• Felipe Schadt

As Redes e os Dilemas - Pt. 2: A Morte


Cena de "O Dilema das Redes" (Divulgação: Netflix)

> Você sabia que Angelina Jolie escapou da morte? E não estou falando da Lara Croft ou da Sra. Smith. Sem precisar escapar de vilões ou dos perigos de um casamento mortal, a atriz precisou apenas da ajuda dos dados para se manter viva. No dia 14 de maio de 2003, Jolie escreveu um artigo para o The New York Times no qual fala sobre a sua decisão de realizar uma mastectomia dupla. Caso você não saiba, mastectomia é uma cirurgia de retirada completa das mamas. Ela decidiu isso porque seus dados genéticos informaram que ela era portadora de um gene que aumentava em 87% suas chances de desenvolver câncer de mama.


Esse tipo de cirurgia implica em muitas coisas. Além de ser de alto risco, tem reflexos posteriores na saúde, autoestima e bem estar da mulher. Mas o interessante aqui é observar o que fez Jolie tomar essa decisão. Os dados genéticos que ela obteve após uma bateria de testes, feitos por que tanto sua avó quanto a sua mãe morreram relativamente jovens por causa da doença, praticamente ordenaram a atriz a se submeter a cirurgia. É quase um: “Ei! Você não está sentindo nada agora, mas tire suas mamas o quanto antes!”. Essa “ordem”, não veio dos céus ou do intimo do seu ser, essa ordem veio dos dados. Um conjunto de números que calcularam as probabilidades dela morrer do mesmo mal da mãe e da avó.


Angelina Jolie escapou da morte e tudo isso porque ela decidiu obedecer uma nova entidade que já paira entre nós e possui poderes sobre nossas vidas: os dados.


Mas para os dados salvarem a vida da atriz hollywoodiana e de tantas outras pessoas, eles precisaram de um sacrifício. Um sacrifício muito maior do que uma oferenda ou a vida de alguém. Para os dados poderem agir como agem, eles precisam de uma morte muito específica e é sobre essa morte que eu quero falar com você.


Se a gente fosse dividir a história da raça humana a partir de um olhar eurocêntrico, em grandes eras, poderíamos dividir em três. O período pré-teísmo, momento em que as espécies de humanos ainda se desenvolviam e povoavam o planeta, também chamado de pré-histórico; o período teísta, momento em que a raça humana colocou Deus no centro de tudo; e o período humanista que colocou o homem como sendo o centro de tudo. Quero explicar para você esses dois últimos.


No teísmo, ou seja, no período em que Deus era o principal ator das dinâmicas sociais, tudo era explicado através dEle. A filosofia buscava entender Deus, a arte buscava representar Deus, a política era baseada em Deus, as relações humanas aconteciam por causa de Deus, a economia girava em torno de Deus, as guerras eram em nome de Deus… Tudo o que acontecia nesse período acontecia com a presença da ideia de Deus.


Dos grandes filósofos do período, destaco dois: Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, que buscavam explicar a vida a partir da ideia de Deus; na arte, a as produções dos grandes mestres eram em sua maioria voltadas à arte sacra; os reis governavam porque, segundo esse período, eram os representantes de Deus na terra e por isso tinham direitos divinos de serem os líderes; o pecado definia as ações das pessoas que hora temiam o inferno, hora buscavam o paraíso; a igreja era uma das instituições mais ricas e poderosas da época; e as cruzadas massacraram milhões por causa de uma evangelização forçada. O mundo era de Deus.


Quando eu falo de Deus aqui estou falando da ideia de Deus e não de uma divindade específica.


Mas aí, com o surgimento da burguesia alguns valores começaram a ser questionados. O questionamento mais forte era em relação aos reis. A burguesia, cansada dos impostos, não gostava da ideia de que a principal figura política dentro de uma cidade fosse alguém supostamente escolhido por Deus. Na filosofia, muitos pensadores também começavam a questionar a ideia de Deus e sua influência na vida humana. Não seria o homem o único responsável pela sua existência, desejos e medos? Na arte, só era belo se representasse Deus, mas a beleza, pensaram os artistas, está nos olhos de quem vê e quem vê é o homem, portanto o homem define o que é belo e não Deus.


Surgia então o humanismo. Muito além de um movimento literário, o humanismo colocava o homem como centro de tudo, substituindo Deus assim, na cara dura. Foi nesse momento que o Renascimento surgiu, dando ao homem o protagonismo universal. Se antes eu precisava pedir conselhos para Deus para poder agir, agora bastava eu consultar minha própria vontade e disposição para entrar em ação. Se antes quem explicava os fenômenos da natureza era Deus, agora é o homem com seus experimentos e ciência. Eu não sei se você percebeu, mas o humanismo literalmente matou Deus. Nietzsche disse “Deus está morto, e fomos nós que o matamos”. Essa frase só foi a punhalada derradeira na ideia que tínhamos de Deus. No humanismo, Deus é só um corpo moribundo estendido no chão da sala de estar. Ele só está ali porque ainda não conseguimos enterra-lo.



Acontece que uma nova era está despontando diante dos nossos olhos. Um dia Deus foi o centro do tudo, depois passou a ser o homem o centro de tudo, pergunto a você, o que está hoje no centro de tudo? A nossa amiga Angelina Jolie já nos deu a dica lá no começo. Hoje vivemos a era dos Dados ou simplesmente, Dataísmo.


Se Angelina Jolie vivesse no teísmo, teria rezado e esperado pela resposta divida para decidir se faria ou não uma mastectomia. Se ela vivesse no humanismo, teria olhado para si e entendido se sua vontade era de realizar a cirurgia ou não. Mas ela não obedeceu nem a divindade e nem a humanidade, ela obedeceu os dados. Porque nem Deus e nem os Humanos foram capazes de dizer a ela que ela tinha 87% de chances de desenvolver o câncer. Quem disse isso para ela foram os dados.


Você já entregou sua vida aos dados. Toda vez que você posta aquela foto da sua comida favorita no restaurante que você foi, os dados aprendem com isso e, quando você liga seu aplicativo de pedir comida, os dados lhe indicarão sua refeição favorita que é servida no restaurante que você foi. Quando você dá nota para um filme na Netflix, os dados entendem seu gosto e te oferecem filmes parecidos ou similares que lhe agradarão mais. Toda vez que você curte a postagem de alguém, os dados lhe mostrarão mais postagem dessa pessoa. Você não escolhe mais, quem escolhe por você são os dados e, obediente, você obedece as indicações: pede a comida indicada, assiste o filme sugerido e continua acompanhando a pessoa que aparece com frequência na sua time line.


“O humanismo morreu, e fomos nós quem o matamos”, diria algum filósofo dataísta. Os dados, controlados por um algoritmo que a cada dia se aperfeiçoa mais, te cercam de informações e te dão a falsa impressão de que é você quem está escolhendo, quando na verdade, você só está diante daquilo que os dados te cercam. “Eu posso simplesmente ignorar os dados!”, será?


Quando um relógio inteligente diz para você que sua pulsação está acima do normal e que é melhor você procurar um médico, mesmo você se sentindo bem, o que você vai fazer? Confiar no seus sentidos ou nos dados precisos sobre sua pressão arterial? A medicina será assim num futuro cada vez mais próximo, em que um aparelho inteligente monitorará seus batimentos cardíacos, taxa de açúcar no sangue, pressão arterial, colesterol 24 horas por dia. Ao sinal de qualquer anormalidade, seu médico receberá uma mensagem com dados atualizados e, na sequencia enviará um recado para você dizendo: “tome tal remédio”. Você vai mesmo desobedecer os dados?


Ou pense nas casas inteligentes que cada vez mais são mais comuns. Imagine que uma geladeira identifica que as frutas dentro dela estão estragadas e, devido a um scanner de alta precisão, indica para que você não coma tal fruta porque ela pode te causar dores estomacais. Você vai ter coragem de comer?


Se ainda está longe da sua realidade, pense no Uber. Os dados estão dizendo que o seu motorista chegará em 3 minutos, você vai se esforçar muito para estar no local combinado dentro desse período ou vai ignorar os dados correndo o risco de perder a viagem? E se você ainda não se convenceu do tamanho da nossa obediência pelos dados, você usa GPS? Costuma obedecer quando ele te manda virar a direita para fugir de um engarrafamento ou você, fiel a sua intuição, vira a esquerda?


Os dados dizem o que devemos fazer, o que devemos comer, onde devemos ir, em quem devemos votar, com quem devemos nos relacionar… E tudo isso porque ele sabe muito mais da gente do que a gente mesmo. E fomos nós quem demos as informações para que eles soubessem disso. Se esse podcast chegou até o seu celular, significa que os dados permitiram isso.


Dinheiro agora são dados. Não há dinheiro em papel para todo mundo. O que há são dados que dizem quanto você tem na sua conta. Poder agora é medido por dados. Só olhar quantos seguidores a pessoa tem. Quanto mais seguidores, mais poder. Alias, seguidores também são dados. Até nosso prazer é baseado nos dados. Quanto mais curtidas, mais prazer sentimos na internet. Não há mais volta… Os dados são o centro do universo e o dataísmo é a nossa nova religião.


Mas se o humanismo morreu, o que restará para nós, humanos? Bom… essa pergunta eu respondo na terceira e última parte dessa história. E você já sabe, caso queria, volta aqui na semana que vem e eu te conto o que acontecerá com a gente no dataísmo.


Conhecimento é Conquista

-FS

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© 2020 por FELIPE SCHADT.

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