"Nuremberg" é um filme de terror
- Felipe Schadt

- 13 de abr.
- 4 min de leitura

A sala de cinema "Número 5" do Shopping Villa Lobos, na zona oeste da capital paulista, é modesta, mas possui charme e conforto. Pouco mais de 100 poltronas grandes e confortáveis, dispostas em uma sala plana, dão um ar intimista para o recinto, porém a tela gigantesca me recordava que eu veria algo grandioso.
"Nuremberg" (James Vanderbilt - 2026) foi o filme escolhido. Desde quando eu assisti ao seu trailer há alguns meses, fiquei empolgado para vê-lo. O primeiro motivo é pela temática. Filmes sobre o nazismo têm a minha atenção desde que eu estudei o cinema alemão da década de 1930 e 1940 na pós-graduação em História na PUC-SP. Ler ou assistir coisas sobre o período me lembra de que sempre há o que ser dito e mostrado sobre a horrorosa ditadura de Adolf Hitler.
O segundo motivo é devido a minha última viagem à Alemanha. Tive a felicidade de visitar Nuremberg e conhecer de perto a história que o filme retrata. Tão de perto que eu pude estar no exato local onde o filme tem o seu principal foco, a sala 600 do Palácio da Justiça de Nuremberg, a sala onde os nazistas foram julgados e condenados no maior julgamento do século.
A cidade tem a maldita alcunha de “cidade nazista”. Isso porque Hitler via na cidade o cenário perfeito para sua propaganda fascista. Como Nuremberg foi, no Império Romano-Germânico, o primeiro Reich/Reino alemão, o baixinho austríaco viu a oportunidade de retomar a tradição dos encontros dos príncipes da Europa e fazer da cidade o local das reuniões do partido nazista.
Se você pesquisar “O Triunfo da Vontade” (Triumph des Willens) na Internet, vai se deparar com uma mega produção cinematográfica (para a época) sobre esses comícios. O filme-propaganda de Leni Riefenstahl foi um dos meus objetos de estudo e eu sabia bem da grandeza desses comícios megalomaníacos do Füher.
"Se você quer saber do que o homem é capaz, olhe para trás e veja o que ele já fez" - R. G. Collingwood
Por conta disso, a destruição da cidade era primordial e simbólica. Os americanos deram cabo disso e em uma das batalhas mais cruéis de toda guerra. Sem soldados (pois na altura da guerra a maioria já estava morta), Hitler colocou os jovens da Juventude Hitlerista para morrer no front.
Mais de 90% da cidade foi destruída por causa da maior trapaça que um país já foi vítima. Hitler transformou aquele local no símbolo nazista na Alemanha, mas Nuremberg se redimiria. Se reconstruiu, tijolo por tijolo e, em alguns anos, já não deixava à vista cicatrizes da guerra. Porém era necessário também a reconstrução moral.
Essa veio mais depressa. Semanas após o fim da guerra, um julgamento foi criado para julgar os nazistas pelos crimes contra a humanidade. O Tribunal de Nuremberg mostrou para o mundo que os horrores do nazismo não ficariam em pune. O alto comando nazista foi condenado a execução. Era o fim do inferno, que recomeçaria com a guerra fria.
O filme trata justamente disso. De como o julgamento foi pensado, montado e executado. Em paralelo, conhecemos a história do psiquiatra de Hermann Göring, o major Douglas Kelley, um oficial do exército dos EUA que tinha uma única responsabilidade: não deixar o "Número 2" do nazismo e outros nomes do primeiro escalão se matarem antes do julgamento.

A dupla Russell Crowe (Hermann Göring) e Rami Malek (Douglas Kelley) dão um verdadeiro espetáculo de interpretação com diálogos densos e de fazer todos na sala de cinema prenderem a respiração uma vez ou outra. Isso porque, o major Kelley vai desbravando a psiquê de Göring e desvendando a sua horrível conclusão que, mais tarde, viraria seu controverso livro "22 cells in Nuremberg".
O livro de Kalley foi um fracasso comercial porque contradiz a crença popular de que os réus eram demoníacos por natureza. Suas conclusões diziam que os nazistas eram apenas homens como quaisquer outros. E é essa a parte assustadora. Quando ele conclui isso, ele nos diz que o horror pode nascer, permanecer e se enraizar a partir de pessoas comuns.
Ele não relativiza o nazismo, pelo contrário, ele diz que esse comportamento pode florescer em qualquer um, basta o gatilho correto. O major psiquiatra, no fim, tinha razão. Se olharmos o que está acontecendo no mundo com a ascensão do fascismo cada vez mais aparente e desavergonhado, vemos que para ser cruel basta ser humano. E quem é cruel acha que está correto ser, assim como os nazistas achavam, afinal de contas, ninguém é o vilão da própria história.
Prova disso? Pergunte para um trumpista se ele acha errado o que está sendo feito agora na guerra contra o Irã ou para um sionista se foi errado o que eles fizeram com os palestinos em Gaza. Trump, inclusive, acha que está tão correto que, em resposta ao repúdio do Papa Leão XIV (que é norte-americano também) à guerra, postou uma imagem feita de IA onde é representado como Jesus Cristo. Nenhuma novidade, Hitler fazia basicamente a mesma coisa.
Eu odeio filmes de terror. Não assisto nenhum. Mas esse, mesmo não sendo do gênero, é capaz de assustar profundamente a sala de cinema. E olha que eu nem estou me referindo à cena mais aterrorizante da película no qual mostra o momento em que os acusados - e o mundo - assistiam as cenas do que restou dos campos de extermínio.
Em uma metalinguagem impecável, você - na sala do cinema - é transportado para os bancos da sala 600 em Nuremberg e, assim como os presentes à época, assiste chocado corpos de milhares de pessoas vítimas do holocausto sendo arrastadas por tratores para valas comuns e sobreviventes em estado cadavérico agradecidos por serem salvos a tempo. Foram minutos de um silêncio mórbido que eu particularmente só havia escutado na minha visita à Auschwitz em 2025. Mas aposto que esse mesmo silêncio pode ser ouvido nos escombros das guerras no oriente médio neste exato momento.
“Nuremberg” nos assusta simples e puramente por nos mostrar que nós estamos vivendo o filme de terror.
Conhecimento é conquista
-FS




Comentários