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Precisamos encarar o celular

  • Foto do escritor: Felipe Schadt
    Felipe Schadt
  • há 22 horas
  • 4 min de leitura
A proibição do uso de aparelhos celulares já está em vigor há um ano, mas resolveu o quê? (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)
A proibição do uso de aparelhos celulares já está em vigor há um ano, mas resolveu o quê? (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)

Eu havia acabado de dar uma aula de filosofia no qual o tema versava sobre a importância da verdade para a construção e manutenção da cidadania. Tema importante para alunos do Ensino Fundamental II. No final da aula, um aluno que não deveria ter nem 12 anos, veio me falar, meio indignado, sobre um vídeo que havia assistido sobre o presidente Lula dizendo que não gostava de evangélicos. Entendi a indignação da sua fala, já que ele se declarava evangélico.


“E onde você viu esse vídeo?”, perguntei provocativo. “Minha mãe me mostrou, sor. Era um vídeo de IA (Inteligência Artificial)”. Nessa hora, imaginei que ele estava me contando aquilo para exemplificar como a mentira está presente na internet. Ledo engano. O aluno, mesmo sabendo que o vídeo era falso, continuava acreditando em seu conteúdo. “Eu sei que é IA, sor. Mas é verdade que ele falou isso”. 


Eu não soube o que dizer. O sinal me salvou de ter que aprofundar o assunto com o aluno com o risco de ser chamado, no final, de doutrinador. Se o vídeo não tratasse de política, seria mais fácil provar para aquela criança que ela estava completamente errada. Fiquei pensando um bocado de coisas enquanto arrumava meu material para ir para a outra turma. 


No corredor da escola, eu pensava no que poderia ter dito: “Converse com seus pais quando você ver um vídeo desses na internet”, mas foi a própria mãe quem mostrou o conteúdo para ele. O que me levou à urgência de outro pensamento macabro, o de que não temos mais - sejamos adultos ou crianças - condições de distinguir a verdade da mentira na internet. Cheguei na outra turma com uma dose de intenso desânimo.


Já faz mais de um ano desde que a lei que proíbe o uso de celulares na escola entrou em vigor. Com a  Lei Federal nº 15.100/2025, os alunos não usam o celular no colégio, mas continuam usando ele em casa e ficando expostos dentro do próprio lar. 


Há sete meses (em agosto de 2025), o youtuber Felca divulgou um vídeo que denunciava a adultização de crianças e adolescentes na internet, expondo o quanto nossos jovens estavam em perigo com o celular nas mãos e sem nenhum tipo de supervisão. A repercussão foi tão grande que a pressão sobre as Big Techs criarem mecanismos de proteção de crianças e adolescentes nas redes sociais culminou em uma nova lei que passou a vigorar no último dia 17.


O ECA Digital, ou “Lei Felca” (Lei 15.211/2025), atualiza o Estatuto da Criança e do Adolescente para o ambiente online, impondo verificação rígida de idade, proibindo "rolagem infinita" e loot boxes (itens virtuais consumíveis em jogos eletrônicos) para menores, além de restringir publicidade direcionada e proteger dados. As normas passam a valer para todo produto ou serviço digital que possa ser acessado por crianças ou adolescentes.


A Lei Felca é um passo significativo na proteção de vulneráveis no ciberespaço, é verdade. Mas não resolve em absoluto um problema que é praticamente sistêmico: os jovens não sabem usar a internet de forma saudável. Isso inclui a auto-exposição, a não distinção de fake news e a prática de ciberbullying. E eles não sabem porque não há ninguém ensinando. 


Se a escola não ensinar os jovens a utilizarem o celular, quem é que vai?

Em alguns casos, o uso chega a ser criminoso. Alunos de um colégio de elite da cidade de São Paulo foram suspensos por criarem um grupo no WhatsApp no qual trocavam mensagens misóginas. Figurinhas de Jeffrey Epstein e um meme de “vou te estuprar” acompanhavam um lista que ranqueava as meninas mais ou menos “estupráveis”. O caso veio a público no último dia 22.


Proibir o uso do celular na escola ou restringir o acesso diretamente na internet pode até proteger, mas não resolve a relação cibercultural que jovens e crianças têm em seus smartphones. Enquanto não os ensinarmos a usarem seus celulares de uma maneira saudável e edificante, estaremos dando conta de uma parte ainda muito pequena do problema. É como morar am cima de um formigueiro e matar todos os dias 10 ou 20 formigas que aparecem na mesa do café da manhã.


Eu acredito que a escola precisa assumir esse papel. Sei que é pedir demais. Pois é essa mesma escola que ignorou a televisão e a manteve o quanto pôde fora das salas de aula, não levando em conta as potencialidades pedagógicas e aderência com a molecada que certos programas de TV tinham. Infelizmente, a escola é um campo social muito bem murado que ainda acredita que qualquer coisa que não seja o livro, é vilão da educação.


Mas pense comigo. Falando como um educador, se não ensinarmos os jovens a utilizarem o celular, quem vai ensinar? Os pais? Duvido muito, pois os pais também não sabem. Segundo pesquisa divulgada em outubro de 2023 pela Agência Brasil, são das mãos dos adultos entre 35 a 44 anos que circulam a grande maioria de notícias falsas que vemos por aí. E também são os adultos que consomem e expõem conteúdos de crianças e adolescentes, como divulgado pelo Felca no ano passado.


Penso que o ideal seria a escola criar em sua grade curricular espaço para que haja aulas de letramento e educação midiática. Melhor ainda, as escolas precisam abrir suas portas para projetos educomunicativos que, por sua vez,  têm condições de ensinar os jovens a serem protagonistas e a caminharem pelas vias seguras do ciberespaço. Eu tenho total convicção que se assim fosse, eu saberia exatamente como orientar o meu aluno e ele saberia exatamente o que fazer em casa.


Conhecimento é conquista

-FS

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