• Felipe Schadt

15 de outubro: Dia do Amor


O dia em que eu ganhei uma melancia (e muito mais) de dia dos professores! (Imagem: Arquivo Pessoal)

> Ah o dia dos professores! Eu lembro de um bem especial. Era uma semana como essa e eu estava dentro do estúdio de TV da Faculdade esperando meus alunos e alunas do curso de Comunicação para a reunião de pauta do nosso jornal laboratório. Dias antes eu havia alertado a turma que eu não queria saber de maçã no dia dos professores… Eu queria no mínimo uma melancia. Esse meu pedido foi inspirado em um episódio do Chaves, no qual o professor lingui… digo, Girafalez, ganhou do Nhonho uma melancia de presente. “Se o professor Girafalez pode, eu também posso!”, argumentei. Mas claro que era uma brincadeira… brincadeira essa que aqueles estudantes levaram a sério. Um aluno entrou e me deu um coquinho. Sabe aqueles coquinhos miudinhos e amarelos? Pois é… Logo pensei “Pedi uma melancia e ele me deu a menor fruta que ele encontrou… Bem bolado”. Mas assim que me dei conta, uma aluna chega com uma ameixa, e outro, na sequência, aparece com uma pera. E um atrás do outro, iam entrando no estúdio com frutas cada vez maiores: maçã, coco, abacaxi, melão… e finalmente uma melancia! Sim meu caro leitor, minha cara leitora. Eu ganhei uma melancia de dia dos professores e nossa, como eu me senti feliz aquele dia.


Não pela melancia. Na verdade eu nem gosto de melancia. O que me tocou foi o gesto. Foi toda a artimanha desenvolvida por aqueles meninos e meninas. Tudo bem pensado para fazer de um simples professor o mais feliz do mundo naquele instante. Eu estava tão emocionado que sinceramente não me lembro se verbalizei, mas com certeza eu pensei: “Eu amo vocês”


Ser professor tem tudo a ver com o amor. E antes que você se exalte aí pensando que vou indicar que tem que amar muito para ser professor nesse país… se acalme. Embora eu concorde com a afirmação e que sim, estar em uma sala de aula e enfrentar todas os reveses possíveis para lecionar é realmente um ato que requer muito amor, vou partir para outro caminho. Já que esse blog tem a intenção de torcer as coisas, quero torcer rapidinho com você o amor à sala de aula.


Primeiro precisamos definir de que tipo de amor estamos falando. E, como já disse aqui algumas vezes, mas sempre gosto de repetir, existem muitas formas de se entender o amor. Afinal de contas é um sentimento tão complexo e grandioso que jamais poderia caber em um único entendimento. E que tal começarmos com Platão… Ah… se você acompanha esse blog, se já é de casa, já até sabe o que eu vou dizer. Eros! Desejo! Amor na falta. Você ama o que você não tem. Ama o celular recém lançado justamente porque ele ainda não está no seu bolso. Ama aquele carro importado porque justamente ele não está na sua garagem. Ama aquele emprego porque ele ainda não é o seu. Ama aquela pessoa porque ela ainda não te deu bola. Para Platão o amor é assim. Um sentimento que se concretiza na ausência do objeto amado.


E nós somos uma máquina de desejar. Desejamos praticamente tudo que nos falta e, quando satisfazemos um desejo, rapidamente criamos outro para por no lugar. Ontem você desejava o Playstation 4, hoje já deseja o Playstation 5 e amanhã provavelmente desejará o Playstation 6. Os publicitários perceberam isso há muito tempo e criam em nós desejos em coisas que vivíamos sem saber que existiam ou que eram necessárias mas que, depois do comercial, passou a ser importante nas nossas vidas. Foi assim com o meu iPad. Quando ele estava na loja, eu o amava muito. Hoje, depois de ter gasto uma grana razoável, eu me pergunto todo dia quando eu o vejo encostado no fundo da gaveta: “Pra que serve um iPad?”.


O amor platônico é nefasto por isso. Ele acaba quando o objeto amado é finalmente alcançado pelo sujeito amante. Trocando em miúdos: Eros, o amor em Platão, só existe quando ele não é concretizado. Ainda bem que Aristóteles era um aluno rebelde. Discípulo de Platão, o filósofo não seguiu os passos de seu mestre e pensou o amor de uma maneira bem diferente. Praticamente ao contrário.


Se em Platão o amor é na ausência, para Aristóteles o amor é na presença. Se para Platão você ama o que você não tem, para Aristóteles você ama justamente aquilo que você tem. Se para Platão o amor acaba quando você finalmente tem o objeto amado, para Aristóteles é só quando você tem o objeto que você pode amá-lo. Esse amor é chamado de Philia.


Sabe quando você se alegra com aquilo que tem e não precisa ficar se preocupando com aquilo que não tem? Tipo o meu avô que ama o Santana 98 prateado dele. E ai daquele que tente convencer o véio a trocar de carro. “Pra que?”, é o que dirá o seu Severino. Pelo Santana 98 prateado, meu avô tem Philia. Não deseja outro carro, pois ele se satisfaz com o que ele tem. Um verdadeiro terror para as concessionárias. Imagine se todos tivessem Philia pelos seus carros? É… você deve ter percebido que esse tipo de amor não seria muito interessante para o capitalismo que para sobreviver precisa que você continue amando à moda de Platão. Mas como Aristóteles, meu avô é rebelde e não está nem aí para Eros e para o Capitalismo.


Uma outra forma de se pensar o amor é por meio de Espinoza. Para ele o amor é o resultado do ganho de potência do ser. Segundo Espinoza, a vida é regida por uma energia… Uma energia que oscila, ora para cima, ora para baixo. Quando temos um encontro ruim com o mundo, como por exemplo uma multa por ultrapassar o limite de velocidade na Anhanguera, sua energia despenca e você sente tristeza. Ao identificar a causa da sua queda de energia, no caso a multa, você passa a ter um sentimento de raiva por ela.


E se isso acontece para um lado, vai acontecer para o outro. Quando seu time vence um campeonato em cima do maior rival, sua energia sobe e você sente alegria. A causa da sua alegria foi o seu time e isso faz com que você o ame. Portanto para Espinoza, o amor é a causa de um encontro alegrador com o mundo. Você ama aquilo que te alegra.


Mas provavelmente o amor mais difundido de todos e proporcionalmente o menos praticado não é nenhum desses que falei até agora. Isso porque o filósofo desse amor que falarei é muito mais famoso do que os anteriores. Estou falando de Jesus Cristo e seu amor chamado Ágape. Nossa, eu já falei tanto desse amor aqui no blog em outros texto… Mas não me importo em falar de novo, principalmente se você está aqui pela primeira vez.


Ágape é o amor baseado no sacrifício. Primeiro vem o outro e só depois vem você. Amar como Cristo amou é literalmente dar a vida à qualquer outra pessoa sem pensar duas vezes. É deixar de comer para que o outro coma. É deixar de ganhar para que o outro ganhe. É querer que o outro seja feliz e fazer de tudo para que isso aconteça. É sair de cena para que o outro possa brilhar. Se pararmos para pensar foi isso que o Deus cristão fez pelos seus fiéis. Deu para os cristãos a possibilidade de serem quem eles quiserem ser. Para isso, Deus teve que sair de cena e deixar que seus filhos, mesmo errados em suas escolhas, vivam a vida que escolheram para si. Um ato genuíno de amor abnegado.


E poderíamos ficar aqui por muito mais tempo destrinchando as infinitas formas de amar… Mas fazer isso seria flertar com a eternidade e não temos esse tempo todo. Você já deve estar se perguntando aí: “E o que isso tudo tem a ver com os professores?”… Oras… tudo!


Naquele dia, quando recebi minha melancia, percebi o quanto amo ser professor. E me arrisco a dizer que ser professor é amar de todas as formas que eu falei até agora. Ser professor é desejar, mas também é se alegrar com o que tem. Ser professor é amar o que te alegra, mas também é amar qualquer coisa, até mesmo aquelas que não te alegram. Ser professor tem tudo a ver com o amor.


Quando a aula acaba e vejo meus alunos saindo da sala, sinto falta. E você lembra de Eros. O amor na falta. Amo meus alunos e alunas quando justamente eles vão embora, pois desejo do fundo do coração que eles voltem. Mas aí você pode estar se perguntando: “Mas quando eles voltarem, você vai saciar seu desejo e o amor vai acabar”. Correto! Mas aí eu tenho a Philia ao meu favor. Quando acaba o amor platônico começa o amor aristotélico e assim que eles entram na sala eu fico feliz com o que tenho. Não quero outros alunos e alunas. Fico feliz com exatamente aqueles que estão na sala. Nem mais, nem menos. Os que vieram para a aula me alegram e eu não preciso de outros. Exatamente como meu avô e o Santana 98.


E se esses alunos me alegram eles são a causa do aumento da minha energia. E se eles são a causa da minha alegria, significa que eu os amo. Mas as vezes um ou outro aluno não presta atenção em mim, me desrespeita ou atrapalha os colegas. Esse aluno fez minha energia ir lá pra baixo. Foi causa da minha tristeza, portanto eu sinto raiva dele? Não. Eu ainda o amo e o perdoarei a cada aula, quantas vezes for preciso, muito mais do que 490 vezes. Além do perdão sempre que garantido, luto todos os dias para que todos meus alunos e alunas sejam felizes. Passo horas preparando atividades que servirão para o desenvolvimento deles. Passo mais outras tantas horas corrigindo elas. Mesmo cansado, vou para a aula dar o meu melhor. Luto para que eles sejam muito melhores do que eu sou. Dou minha paz, minha saúde, meu lazer e muito mais por eles. É ágape saindo pelos meus poros toda vez que acordo e penso na aula do dia.


E é por isso que acredito que o dia 15 de outubro deveria ser conhecido como o dia do amor.


Feliz dia do amor para todos e todas que ao ensinar aprendem todos os dias a amar.


Conhecimento é Conquista

-FS

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© 2020 por FELIPE SCHADT.

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