O voto racional passa pelo jornalismo
- Felipe Schadt

- há 8 minutos
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Oficialmente a campanha eleitoral de 2026 começou ontem (16), mas ela já acontece faz tempo. Tecnicamente falando, antes do dia 16, os candidatos não podiam falar abertamente seus números e nem pedir voto de maneira literal, mas nosso jogo político é muito elástico e permite, nas entrelinhas, que os concorrentes mostrem suas intenções de maneira extra-oficial.
Vimos isso acontecer aos montes, principalmente com os candidatos à presidência da república que se serviram de três tipos de espaços para lançarem suas propostas aos quatro cantos antes da corrida eleitoral: nos eventos de lançamento de candidatura, nos podcasts e nas entrevistas jornalísticas. Gostaria de chamar sua atenção para observarmos com cuidado o que cada um desses espaços oferece aos candidatos.
Vamos começar com os eventos de lançamento de candidatura. Aqui, nesse tipo de evento, três coisas acontecem. A primeira é a possibilidade de medir a força partidária que o candidato tem. Lula, por exemplo, no dia 02 de agosto, em São Paulo, tinha em seu palanque uma porção de apoiadores políticos, entre prefeitos, governadores, deputados e senadores de partidos que compõem a chapa do PT: PDT, PSB, PCdoB, PV, PSOL e Rede.
A segunda é a chance de falar diretamente com seu público fiel, o famoso "pregar para convertido". No palanque, não importa muito o que se fala e sim quem fala. No caso de Flávio Bolsonaro, no evento do seu partido, o PL, até a dança esquizofrênica de Milei (presidente da Argentina) - acompanhada desajeitadamente por Flávio - ganhou aplausos e gritos ensurdecedores de uma platéia claque digna de programa de auditório. Sabe aquele público que aplaude quando sobe a placa de "aplausos"? Pois é.
A terceira é como esse discurso de palanque vai reverberar na imprensa nos minutos seguintes. Para os políticos que despontam na parte de cima das pesquisas, o importante não é falar alguma besteira que faça os índices caírem. Já para aqueles que lutam para chegar a dois dígitos nos gráficos, parece que quanto mais absurdos forem ditos, melhor para chamar a atenção de quem nem sabia de sua candidatura.
Isso nos leva aos podcasts e nós sabemos que os podcasts - prefiro chamar de mesacast por causa do formato em vídeo de pessoas conversando à uma mesa - são espaços onde a estrela sempre é o convidado que, por conta disso, tem certo conforto por não ser confrontado.
Isso aconteceu com grande parte dos candidatos. Rogério Vilela, do Inteligência Limitada - um dos maiores do país - entrevistou o presidente Lula para o seu programa. Foi uma típica conversa de comadres onde o petista ficou muito a vontade. E claro que ficaria. Vilela realizou o bate-papo na residência oficial do presidente, em Brasília, longe dos seus estúdios em São Paulo.
Para medir o sucesso de um podcast (mesacast), você observa os cortes que ele rendeu e, sinceramente, o papo de Lula e Rogério Vilela não rendeu nenhum viral para as redes. Bem diferente de outros candidatos que aproveitam o espaço para, seja em debates ou em entrevistas, serem os mais polêmicos possíveis para os segundos de corte viralizarem por aí.
Por fim, as entrevistas jornalísticas são os espaços mais interessantes. Isso porque é o único que não oferece conforto ao político, já que, diferente do palanque onde a platéia é fã e do mesacast onde o entrevistador é um ouvinte, o jornalismo existe para perguntar tudo, mesmo que isso gere desconforto ao entrevistado.
Perguntar o que o candidato não quer responder, mas que o eleitor precisa saber, eis o papel do jornalismo
Flávio Bolsonaro ficou visivelmente desconfortável em entrevista ao programa Canal Livre, da Bandeirantes. Os jornalistas Fernando Mitre, Adriana Araújo, Eduardo Oinegue e Fernando Schüler encurralaram o candidato do PL com perguntas sobre sua relação com Vorcaro (Banco Master) e sobre as tarifas dos EUA ao Brasil, por exemplo.
Romeu Zema, do NOVO, deve estar tendo pesadelos até agora com a dupla do G1 Andréia Sadi e Natuza Neri. As jornalistas - duas das melhores da atualidade na minha humilde opinião - pressionaram tanto o governador de Minas Gerais que ele pareceu completamente perdido em suas respostas, principalmente no assunto segurança pública.
Mesmo fim que teve Renan Santos. Com poucas perguntas, as jornalistas do G1 desmontaram o discurso do candidato do MBL como por exemplo o slogan de sua candidatura, o "Prendeu, Matou". A habilidade jornalística foi tamanha, que quem assistiu percebeu que as propostas de Renan sobre segurança pública, em sua maioria são inconstitucionais e, portanto, impossíveis de serem cumpridas sem um golpe de estado.
O baque foi tão grande que Renan Santos desistiu de uma entrevista com Pedro Dória, jornalista do portal Meio e Mensagem. Dória fez um vídeo lamentando a desistência do candidato e explicou, quase que de maneira didática, o papel do jornalismo em uma eleição, ou seja, perguntar o que o candidato não quer responder, mas que o eleitor precisa saber.
Recentemente eu maratonei a série "The Newsroom" (HBO). Ela é sobre um canal a cabo norte-americano de jornalismo fictício que mostra o dia-a-dia de um âncora (Jeff Daniels) na construção das notícias. Uma das coisas mais latentes da série é a luta dos profissionais da imprensa em fazer um jornalismo livre, responsável e atuante, onde a máxima de William Randolph se fez presente: "jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique; o resto é publicidade".
E o voto racional e consciente que tanto prego, convenhamos, não será feito à base de propaganda.
Conhecimento é conquista
-FS




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