• Felipe Schadt

Boechat de camomila


Era ouvir o Boechat e conseguir, ao mesmo tempo, ficar indignado e relax. Ele tinha esse dom. (Foto: Divulgação/Band)

Todos os dias eu tomava a minha dose de sanidade jornalística quando eu ouvia, via Facebook, os comentários de Ricardo Boechat na Band. Isso começou nas fatídicas eleições de 2018, em que ele era o portador de mensagens e análises capazes de acalmar qualquer coração agitado em meio ao caos dicotômico que se tornou o nosso país.


Lembro bem de um dia em que fui encontrar minha namorada em um restaurante japonês, em Jundiaí. Lembro da cara dela de desespero e da frase: "Não quero mais viver nesse país”. Durante todo a refeição, confabulamos e discutimos maneiras de viver em outro lugar. O motivo da conversa era porque, na época, estávamos entrando em pânico por causa do eminente resultado das urnas.


Depois desse dia, o desespero ia aumentando. Eu como professor e jornalista, sentia que meu futuro aqui seria desastroso e ela percebia minha angústia. Além disso, ela começava a ter medo de temer sair na rua. Ela temia pela nossa liberdade. A cada notícia, a cada análise, a cada mensagem no Whatsapp da família, o pânico crescia. Precisávamos nos acalmar.


Um dia, ouvimos juntos a seguinte frase que vinha do rádio do carro: “Eu não vou cair nessa pilha de desespero que ambos os lados estão anunciando. Não estamos em uma guerra civil que muitos até gostariam que tivesse acontecendo. Não caio nessa pilha!”. A voz era de Ricardo Boechat, após comentar caso da menina que apareceu com uma suástica riscada na pele do abdome. Era o que precisávamos para nos sentirmos calmos. Alguém são que nos falasse que entrar na onda do desespero não seria benéfico para ninguém. Foi assim que conseguimos sobreviver ao último trimestre de 2018.


Ele conseguia fazer com que os temas mais espinhosos soasse de uma maneira que nos incomodava, mas não nos tirava do eixo. E ele era o mestre em colocar pitadas de bom humor em suas análises e apresentações. Era ouvir o Boechat e conseguir, ao mesmo tempo, ficar indignado e relax. Ele tinha esse dom.


A gente perdeu muito mais do que um jornalista premiado e extremamente competente. A gente perdeu muito mais do que um comunicador sem medo de autoridade que falava por nós aquilo que nunca teríamos oportunidade de dizer. A gente perdeu muito mais do que um espelho para estudantes de jornalismo. A gente perdeu nossa dose diária de sanidade jornalística que nos dava a esperança de que a busca pela verdade sempre será o melhor caminho.


Estou tentando, caro leitor. Mas está difícil mudar de assunto. Por isso eu imploro: faça que meu próximo texto não seja sobre morte.


Conhecimento é Conquista

-FS

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© 2020 por FELIPE SCHADT.

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