estar ali para aquele último fôlego antes do final de semana.
Muitos alunos colocam essa “magia” na minha conta. Mas como eu disse, eu também estou severamente cansado da jornada tripla que eu enfrento até aquele horário. Dizer que a responsabilidade da boa aula ser única e exclusivamente graças a mim seria um exagero e desonesto.
Primeiro que não há no mundo professor que, por mais “showman” que seja, consiga ensinar para quem não quer ser ensinado. Você pode fazer malabarismo com canetões, fazer sair um coelho da apostila ou fazer o apagador limpar a lousa com o poder da mente. Nada disso servirá sem a boa vontade da plateia.
Segundo que o protagonismo da educação está nas mãos dos alunos. Eles precisam ver sentido em um sistema de ensino que está cada vez mais distante da realidade deles. Vamos ser sinceros aqui? A molecada está cada vez mais descrente de que será pelas vias da educação que ela vai conseguir vencer na vida e isso é um problema que a minha geração criou.
Mas eu acredito na educação. Serei sempre um portador do estandarte da escola como caminho para uma vida completa e, por algum motivo muito especial, essa turma está comigo nessa. Essa interdependência entre professor e aluno que mostra o quanto precisamos uns dos outros é o que faz a última aula da semana fluir. É tipo um “não desiste de mim que eu não desisto de vocês”. E eu não desistiria nunca!
Bom… pelo visto eles também não. Consigo ver isso quando eles brigam comigo por eu estar na frente da lousa impedindo eles de copiarem o que eu escrevi. Vejo isso quando, no corredor, eles me esperam para, um a um, me darem oi. Vejo isso quando alguns deles juntam as mãos em sinal de respeito e decretam que estão prontos para o próximo ensinamento. Vejo isso quando não consigo terminar a aula porque o debate ganhou proporções incrivelmente potentes. Vejo isso nos olhos de cada um, pois faço questão de olhar nos olhos de cada um.
E está aí o segredo. Olhar nos olhos e dar para eles o que há de mais especial: sua total atenção. Em tempos de disputa por atenção nas telas, olhar nos olhos para dizer um simples “sim, pode ir ao banheiro” é ouro. Isso gera duas coisas: respeito e conexão.
Como nos ensina Max Weber - lá vai o professor de Filosofia fazer revisão para o vestibular em plena homenagem aos seus alunos -, existem três maneiras de conferir autoridade a alguém: tradição, legalidade e carisma. Você pode respeitar um professor porque é tradicionalmente aceito na sociedade respeitar um professor; você pode respeitar um professor porque é legalmente instituído que assim deve ser já que ele é a autoridade da sala de aula; ou você pode respeitar o professor pelo carisma que ele imprime e que faz dele o professor mais legal.
Esses alunos me respeitam porque eu os respeito primeiro. Simples assim. Respeito suas considerações, suas questões, seus dias ruins, suas opiniões e, principalmente, sua presença. Olho no olho, sabe? Resultado: eles me devolvem isso. Sabe aquela história de “se você quer amor, seja amor. Se você quer paz, seja paz”.
“Perdi minha aula de hoje, mas ganhei uma memória que ficará para sempre comigo”
Aí a conexão vem como um trem bala. E essa conexão faz com que eles queiram estar comigo e eu com eles. A última aula da semana faz, portanto, todo o sentido. O resto (aprendizagem) vem de brinde.
E como somos conectados. Eu não faço mágica, é verdade, mas eu posso afirmar que eu já vi algumas vezes as carteiras e todos nós flutuando no meio de uma aula. E eu posso narrar uma dessas vezes para o teu deleite.
Aula sobre Direitos Humanos e todos debatendo sobre o que seria ou não direito, quem merece e quem não merece, quais direitos são e não são garantidos… Debate potente. Até que eu peço a palavra já no avançar da hora. Pedi para que eles refletissem sobre os privilégios que nós temos quando o assunto é ter direito à algo. “Nós que temos tantos direitos e, por isso, não precisamos de muitos deles, temos o dever de melhorar o mundo para aqueles que não têm acesso a quase direito nenhum”, olhos arregalados. “E se tem alguém que pode mudar o mundo, esse alguém são vocês que têm tanto e podem contribuir para que tanta gente possa ter o mínimo. Meu bonde já passou. Agora é com vocês. E mudar o mundo não é um fardo, é uma aventura!”. Nem o sinal do término da aula quebrou a atenção daqueles alunos. Todo mundo estava flutuando, oras! Os aplausos no final foram as assinaturas de cada um deles abaixo do que eu havia acabado de falar.
É por causa desse respeito e dessa conexão que conseguimos fazer da última aula da semana a mais especial possível. E eles conseguiram elevar o nível na última sexta-feira (28) quando preparam uma surpresa inesquecível para mim.
Era dia de trote (ainda prefiro pedágio) e o tema era “Brega”. Nisso eu sou mestre. Botei um girassol na lapela de um blazer prateado. Por baixo, uma camisa florida que uso no carnaval. Para completar a homenagem a Falcão, um par de óculos escuros. Seria assim que daria a minha aula do dia na The Joy School.

Mas antes de me trocar, uma aluna entrou batendo os pés na sala do coordenador, bem ao lado da sala dos professores. Passei por ela e perguntei se estava tudo bem. Ela, completamente tomada pela ira, disse que não sei quem falou não sei o quê e o não sei quem lá se intrometeu sabe-se lá como. “Quer um copo d’água?”, foi só o que pensei em fazer para tentar acalmá-la. Ela tremia tanto que eu temi que ela derrubasse tudo na mesa da coordenação. Fiquei preocupado, mas sabia que ela estaria bem assistida ali. “Volte para a sala quando puder, tá? Mas fique tranquila que tudo ficará bem”, disse antes de sair.
Assim que cheguei na sala, vi a impressionante capacidade daqueles adolescente em se vestir mal. Por um segundo eu pensei que talvez, e só talvez, eles, no sigilo, adorariam se vestir assim no dia-a-dia. Por isso certos acordos sociais - sobretudo os que envolvem a moda - são tão importantes.
“Vamos tirar logo a foto, pessoal? Preciso dar aula”, anunciei para aqueles agressores da moda. Uma das alunas veio até mim e disse com um ar de culpa que já tinham tirado a foto. “Poxa! Então eu vim à toa?”, resmunguei. Outra aluna logo disse para eu ter calma. “A gente tira no final da aula, professor. Prometo!”. Cheguei a duvidar.
“Boa tarde. 28/08. Filosofia. Seta. Apostila. Cap. 12.” Dizia o canto da lousa que eu acabava de preencher com canetão azul. Quando eu estava prestes a começar a escrever sobre o conteúdo, o coordenador entrou na sala. Pensei que ele iria dar um sermão na turma pela briga denunciada pela aluna que disse que não sei quem falou não sei o quê e o não sei quem lá se intrometeu sabe-se lá como. Eu só queria que fosse rápido, pois não queria perder minha única aula de Filosofia com aquela turma, visto que, na semana anterior, não dei aula para eles devido a um simulado que realizaram no horário da minha aula.
Mas não foi sobre a briga que o coordenador queria falar. Ele estava lá para anunciar uma simulação de incêndio. Supostamente todas as turmas realizaram em algum momento do dia e ficou para a minha aula a simulação do terceirão. Apaguei discretamente o título da aula que eu havia escrito no topo da lousa. “Já era minha aula”, lamentei.
Mas meu lamento durou muito pouco. Era um trote (esse sim faz jus ao nome) que a turma me pregou. Tudo armado, há dias, para que eles pudessem me convidar para ser seu paraninfo. E eu ali, cercado de alunos usando máscaras com meu rosto, assisti a um vídeo com uma homenagem linda e profunda que fez lágrimas saltarem dos meus olhos rosto a baixo. Mas em minha defesa, eles apelaram. O vídeo tinha como trilha sonora With or without you do U2.
Assim que o vídeo acabou, me virei e olhei nos olhos de cada um. Um cartaz enorme com o pedido e cercado de símbolos que faziam referência às minhas aulas. “É claro que eu aceito”, foram as palavras que eu consegui dizer antes da garganta dar um nó. O professor que sempre tem o que dizer, ficou sem palavras para retribuir. Que ironia.
Então vieram os presentes. Uma garrafa térmica enorme e muito sofisticada (ao ponto dos meus alunos me ensinarem como se usa) cheia de adesivos em vinil com mais referências às histórias que eu conto nas aulas, o que me fez concluir que eles prestam atenção mesmo. Uma jaqueta da seleção alemã de futebol absurdamente linda e que eu namorei muito tempo durante a Copa. Quando eu tirei ela do pacote, eu não acreditei. “Prometo não zoar vocês mais sobre o 7x1”, brinquei.
E por fim, uma miniatura de um Game Boy feita em uma impressora 3D. Se você já teve aula comigo sobre “Amor Platônico”, sabe o quão importante é pra mim essa referência do Game Boy que sempre amei e nunca tive. “E é vermelho, professor. Sabemos que é sua cor favorita”, disse uma das duas alunas responsáveis pela miniatura. Esse último presente ainda foi acompanhado de duas cartinhas que eu não tive coragem de ler ali. Fiz bem, pois chorei mais depois que li.

“Perdi minha aula de hoje, mas ganhei uma memória que ficará para sempre comigo”, disse após abraçar cada um daqueles alunos. Fiz questão de agradecer cada um deles pelo esforço e, claro, por terem me escolhido. Lembra da aluna que estava tremendo de raiva na sala da coordenação? Tudo encenação! Precisava ficar para fora para armar todo o circo para me receber. “Canalhinha!”. E no fim da “aula", tiramos muitas fotos, como a outra aluna havia me prometido.
Dois alunos que sempre me cumprimentam com as mãos juntas e dizendo “estamos prontos para a próxima lição” em qualquer momento do dia que me encontram, me pararam antes de irem embora e pediram algo inusitado. “Professor, não podemos sair da sua aula sem um ensinamento. Diga algo para que a gente reflita!” Ri daquela dupla que deixaria o personagem Rolando Lero orgulhoso. “Faça fazer sentido. O resto vem de brinde”. Eles agradeceram e saíram satisfeitos.

Respeito e conexão. É o que temos uns pelos outros e depois desse dia, o respeito e a conexão ficaram maiores ainda.
Obrigado, terceirão! Vocês me emocionaram e eu espero dar o troco na formatura. Amo vocês!
Câmbio, desligo!
Conhecimento é conquista
-FS





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