• Felipe Schadt

Caridade não é moeda de troca


Padre Julio Lancellotti socorrendo moradores em situação de rua na praça da Sé (Imagem: Folhapress)

> Aqui vai uma pergunta que gostaria que você refletisse: "Por que você faz o bem?". Tenho a impressão de que nos sentimos bem quando ajudamos outras pessoas e isso deveria bastar. Mas aí eu faço outro questionamento: "Por que fazer o bem te faz bem?". Aqui, a coisa fica mais complexa, pois se você só faz o bem porque isso te faz bem, no fim das contas você tem um interesse egoísta em ajudar os outros. Pense comigo, se fazer o bem não fizesse você se sentir bem, você faria mesmo assim?

O problema maior, penso, é quando a caridade vira uma moeda de troca. Mais ou menos como se o ato de ajudar só se tornasse interessante se ele me favorecesse em algo. Tipo o "você tem que me ajudar a te ajudar”.


No Big Brother Brasil, uma das participantes, famosa nas redes sociais por ser uma verdadeira máquina de publicidade aos 20 anos de idade - o que lhe rende milhões de reais todos os meses -, foi parar no "paredão" do programa. Como de praxe, os participantes emparedados têm 30 segundos para se defender ao vivo. Ela usou seu meio minuto para pedir a permanência na casa, alegando que é a maior experiência da vida dela e culminou a sua fala prometendo, caso ganhasse a edição, doar todo o prêmio do BBB para instituições de caridade. Isso pegou muito mal.


Pegou mal porque a participante em questão usou a caridade como uma moeda de troca. Soou como: "Eu ajudo, tá? Mas vocês precisam me deixar aqui. Se eu for eliminada, não poderei ajudar ninguém". Ela só doaria o prêmio, caso ela vencesse, porque ela pode fazer isso. A jovem milionária consegue ganhar com publicidade que ela faz no Instagram muitos prêmios do BBB, portanto, ela poderia, se quisesse, doar quando quisesse a quantia prometida. Quando ela ofereceu a doação em troca de permanecer no jogo, ela deixou claro que para ela ajudar alguém, ela precisa ganhar algo em troca.


Saindo do BBB e indo para a política, um deputado estadual de São Paulo, que ficou conhecido pelos seus vídeos no YouTube no qual defendia o liberalismo, fez algo mais bizarro (na verdade, infinitamente pior). Junto com membros do MBL (Movimento Brasil Livre), o parlamentar viajou até a Ucrânia com suposto o intuito de ajudar as vítimas da guerra contra a Rússia. Em áudios vazados do deputado, ele disse que as mulheres pobres são mais fáceis [de pegar] por justamente estar nessa situação. Não bastando, ele transformou sua suposta missão humanitária em um verdadeiro show midiático, filmando e postando todos os movimentos que fazia.


Não preciso dizer aqui o quão desumano foi o deputado ao se referir às mulheres da maneira que fez (só isso daria tema para outro episódio do Torcidinha). Eu repudio veementemente o machismo que transbordou do áudio vazado. Mas o que eu quero focar é na midiatização da caridade. Entendo que a sua atitude [de ajudar pessoas] possa influenciar outras a fazerem o mesmo, mas não foi o caso. Isso porque o deputado estava - antes da viagem - em uma disputa interna no seu partido para ser candidato ao governo do estado de São Paulo e a sua ida à Ucrânia foi nitidamente uma tentativa de se promover politicamente. Mais um caso de querer ajudar só se essa ajuda trouxer algo em troca.


E essa atitude, acredite, é mais comum do que você possa imaginar. Isso porque nós [brasileiros] temos como base os valores cristãos, um deles o valor da esperança e do medo: "espere pelo paraíso e tema o inferno".


Pense comigo: A esperança é a alegria que não chegou. Como não existe nenhuma garantia de que ela chegará, você espera. Se a esperança é assim, o que podemos dizer do medo? O medo é exatamente igual: é a tristeza que ainda não chegou. Não há garantias de que essa tristeza chegará, por isso você teme. São duas faces da mesma moeda.


Na ótica cristã você não deve fazer o mal para não ir para a danação e, na mesma medida, fazer o bem para alcançar o prazer eterno. Logo, o bem só é feito para evitar a tristeza e garantir a alegria.


Kant, filósofo alemão - e cristão -, diria que isso é uma atitude baixa. Para ele, fazer o bem deveria ser um dever desinteressado, um imperativo categórico, ou seja, sem esperar nada em troca. Fazer o bem simplesmente porque é o certo fazer e não porque você terá garantida a ida ao paraíso, a permanência no programa ou os votos para governador.


Mas é a mesma ética cristã que nos ensina que devemos amar o outro como Deus nos amou. Esse é o amor Ágape, o amor abnegado que é 100% desinteressado. Quer um exemplo prático de alguém que não trata a caridade como uma moeda de troca? O padre Julio Lancelotti. Chamado pelo mesmo paramentar da nossa conversa de hoje de "cafetão da miséria", o padre ficou famoso por diariamente garantir a alimentação dos moradores de rua de São Paulo. A diferença entre o padre e o deputado, é que o padre não tem interesse nenhum com suas ações. Ele ajuda porque é seu dever como cristão ajudar.


Isso me fez lembrar de uma pergunta que me fizeram uma vez e vou fazê-la pra você: "Se fosse provado que o paraíso não existe, você continuaria fazendo o bem?"


Conhecimento é conquista. -FS


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