Os debates eleitorais ainda servem?
- Felipe Schadt

- há 9 horas
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Ser professor de sociologia em período de eleição é algo digno de nota. Falar sobre política - conteúdo previsto e sempre presente - gera nos alunos uma série de sentimentos interessantes. Alguns querem dar suas opiniões, outros querem rebater as opiniões de alguns, mas quase todos enxergam validade na aula, principalmente os estudantes que têm o desejo de votar pela primeira vez.
Uma aluna, ainda do 9º ano do ensino fundamental, me parou ao final da minha aula para fazer, segundo ela, uma pergunta que não se sentia à vontade para fazer a mais ninguém exceto a mim. “Professor, a direita é ruim e a esquerda é boa?”. Ela não irá votar ainda, mas queria entender qual lado ela deveria estar, como se a decisão de estar em algum dos lados do espectro político fosse vital para ela naquele momento.
Expliquei que não podemos resumir as coisas assim. Se você acompanha meus textos, sabe muito bem o que penso sobre a direita e sobre a esquerda, mas como professor, meu papel não é escolher pelos meus alunos, muito menos influenciá-los em sala de aula. Meu papel é mostrar os caminhos possíveis e para onde eles levam. Quem decide qual direção tomar, é o aluno.
“Não importa se você vai escolher alguém da direita ou da esquerda, só prometa para mim que você vai fazer essa escolha usando a racionalidade que eu sei que você tem”, é o meu mantra todas as vezes que a aula caminha para as discussões político-partidárias.
“Mas isso dá um trabalhão, professor”, veio a voz lá no fundo da sala de aula depois de me ouvir dizendo algo do tipo. E esse aluno tem razão. Votar com racionalidade dá trabalho, pois você precisa estudar os candidatos, suas propostas, o que já foi feito, o que não foi feito e como ele vai fazer o que propõe. “Um bom caminho é assistir aos debates”, concluí.
Falei de como os debates, diferente dos comícios e das entrevistas em podcasts, nos não a chance de ouvir as propostas dos candidatos fora das suas zonas de conforto. É ali, mediado por um jornalista e com regras dignas da teoria da “Ação Comunicativa” de Habermas, que propostas são colocadas na mesa. O nosso dever de casa cívico é, depois disso, checar o que foi dito e fazer valer das maravilhas que o ciberespaço nos proporciona quando o assunto é acesso à informação ilimitada.
Claro que os debates a qual me refiro são os que debatem os postulantes para o executivo (presidente e governador). Para o legislativo (deputados federal e estadual e senadores), o negócio é sair caçando informação. Mas convenhamos que está mais fácil agora que estamos a um clique de distância dos dados capazes de nos ajudar a escolher com sobriedade.
Uma outra aluna, dessa vez do terceirão, me parou no final da aula com uma desesperança indisfarçável. “Professor, o senhor entrou na minha mente e eu estou levando muito a sério essa coisa de escolher meus candidatos” - ufa, pelo menos alguém -, “eu assisti ao debate e, nossa professor, foi um show de horrores”.
O debate a que ela se referia era o que aconteceu na Band, no domingo dia 23 de agosto, no qual Lula, Flávio Bolsonaro e Romeu Zema decidiram não ir, deixando o palco para Renan Santos, Ronaldo Caiado e Augusto Cury. E eu não consegui discordar da minha aluna que quer seguir meus conselhos e escolher a partir da racionalidade, mas como ela pode fazer isso se os próprios candidatos não parecem ser nem um pouco racionais.
E aí eu me pergunto se os debates deixaram de ser um momento importante para a tomada de decisão séria do eleitor ou se eu romantizei demais e eles sempre foram e sempre serão um picadeiro de ofensas que trata o cidadão consciente como palhaço? “Não desista”, eu disse para minha aluna tentando disfarçar meu próprio desânimo.
Conhecimento é conquista
-FS




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