Isso se chama derrota
- Felipe Schadt

- há 1 dia
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Apita o árbitro. O jogo acaba. Você se sente perdido e com uma falsa sensação de que alguma coisa miraculosa vai acontecer para reverter o que você acabou de presenciar. Por um milésimo de segundo, você deseja que o que está passando diante dos seus olhos seja apenas um pesadelo que dissipará de sua mente assim que você acordar.
Mas tudo é real. A realidade é amarga na maioria das vezes, sobretudo quando você sonha em uma Copa do Mundo. Quatro anos de espera. Quatro anos de desconfiança que desaparece assim que o torneio começa. Agora, você tem que esperar mais quatro anos para sonhar outra vez.
Como é ruim perder. E vamos ser honestos? Nós nunca estamos preparados para perder. Ainda mais quando se torce para uma seleção que já foi muitas vezes campeã e que carrega na sua história muito mais glórias do que a maioria dos outros times.
Tudo bem que o retrospecto recente não é lá um dos melhores. Eliminações dolorosas que não fazem jus à grandeza do time que encantou o mundo em muitas oportunidades. Isso não apaga o apego que você criou, a conexão que você tem e o amor que brota no seu peito toda vez que o hino toca e é cantado a plenos pulmões.
As estrelas em cima do escudo te enchem de expectativas. Mas como diz o outro lá, "a expectativa é a mãe da decepção". Quando se é acostumado a vencer - ou pelo menos saber que sempre se vencia -, não criar expectativas não é uma opção. Aliás, criar pouca expectativa é até pecado.
Experimenta dizer que está desconfiado ou que não acredita que a vitória chegará. Execução em praça pública sem direito a últimas palavras. Quando se veste uma camisa com tanto peso, é preciso saber que acreditar faz parte do seu papel como torcedor. Pé atrás? Só para pegar impulso para correr para o abraço. Nesse jogo, aposta-se todas as fichas.
Eu apostei. Você apostou também. Ser prudente não é coisa de quem é apaixonado por futebol. Mas nessa casa de apostas a qual me refiro, você não perde fichas. O preço cai dos olhos em forma de gotas com gosto de água salgada. Maldita expectativa.
Perder é o preço que se paga por torcer
E nem me venha dizer que na próxima Copa você não vai criar expectativa nenhuma. Você sabe que é impossível. Quem tentou fazer isso nesse ano, não teve sucesso. Você vê a seleção nacional vencer um jogo contra um time muito inferior. A vitória foi boa, mas você sempre acha que dava para fazer mais um ou dois golzinhos, dada a fragilidade do adversário.
Se isso não te animou, a goleada jogando bem te anima. É nesse momento que a crueldade começa. Você alimenta o monstro da expectativa e ele, por sua vez, faz você se sentir invencível. Nem mesmo os potenciais adversários assustam. Venha quem vier. Quem quer ser campeão não pode escolher adversário.
Jogo decisivo, mas você está sentado ao lado da confiança. Sua camisa tem estrelas. A do adversário não. Você coloca os títulos para jogar junto. Os jornalistas esportivos e especialistas de plantão destacam as diferenças históricas entre as duas equipes. Não tem como perder.
Apita o árbitro. O jogo acaba. Seu time perde. Contra todas as expectativas que você e todo mundo criou, seu time perde. Os títulos passados não resolvem nada no fim das contas. Aquele gosto de campeão já não dá mais para sentir. Você não tem nada, a não ser memórias e videotapes de quando todo mundo tinha medo da sua seleção e dos seus craques que hoje são comentaristas de TV.
Nada mais humano do que o futebol que faz de todos os viventes humanamente iguais. Iguais até o fim do jogo, no qual vencedores e perdedores são separados pelo meridiano do planeta bola. E hoje, você está do lado perdedor. E desse lado, parece que o mundo não faz mais sentido nenhum e você busca um culpado para justificar sua anomia.
Se o goleiro adversário não tivesse feito aquele milagre. Se o goleiro do meu time tivesse defendido aquele cabeceio. Se o juiz tivesse dado aquela falta. Se o meu atacante tivesse feito aquele gol. Se aquele maldito pênalti não tivesse sido desperdiçado. Muito "se" que no fim, não muda nada.
Não há mais nada a fazer. Esse peso nas costas, essa tensão nos ombros, esse nó na garganta, essa raiva que contrai os punhos e esse vazio no peito estão aí e vão ficar um pouquinho com você até que você esqueça e siga em frente. Mas até lá, esse sentimento envergonhado de impotência e frustração por ter acreditado com todas as forças vai te lembrar toda hora do preço da expectativa que você criou.
Isso se chama derrota.
Conhecimento é conquista
-FS




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