Diário de Bordo #32 - Dou minha palavra
- Felipe Schadt

- há 2 horas
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Eu estava pronto para dar minha aula para o "terceirão" do Ensino Médio. Uma aula improvisada, já que não era para eu estar ali. Uma professora faltou e eu precisei substituí-la. Mas obviamente os alunos não queriam ter aula, afinal, é quase que canônico esperar uma aula livre em uma ocasião como essa.
Aula livre não ia rolar. Eu tinha que mantê-los ocupados. No meio do impasse, os alunos me fizeram um pedido razoável. "Professor, deixa a gente estudar para a prova de Português?". Eles fariam uma avaliação na aula seguinte sobre Figuras de Linguagem e muitos se sentiam inseguros. Não vi problema em deixá-los estudando cada um na sua. Mas aí outro aluno me fez outro pedido: "Deixa a Camila ir na lousa explicar a matéria para gente?". O coração do educomunicador aqui sorriu e com um sorriso eu disse: "Claro! Vou emprestar meus canetões".
Já que ela tomaria meu lugar, eu resolvi ficar no lugar dela. Sentei em sua carteira e, já que eu estava ali, por que não ser um aluno? Fiquei empolgado em aprender com ela - uma excelente aluna - e relembrar do meu ensino medio quando a professora Nirce ensinava para turma porque "boca do fogão" e "pé da mesa" eram duas catacreses.
A coincidência, ou não, foi que dois dias depois eu estaria no Teatro Bradesco, no Shopping Bourbon em São Paulo, para assistir ao espetáculo "O Céu da Língua", estrelado por Gregorio Duvivier. A peça é uma ode à palavra. Mais. O monólogo de Duvivier é um lembrete permanente do poder da palavra. Se me permite a metáfora, saí do teatro com um post-it com Superbonder colado na minha alma.

Saber o poder da palavra é muito mais do que entender seu significado. Penso que é entender o que ela pode causar. Sabe aquela ideia de que "uma palavra lançada é como uma flecha"? Não volta mais e, via de regra, atinge em cheio o alvo. E essa flecha formada por letras e sentido pode machucar ou alegrar o peito atingido.
Ludwig Wittgenstein, em sua maturidade filosófica, nos ensina que nossa capacidade de enxergar o mundo está vinculada com a nossa capacidade de nomear e saber o nome das coisas. Ou seja, quanto mais palavras você conhece, maior o mundo fica para você. E não é o tamanho geográfico que eu me refiro. Estou falando sobre cosmovisão.
Logo no começo da faculdade de jornalismo, especificamente nas aulas de Língua Portuguesa da professora Sônia, eu aprendi a dar valor para cada palavra que saia da minha boca e da ponta da minha caneta. A boca, às vezes mais rápida do que o cérebro, deixava escapar palavras que fizeram bastante estrago, é verdade. Eu só me dava conta do que havia dito, segundos depois que a flecha em forma de vocábulo já havia deixado o arco da língua.
"Estilinguada" é soltar palavras que você sabe que, se acertar, vai machucar.
Mas foi na escrita que minha relação com a palavra funcionou melhor. Escrever é a arte de ler você mesmo. E quando isso é feito, você aprecia cada um dos verbetes que ganham forma após os "téc téc" do teclado. "Eu não vou escrever isso!", dizia eu afundando o dedo no "delete" após entender que seria irresponsável da minha parte falar o que estava prestes a falar.
Funciona assim. Se eu te disser um dia que "eu te amo", saiba que eu te amo de verdade. E normalmente esse amor proferido estará acompanhado de alguma explicação filosófica que sustente o seu significado. O que eu quero dizer é que nunca te direi algo em vão. O problema é que nem todo mundo faz assim. Uns tantos desconhecem o poder das palavras. Um problema educacional. Outros muitos sabem muito bem o que dizem e, mesmo sabendo o que suas palavras podem causar, dizem, assim, sem muita responsabilidade.
Para esse segundo grupo, eu me permito criar uma palavra. A Estilinguada. É quando você solta uma palavra que sabe que, caso acerte o alvo, vai machucar. O alvo, indefeso, normalmente acredita no que foi dito. Por isso dói. Eu já fui muito atingido por etilinguadas sem poder me defender. Quer dizer. A defesa para isso é ser um cético lexical. O que eu acho tão doloroso quanto. Acreditar na palavra é uma faca de dois gumes.
A Camila terminou de explicar para os seus colegas do "terceirão" sobre as Figuras de Linguagem. A aula foi tão boa que até eu, seu aluno por 30 minutos, senti confiança em fazer a prova que aconteceria em instantes. Pedi meus canetões de volta e no caminho deixei umas palavras para a aluna-professora para que toda a sala ouvisse: "Você foi a professora que você gostaria de ter?". Ela respondeu que sim e os alunos faziam coro com as cabeças balançando positivamente. "Então você entendeu um dos imperativos categóricos de Kant". Um dos alunos vibrou ao perceber que eu aproveitei o meu um minuto de aula para reforçar a minha matéria.
Mas antes da aluna se sentar no seu lugar, eu concluí com toda certeza do que cada uma das palavras que diria a seguir significava. "Você é uma excelente professora". E isso não foi uma hipérbole.
Conhecimento é conquista
-FS




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