• Felipe Schadt

As Redes e os Dilemas - Pt. 1: O Vício


Cena de "O Dilema das Redes" (Divulgação: Netflix)

> Você já se apaixonou? Puts… quem nunca? Eu arrisco a dizer que todo mundo já se apaixonou um dia. Para alguns, uma delícia. Para outros, um tormento. Mas a paixão faz parte da natureza humana assim como andar para frente e respirar. E quando falamos em paixão pensamos logo no coração, mas vou propor um olhar diferente. Que tal olharmos para o cérebro de alguém apaixonado?


Neurocientistas explicam que o cérebro apaixonado apresenta algumas ações bem interessantes, como estresse, compulsão, obsessão e prazer. Isso acontece porque a paixão é resultado de uma série de reações químicas que regulam o cérebro através de hormônios e neurotransmissores que podem ser encontrados em vários circuitos cerebrais, inclusive o circuito de recompensa.


A recompensa para alguém apaixonado é muito importante, pois ela está baseada em dois princípios: motivação e prazer. Uma pessoa apaixonada sempre está motivada e, por causa da motivação, busca ser recompensada por isso. E quando é recompensada, seu cérebro ganha altas doses de prazer. Sabe quando você acorda com muita motivação de ver a pessoa no qual você está apaixonada? Mas aí você lembra que ela mora muito longe e é desafiador enfrentar quase três horas de transporte público lotado para vê-la. Mas, seu cérebro está motivado e você enfrenta o trajeto pois sabe que assim que chegar no seu destino, ah… você terá a sua recompensa.


Essa recompensa causa muito prazer e isso acontece por causa de um neurotransmissor chamado de dopamina. No decorrer de circunstâncias agradáveis, a dopamina é liberada, desencadeando impulsos nervosos, que levam a uma sensação de prazer e bem estar. Quando você come algo gostoso, dopamina; quando você vence em um jogo, dopamina; quando você transa, dopamina. Quando você ganha uma recompensa, dopamina.


O interessante é perceber como sentir prazer é viciante. Quando você come algo gostoso, sente prazer com aquilo e vai querer comer aquilo outra vez. Quando você vence um jogo, sente prazer com a vitória e vai querer jogar outra vez. Quando a transa é boa, você sente prazer e vai querer repetir o ato outra vez. E quando você é recompensado, você sente prazer e vai querer ser recompensado outra vez.


Isso explica o porquê pessoas apaixonadas não pensam muito para sentir o prazer da recompensa de estar perto de sua paixão. Inclusive, neurocientistas afirmam que, por causa disso e de outras disfunções, a paixão é um estado de demência.


Mas vamos voltar para a Dopamina e a recompensa. Entendemos que toda vez que somos recompensados por algo que a gente faz, a dopamina desencadeia prazer no nosso cérebro. Por isso a sensação de prazer quando recebemos o salário no fim do mês, a nota boa na prova, o elogio à aparência. O salário é uma recompensa pelo trabalho realizado, a nota é a recompensa pelas horas de estudo, o elogio é a recompensa pela maquiagem feita.


Mas o salário, uma vez por mês. A nota, só na semana de provas. O elogio, só quando se maquiar. Em tese, receber recompensa requer uma série de fatores, muitos deles, alheios a você. Ainda mais que ninguém fica recebendo recompensas a cada coisa que faz… Bom, se a gente olhar para as redes sociais, a coisa muda de figura.


O Facebook te faz uma pergunta toda vez que você abre ele: “O que você está pensando?”. É um estímulo para que você produza alguma coisa. Mas aí você devolve a pergunta: “E porquê você quer saber o que eu estou pensando?” O Facebook não vai te responder, mas você verá que todos ali naquela página estão respondendo a pergunta do Facebook. Uns escrevem, outros postam fotos, alguns postam vídeos. E todos fazem isso com um único propósito. Eles querem ser recompensados. E a recompensa que você busca não é um salário ou uma nota… você busca pelo elogio. Elogio que está em forma de um botão de “curtir”.


Aqui é que está o primeiro pulo do gato: Você fez uma postagem no facebook, cada curtida é uma recompensa pela postagem que você fez. Cada vez que você é recompensado, uma dose de dopamina atinge seu cérebro e, claro, prazer. E é por isso que você posta coisas nas redes sociais, para ser recompensado e satisfazer sua necessidade química de prazer. E quanto mais postagens e mais curtidas, mais viciado você fica até chegar um ponto que uma postagem sem curtida, causa tamanha frustração que você a apaga, pois ela não foi efetiva em te dar seu ópio virtual.


Então, no fim das contas tudo o que você faz nas redes sociais é motivada pela recompensa da curtida, ou seja, pelo aplauso de quem te acompanha. Você quer que alguém curta o que você postou. Ninguém posta para si mesmo. Você posta para ser visto. Isso é o que Celèstin Freinet chama de caixa de ressonância. Significa que quando uma produção tem ressonância na vida de outras pessoas, a experiência de quem produziu é mais completa, pois a produção afetou alguém além dele próprio. Mas não basta sua publicação só atingir outras pessoas. É preciso que elas manifestem algo. É preciso que elas te recompensem. Quase como um papagaio que faz uma graça só para receber biscoito?


E aqui vem o segundo pulo do gato: Os criadores e gestores das redes sociais sabem disso. E mais, fazem um uso consciente dessa dependência para você produzir conteúdos e alimentar o Facebook, Twitter, Instagram… Sean Parker, cofundador do Napster e primeiro presidente da empresa de Mark Zuckerberg, disse em uma entrevista a Axios e reproduzida pelo UOL que "É um loop de resposta de validação social (…). é o tipo de solução que hackers, como eu, usamos, pois você está explorando uma vulnerabilidade psicológica humana.”


Mas temos que ser razoáveis. Nunca experimentamos algo parecido com tanta frequência e intensidade. Não é fácil alguém olhar pra você na rua e dizer "Ei, curti sua roupa", ou "Nossa, curti esse prato de comida que você está prestes a comer", ou ainda "Ual, posso compartilhar com os meus amigos isso que você acabou de me dizer?". Nas redes sociais isso acontece a todo instante e a toda vez que acontece, dopamina pra você. E como todo viciado, as doses vão ficando insuficientes, você precisa de cada vez mais e fica em estado de fissura enquanto não recebe uma notificação. É bem comum postar algo e ficar atualizando a página esperando aparecer uma curtida.


Toda a engenharia das redes sociais é pensada para manter seu vício. É uma estrutura tão completa que eles sabem exatamente como manter você motivado a sempre postar e sempre postando você vai estimulando outras pessoas a postarem e… todos nós, curvados com o celular na mão, damos às redes sociais tudo o que elas querem em troca de recompensas momentâneas causadoras de prazer instantâneo.


Nós sabemos também que um viciado não se importa muito com o meio de conseguir sustentar seu vício. Nas redes sociais, é possível notar que algumas pessoas compartilham notícias falsas mesmo sabendo que se trata de desinformações, porque sabem que sua bolha vai lhe encher de recompensas. Em outros casos, a exposição da privacidade e da intimidade também não é um problema para quem está quimicamente necessitando de prazer causados pelos likes. Para dar conta do vício, vale qualquer coisa.


Estamos todos em uma rede de viciados, mendigando por curtidas, implorando por dopamina. É por isso que você está rolando seu feed agora esperando por uma notificação. É por isso que você está pensando na sua próxima postagem. É por isso que você gasta horas do seu dia nas redes sociais expondo sua vida. Fora das redes as curtidas não chegam e o acesso à dopamina é escasso. Dentro delas, o prazer está aí, escondido atrás de cada like.


E mesmo consciente você vai terminar de ler esse texto e vai voltar para suas redes. Sabe porquê? Porque é a sua nova função na ordem social. Uma ordem social que enterrou Deus e criou uma nova divindade, tudo isso com a sua ajuda… Falo disso, na próxima terça-feira e caso você queira e só nesse caso, você volta aqui para ler o final dessa história.





P.s.: E se você achar que esse texto lhe proporcionará alguma recompensa, então compartilha. Quem sabe você não ganha um punhado de likes?

Conhecimento é Conquista

-FS

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© 2020 por FELIPE SCHADT.

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