Diário de Bordo #34 - Calma, professor. Nada de angústia.

Atualizado: há 2 horas

Fazia tempo que eu não saia da sala de aula frustrado. Era 8:05 da manhã e eu já estava cansado. Isso porque eu não consegui fazer o que eu mais amo: ensinar. Os alunos do terceirão da Unidade II do Colégio Domus Sapiens não estavam afim de ter aula.
Conversas paralelas de uns, sono evidente de outros e até brincadeiras dignas da quinta série no meio da explicação faziam parte do menu servido pela turma. Justo em uma aula que eu gosto tanto te dar: uma sobre existencialismo.
Usei todos os malabarismos pedagógicos que eu dispunha. Acho que nunca disse tanto a frase “vem comigo” em tão pouco tempo. Uma vez vi um dado alarmante. Ele dizia que, em média, professores gastam 21% do tempo da aula pedindo silêncio. É… eu tinha virado estatística.
Mas a frustração maior estava na conta de ser justamente aquela turma. Desde que os conheci, há dois anos, nossa relação só foi ficando cada vez melhor. Fazia muito tempo (acho que dois anos) que eu não saia da sala deles me sentindo fracassado. Mas eu sai e em 50 minutos teria que voltar. Eu só não esperava o que me aguardava para a minha segunda aula com eles naquela manhã.
Câmbio!
…
“Por que existe algo no lugar do nada?”. É assim que eu começo a minha aula sobre Heidegger e Sartre. Coloco a pergunta grande no meio do quadro e desafio os alunos a responderem a questão. Gosto de ver eles quebrando a cabeça para explicar o que seria esse “nada”, se ele existia ou não e se a pergunta tinha algum sentido.
Essa aula é matéria da 2ª série do Ensino Médio e toda essa graça fica por lá. No terceirão, não passa de uma revisão para explicar o existencialismo. Mas mesmo assim que não deixo a magia de lado e faço como se fosse a primeira vez. E eu queria, como já fiz inúmeras vezes, subir na mesa com um guarda-chuva só para exemplificar o conceito de “cadeia de utilidades e o tédio”.
Subir na mesa é transcendental para mim. Por dois motivos. O primeiro é o mais óbvio: “A Sociedade dos Poetas Mortos”. Levar adiante os ensinamentos do professor John Keating sobre ver tudo de outra perspectiva; o segundo motivo é menos famoso: meu professor de História da Arte na faculdade que fez a sala de aula flutuar enquanto gritava a palavra “Gótico” a plenos pulmões em cima da mesa, mudando para sempre minha história que, ao ver a cena, me fez decidir ser professor.
“Professor, o que vamos aprender hoje?”, foi a pergunta de um aluno da 1ª série do Ensino Médio que me tirou do meu devaneio. Eu havia acabado de sair da sala do terceirão e ainda estava com o coração cheio de frustração por causa da aula que não consegui dar e da mesa que não consegui subir. Precisava esquecer o que não foi e focar no que estava acontecendo. “Hoje é Descartes! Bora?”, tentei retomar o ânimo.
Enquanto eu escrevia no quadro sobre a “dúvida como método”, eu ainda pensava que teria que encarar a 3ª série do Ensino Médio na sequência. O clima não estava legal para aula nenhuma depois do desastre da primeira aula. Mas eu sabia que eu ainda estava com o sangue quente e que logo estaria pronto para revê-los e tentar outra vez. Tornar prática a minha frase que sempre solto para o aluno disperso: “não desiste de mim, pois nunca desistirei de você”. Eu nunca desistiria deles e eu sabia.
A aula de Descartes foi ótima. Aplausos no final de adolescentes que vibraram ao entender o que significa de fato o tal do cogito, ergo sum. Acho um pouco exagerado os aplausos dos alunos da 1ª série, mas eu fico feliz que eles se empolgam com filosofia e sociologia tanto quanto eu. O fato é que as palmas foram a cereja do bolo de energia positiva que eu sentia. Era tudo o que eu precisava para tentar outra vez com o terceirão no qual vivi momentos muito legais.
Mal bateu o sinal de troca de aulas, quando a coordenadora do colégio entrou na sala me chamando com cara de urgência. “Professor, você se importa se os alunos do terceiro usarem sua aula para fazer uma homenagem para uma professora?”. Obviamente que eu não me importei. Fase de escolhas de homenageados e paraninfos e, como já fui escolhido por outra turma esse ano, estava completamente complacente com a situação.
E isso já tinha me acontecido antes, há algumas semanas. O professor de geografia do 9º ano do mesmo colégio foi escolhido paraninfo e parte da minha aula foi tomada para que as homenagens e fotos fossem concluídas. Eu fiz questão em ajudar a registrar tudo para compartilhar com o colega depois.
A coordenadora então me pediu um favor enquanto caminhávamos para o anfiteatro do colégio: “Você pode tirar as fotos da homenagem? É que não poderei acompanhar pois tenho uma reunião agora para fazer.” Disse que sim enquanto ela me explicava como os alunos estavam ansiosos para a homenagem para a professora em questão que, por sinal, merecia seja lá qual fosse a homenagem.
Assim que entramos no anfiteatro, os alunos estavam todos sentados na plateia, imóveis e olhando para um telão. Eu me sentei no fundo para me posicionar e pegar o melhor ângulo da entrada da professora, mas fui advertido. “Senta na frente porque ela vai entrar pela porta lateral”, disse a coordenadora indicando um acento bem no centro da primeira fileira. Foi então que a ficha caiu.
Com tema da Universal e uma advertência de que o choro era livre, eu comecei a ver no telão o rosto de todos os meus alunos dizendo palavras lindas sobre mim, sobre minha aula e sobre a conexão que criamos como professor e turma.
Chorei incondicionalmente durante 11 minutos de vídeo que culminou em todos os alunos ficando de pé, na minha frente, com cartazes que faziam a pergunta mais bonita que me fizeram durante esses anos todos juntos: “Você aceita ser o nosso paraninfo?”. E não foi uma pergunta livre de responsabilidade. Teve um contrato que tive que assinar assumindo a minha responsabilidade por ter aceitado.
Ganhei uma série de presentes bonitos e significativos e nem tentava conter o choro enquanto lia uma cartinha cheia de palavras certeiras. Então eu lembrei da primeira aula do dia. Aquela que eu não consegui dar, pois eles, de maneira forjada, atrapalharam minha aula para criar esse clima todo. A aula que fala sobre escolhas. Escolher tem três pontos importantes: liberdade, responsabilidade e angústia.
Estamos condenados a sermos livres. Sartre nos ensina que você é livre para escolher. Somos seres contingentes e nossa essência se faz a partir das escolhas que fazemos. Fiz minhas escolhas que me trouxeram até aqui e foram as escolhas que fiz dentro de sala de aula que me proporcionaram o reconhecimento que tenho dos meus alunos.
Mas já que somos livres para escolher, a responsabilidade das consequências das nossas escolhas são inteiramente nossas. "Escolheu? Então assume os seus B.O.”, diria o poeta. Dar ao outro o poder de escolher no seu lugar é agir de má fé. Se isentar é ser covarde. Saber das responsabilidades é ter consciência do poder das suas escolhas. Mas como saber o quê escolher? Como saber se escolhemos certo? Aí que tá. Não tem como saber.
É aí que vem a angústia, palavra derivada do alemão ängst que significa “medo”. Medo de escolher. “Como eu ia dizendo”, - falei enquanto enxugava as lágrimas. “A angústia acontece quando a gente percebe que escolher é perder sempre. Quando eu escolhi ser professor, eu perdi infinitas possibilidades de seguir infinitas profissões diferentes. E a conta não fecha. Um contra o infinito é muito injusto. Mas sabe de uma coisa? Eu escolheria infinitas vezes perder o infinito para estar aqui com vocês.”
De todas as memórias que construímos, essa foto abaixo é a que eu mais gosto. A primeira foto do ano. E parecia que esse click foi feito para este momento. Nós combinamos muito, meu terceirão. E nossa conexão é para sempre. Muito obrigado. Eu amo vocês.
Até a formatura.
Câmbio, desligo.
Conhecimento é Conquista!
-FS





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