"O resto é silêncio": como Hamnet me ensinou a perder
- Felipe Schadt
- há 3 dias
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As últimas palavras do príncipe da Dinamarca após encerrar o seu conflito sobre a terra não me marcou quando eu li Hamlet pela primeira vez. Na ocasião eu era um jovem ator amador de teatro estudantil que se sentia na obrigação de ler a maior peça teatral da história (para muitos, para mim é o Auto da Compadecida).
Mas foi na leitura da clássica história escrita por William Shakespeare de 1601 que eu vi semelhanças gritantes com outra história clássica que toda criança dos anos 1990 sabe de cor: O Rei Leão. Depois que você vê que Simba é o próprio Hamlet (que precisa aceitar sua posição como rei e tomar o trono usurpado pelo tio), você não consegue desver. Toque de gênio de quem adaptou o clássico inglês para crianças do mundo inteiro.
Quando me tornei adulto, decidi ler novamente a peça. Eu havia acabado de adquirir um Tablet e usufruí de um de seus aplicativos de leitura. Nele, havia alguns livros gratuítos e um deles era justamente Hamlet. Lembro que eu estava na recepção de um consultório médico esperando minha vez quando reli, em um piscar de olhos, o texto. Dessa vez, ele me produziu algo mais substancial (não tanto quanto Rei Leão conseguiu fazer).
Esse algo substancial foi a ideia central da peça que é a dúvida que melhor representa a literatura humanista. "Ser ou não ser, eis a questão" não é só uma crise de identidade, é a busca por respostas que não se fazia mais óbvia. Veja. Os clássicos na Grécia Antiga tinham o Cosmos ordenado e finito para dizer a eles o que ser. Aristóteles e sua eudaimonia nos ensina que a vida boa é aquela encaixada com o universo, portanto, basta identificar o que o universo quer de você e viver de acordo. Já os medievais foram além. Eles tinham o Criador do Cosmos e, se você quisesse saber o que deveria ser na sua passagem pela Terra, bastava perguntar para Ele e esperar a resposta.
O que eu quero dizer é que, tanto no período clássico quanto no período medieval, o ser humano não precisava se preocupar sobre a própria condição de ser. A resposta estava pronta, seja no universo ou nas mãos de Deus. Mas no humanismo renascentista não tem mais um universo ordenado e finito e, portanto, se o universo é caótico e infinito, não há a necessidade de ter um criador. Sem Cosmos e Deus para responderem nossas perguntas, quem é que sobra para achar as respostas? Exatamente, nós mesmos.
Shakespeare era um humanista convicto e deu ao seu principal personagem a responsabilidade de lidar, ele mesmo, com a questão fundamental da existência humana: "quem sou?" E eu pensei tudo isso enquanto esperava minha consulta. Sim, foi uma espera longa.
Mas nada havia me preparado para meu novo encontro com essa história.
Todo mundo estava rasgando elogios para "Hamnet: A vida antes de Hamlet", filme de Chloé Zhao, e eu precisava vê-lo com os meus próprios olhos. Baseado no romance de 2020 de Maggie O'Farrell, a história conta a tragédia pessoal de Shakespeare e sua esposa, Agnes, ao perderem um de seus filhos, Hamnet. Tanto no livro, quanto no filme, todo o enredo gira em torno do luto dos pais do menino e de como sua morte inspirou o escritor inglês a escrever sua obra prima.
Com atuações viscerais de Paul Mescal e Jessie Buckley, o filme é uma ode à arte. Digo isso porque o longa trata a arte (no caso o teatro) como o reduto humano mais puro para expressão de todo e qualquer sentimento. Não é uma biografia de Shakespeare, tanto que seu nome - um dos mais famosos da arte mundial - é pouquíssimo explorado. É uma radiografia da vida em torno dele que nos faz entender tudo o que foi preciso sentir para poder, a posteriori, expressar por meio da arte.
E o que precisou ser sentido? A morte. Shakespeare não chegou a tempo de se despedir do filho Hamnet, Agnes não aceitava ter perdido sua criança mesmo com todo esforço sobrehumano que só uma mãe é capaz de fazer. Assim, os dois se prendem a um luto que os impedem de seguir em frente. Era preciso se despedir de vez de Hamnet, mas nem o um e nem o outro eram capazes de fazê-lo. Isso me lembrou um curta-metragem animado da Netflix chamado "Se algo acontecer, te amo" que fala exatamente do mesmo tema, ou seja, a necessidade de dizer adeus à quem já foi.
Shakespeare encontrou na arte a maneira de fazer isso e o filme mostra brilhantemente como a encenação da peça serviu para ele (do palco) e sua esposa (da plateia) dizerem adeus ao filho que já havia partido. Encarnado pelo ator que interpretava Hamlet na peça dentro do filme, as palavras finais do personagem foram as famosas palavras que anteveram a sua morte: "O resto é silêncio". Pronto. No silêncio, os pais se viram livres do luto, liberando a memória do próprio filho para descansar em paz.
Eu, olhando para a tela gigante do cinema, chorei. Não por Shakespeare ou Agnes, tão pouco por Hamnet ou Hamlet. Chorei por mim. Penso até que só quis tanto assistir esse filme porque eu sabia que choraria e eu precisava chorar. E no silêncio da sala de cinema praticamente vazia, entendi que eu preciso aprender a perder, pois a derrota é uma espécie de morte. Morre a vitória idealizada, toda a história criada, os planos feitos, os castelos erguidos, os sonhos sonhados... E depois da morte, o resto é silêncio.
Preciso ficar em silêncio para descobrir o que vem depois dele.
Conhecimento é conquista
-FS

