• Felipe Schadt

BBB: A prisão mais eficiente que existe


Casa do BBB vista de cima (imagem: Tapis Rouge)

> O BBB começa mais uma vez e é inegável que ele é um fenômeno de audiência. Ano após ano o programa fica maior e produz um certo frenesi no público. Isso é bem observável no Twitter, por exemplo. Além disso, os participantes ganham uma exposição muito grande que pode ser revertida em muita fama e dinheiro ou em cancelamento e ostracismo. Tudo vai depender de como esse sujeito se comportou dentro da casa, o que faz do BBB a prisão mais eficiente que existe. Duvida? Vem comigo que eu te mostro o porquê.


Um jurista e filósofo inglês chamado Jeremy Bentham apresentou o que seria um modelo tecnicamente perfeito de sistema de vigilância, o modelo pan-óptico. Funcionava assim. No centro de um pátio, uma torre de vigia que tinha visão panorâmica (daí o termo pan-óptico, que significa a grosso modo, visão panorâmica). Na periferia desse pátio, ficam as celas, uma em cima da outra, como se fosse um prédio em formato circular. Quem estivesse dentro da torre, podia ver todas as selas e todos os prisioneiros, porém, os prisioneiros não poderiam ver nem quem o vigiava e nem quando era vigiado.


Exemplo de uma prisão no modelo pan-óptico

A ideia de Bentham era de garantir um sistema utilitário e econômico de vigilância, já que estamos falando de poucos para garantirem a vigia de muitos. E esse modelo poderia ser usado não só em penitenciárias, mas também em manicômios, quartéis e até mesmo escolas, ou seja, qualquer lugar que necessitasse garantir o controle de seus habitantes.


Aí o filósofo francês Michael Foucault vai olhar para esse modelo de vigilância e pensar nele como um ponto de relação de poder entre vigia e vigiado. Pensa comigo o seguinte: se o vigiado cometer alguma infração ele será punido, certo? Mas ele só será punido se o vigia o ver cometendo alguma infração, concorda? Mas e quando o prisioneiro não sabe quando ele está sendo vigiado? O que acontece?


Pra te ajudar a pensar, vou te dar um exemplo. Quando eu era criança, era muito comum eu ganhar muitos ovos de páscoa e se dependesse de mim, eles seriam consumidos todos no mesmo dia. Para que isso não acontecesse, minha mãe pegava os ovos de chocolate, quebrava todos em pedaços e guardava tudo em uns potes verdes que ela tinha. Esse potes, eram muito bem guardados em locais inacessíveis a uma criança. A justificativa dela era fazer o chocolate durar mais tempo. Por dia, ela me dava três generosas fatias, mas eu queria mais. O problema é que minha mãe, passava muito tempo dentro de casa e era impossível afanar mais chocolate sem que o olhar atento de dona Josi percebesse.


Como eu sabia que estava sendo vigiado, a escolha era obvia: não pegar chocolate. Eu precisava de uma oportunidade no qual ela não estivesse em casa, um momento no qual não houvesse fiscalização. E esse momento enfim chegou. Ela saiu para tomar café com uma vizinha e eu disse que ia brincar na rua. Saí primeiro e fiquei observando ela deixar a nossa casa. Assim que ela saiu, parei de brincar com a desculpa de que estava com dor de barriga. Corri para dentro de casa, subi na cadeira, peguei uma lata em cima do armário e lá dentro vi o meu Santo Graal. Um dos potes verdes recheados de pedaços de chocolate. Era pegar alguns pedaços, guardar em outro pote e esconde-lo debaixo da minha cama.


Tudo certo! Comi duas fatias e voltei pra rua para brincar. Quando minha mãe voltou pra casa, porém, ela gritou meu nome e me chamou para dentro. "Será que ela descobriu?" O frio gelou minha espinha e minha barriga começou a doer de verdade.


- Você pegou o chocolate que eu guardei, Felipe?


Como ela poderia saber?


- Como você sabe?

- Mães sabem de tudo, moleque! Você pode achar que eu não sei o que você faz, mas eu sei! Toda mãe sabe quando um filho faz algo de errado!


Aquilo me deixou em choque. Tomei uma bela de uma bronca, fiquei alguns dias sem comer chocolate e ouvindo "Se eu não guardo as coisas, acabam com tudo no mesmo dia! Aí quando quer comer um doce, não tem! E eu vou achar bem feito quando não tiver mais pra largar a mão de ser esfomeado!". Eu nunca mais roubei chocolate do pote verde, porque eu não tinha mais certeza de quando eu estaria sendo vigiado. Mesmo quando minha mãe saia de casa, era como existissem câmeras de segurança em volta de mim e ela estivesse sentada em uma sala de controle vendo todos os meus movimentos.


O que minha mãe fez foi exatamente o que Foucault observou no modelo pan-óptico. Quando o vigiado não sabe quando estão vigiando, o próprio vigiado passa a se vigiar. A partir daí ele se torna um corpo dócil e domesticado que não pega mais chocolate escondido do pote verde mesmo quando não tem ninguém em casa. O medo constante de ser pego te disciplina. Isso explica, por exemplo, o que minha avó dizia para controlar o ímpeto dos netos bagunceiros: "Deus tá vendo"... Porra! Se deus tá vendo, melhor não fazer...


Agora que você já entendeu um pouquinho do que Foucault pensa sobre o efeito pan-óptico, podemos falar de BBB. Ah... e se quiser saber mais sobre o que ele fala sobre esse assunto, sugiro que você leia Vigiar e Punir, um livro muito famoso dele. Mas vamos falar de Big Brother agora. Não vou perder tempo explicando a dinâmica do programa, mas vai que esse podcast chegue em algum planeta distante cujo os habitantes não fazem ideia desse nosso costume humano. Os participantes do Big Brother ficam confinados numa casa e são vigiados 24 horas por dia por dezenas de câmeras. Acho que você já matou a charada: o BBB reproduz o modelo pan-óptico de vigilância.


Os participantes, ou seja, os vigiados, sabem que estão sob constante vigilância e por isso tentam, com todas as forças possíveis, manter a disciplina. No caso, eles tentam manter um personagem que eles acham que possuem as características que agradem os vigias. E você já deve ter percebido quem são esse vigias, né? Pois é, os telespectadores. Nós estamos na torre no meio do presídio observando todos os prisioneiros e esperando eles cometerem o menor dos vacilos para dar a sentença final: a eliminação e, se for um caso grave, o cancelamento.


Você é o vigilante e a sua TV é a torre de vigia

Nessa dinâmica entre vigiado e vigilante, ou melhor, entre público e telespectador, temos a presença do Grande Chefe, ou o Big Boss, que seria responsável não por manter a ordem e a disciplina dos participantes. Não. Isso seria muito chato. A função dele é causar situações no qual os participantes esqueçam que estão sendo vigiados e, nesse instante, passem a cometer os delitos que o público não deixará passar em branco. Festas com muita bebida, provas de resistência, jogos mentais, privação de sono, tédio, confinamento e, claro, os prêmios, são esses gatilhos que provocam o vigiado a sair da disciplina e consequentemente ser observado pelos vigias que estão prontos para julgá-lo.


Um a um os participantes vão sendo eliminados pelo público até sobrar aqueles que causaram a melhor impressão para os vigias. "Ah! Então existe uma fórmula para ganhar o BBB?" Não! Por justamente você nunca saber quem são esses vigias. Pode ser que o público hoje queira um comportamento mais despojado e queira punir todos aqueles que são mais pacíficos. Pode ser que o público queira um comportamento mais vitimizado e queira punir todos aqueles que causam dor na vítima. Pode ser que o público queira alguém que jogue o jogo com inteligência e sagacidade e queira punir todos aqueles que escolheram apenas viver a experiência do jogo. Não tem como prever, até porque a preferência do público pode mudar conforme o próprio jogo.


O fato é que você sai do BBB de duas formas, como alguém que será castigado ou como alguém que será premiado. E tudo isso vai depender do seu comportamento causado pelo efeito pan-óptico. O participante se auto vigia o máximo que ele consegue e nós aqui estamos com milhões de olhos em cima dele esperando o primeiro vacilo. O que me leva a pensar mais uma coisa. Nós, os vigilantes, também estamos presos ao BBB. Nossa vontade de vigiar e, principalmente, de punir, nos aprisiona no programa que nos dá uma sensação maravilhosa de poder. Então, não são só os participantes que estão encarcerados, os telespectadores também estão. E se os vigias também são prisioneiros, fica a pergunta: quem vigia os vigilantes?


No fim, todos nós estamos presos ao programa. Alguns lá dentro, o resto aqui fora, mas todos presos no mesmo lugar. E o mais bizarro é que todos nós gostamos desse encarceramento. Alguns milhões até sonham em ser presos lá dentro e outros amam estar presos aqui fora. Por isso que o BBB é a prisão mais eficiente que existe.


Conhecimento é Conquista! -FS

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