• Felipe Schadt

Jogue fora seu ferro de passar roupas


Adão e Eva é uma alegoria que fala sobre a evolução da espécie humana (Imagem: Internet)

> Você já parou para pensar que você nunca verá seu rosto como ele realmente é? “Mas e o espelho?” Bom… o que você vê é um reflexo imperfeito do seu verdadeiro rosto. Não há espelho no mundo capaz de refletir com perfeição a realidade. Para isso a superfície dele deveria ser isenta de qualquer minúscula imperfeição. Porque a menor das interferências nessa superfície alteraria a imagem e atrapalharia a performance do espelho. Da menor partícula de poeira até uma pequena mancha já são suficientes para causar essa imperfeição.


“Mas e as fotos?” Elas são representações e não o seu rosto como ele verdadeiramente é. Uma foto do seu celular por exemplo, por mais moderno que ele seja ou independente do número de lentes disponíveis nele, ele transforma a imagem em pixels que nada mais são do que um conjunto de códigos binários que são codificados e decodificados depois para você ver na tela. A grosso modo, aquela sua selfie que você tanto se orgulha nada mais é do que um monte de uns e zeros combinados.


O que eu quero dizer é que você é incapaz de olhar o seu próprio rosto como uma outra pessoa pode vê-lo. Em compensação, você pode ver o rosto de alguém que nunca poderá ver a própria face. E isso é estranhamente fascinante. Porque isso é uma pequena amostra da nossa condição de ser aquilo que o outro enxerga e não aquilo que realmente somos.


Quem nunca se preocupou com o que o outro acharia da sua aparência, maneira de falar, jeito de se vestir? Quem nunca tirou uma dezenas de fotos até encontrar uma boa o suficiente para impressionar os outros nas redes sociais? Quem nunca perdeu horas do dia passando roupas para não chegar amassado em algum compromisso? E quem já se perguntou o motivo de tudo isso? Penso que tudo está ligado a importância que damos para o que os outros acham da gente. E o mais impressionante é que para entender isso, precisamos olhar para a Bíblia, mais especificamente para Adão e Eva.


Você conhece a história. Mas mesmo assim, vou refrescar a sua memória. Deus fez Adão, Adão se sentiu sozinho. Deus sugeriu uma companheira. Adão curtiu a ideia e até deu uma de suas costelas pra Deus fazer a nova criatura que Adão chamou de mulher. Nascia Eva. Deus falou: “Seguinte moçada, aqui é o paraíso e fiz tudo no capricho pra vocês desfrutarem da eternidade sem dor ou morte. Pode comer as frutas tudo, nadar no riacho, no lago, pode correr nos campos, rolar na grama… Enfim. Open bar de prazeres. Só vou pedir uma coisa aqui na moralzinha… Tão vendo aquela árvore ali no meio? Isso aquela ali, bonitona cheia de fruta e tal? Então… se comer daquela fruta vocês morrem. Comeu morreu. Beleza? Então é isso, se diverte aí que eu vou dar uma descansada que foi trampo construir isso tudo pra vocês… alias… acho que exagerei no tamanho… um universo todo pra duas pessoas só… preciso repensar isso…"


Adão e Eva, estavam cumprindo o acordo. E não era difícil obedecer uma única ordem em troca de toda a felicidade do mundo. Mas aí apareceu uma serpente. Ardilosa, chegou para a Eva e falou algo mais ou menos assim: “Ei… psiu.. ei… tudo bem? Legal… então. Não vai comer as frutas dessa árvore aqui não? É coisa fina. Fruto do conhecimento… Deus disse isso? Morre nada… ó… na verdade Deus sabe que quando vocês comerem os seus olhos se abrirão para o mundo e vocês serão conhecedores do bem e do mal. Sem contar que é uma delícia…”


A Eva comeu do fruto, chamou o Adão e deu pra ele também e vamos ver se você conhece mesmo essa história. Qual foi a primeira reação deles após comer do fruto proibido? Eles perceberam que estavam nus e, com vergonha um do outro, cobriram suas partes intimas com folhagem.


Ah… que história fantástica. Uma alegoria e tanto para nos dizer o que aconteceu com a nossa espécie quando nos tornamos Homo sapiens.


Adão e Eva é a história da nossa evolução como espécie. É um resumão da nossa trajetória como seres humanos escravos do Estado de Natureza para o Estado Social. Veja, quando Adão e Eva ainda não tinham comido do fruto eles estavam no Estado de Natureza que significa a nossa condição mais primitiva. Aquela condição que somos guiados pelos instintos como qualquer outro animal. Um hipopótamo é um ser vivo preso ao Estado de Natureza. Ele não se importa com muita coisa a não ser sobreviver, comer e procriar. Adão e Eva, ou os nossos parentes primatas, há 2,5 milhões de anos, agiam exatamente à moda de um hipopótamo ou qualquer outro animal: sobreviver, comer e transar.


Nesse tipo de comportamento os impulsos comandam as ações e questionar algo é basicamente impossível. Isso explica o porque Adão e Eva não questionaram Deus sobre a sua proibição de comer o fruto e o porque eles comeram o fruto depois de se sentirem atraídos pela sua beleza. Nem a serpente eles questionaram. Eles apenas seguiram o impulso desejante característico do Estado de Natureza.


Mas esse estado se perdeu no momento que ambos morderam o fruto. Quando eles percebem que ambos estavam nus, surge um sentimento que eles, antes como animais instintivos, nunca haviam sentido. Um sentimento exclusivamente social. Um sentimento que só seres humanos possuem. A vergonha!


A vergonha que eles sentiram é um marco histórico, representa um ponto de virada do estado de natureza para o estado social. Eles sentiram vergonha porque eles perceberam o outro. Eles sabiam da existência um do outro antes, claro. Mas entender e aceitar a presença do outro como indivíduo significa pensar: “Ih… olha ela ali… nossa… ela tá pelada… Eu estou pensando o que eu acho isso… Então se eu posso fazer isso, ela também também pode… E se ele pode pensar algo sobre mim… Eita! Eu to pelado, cara! Meu deus, o que ela vai pensar sobre mim?”


Quando eles se viram pelados logo fizeram essa associação. E entendendo que estavam sendo julgados enquanto julgava, sentiram medo de como esse julgamento estava sendo feito. Esse medo é a vergonha. Nós sentimos vergonha quando sofremos com o julgamento alheio.


Essa percepção do outro como um indivíduo é a grande característica do Homo sapiens. Hipopótamos não enxergam outros Hipopótamos como indivíduos. Não ligam para o que as hipopótamos fêmeas pensam sobre eles. E as fêmeas também não. Já os sapiens assumiram a presença de uma outra pessoa, alguém que não é ele, alguém que está fora, alguém que é o outro. E compreendem que esse outro também faz essas mesmas associações.


O fruto do conhecimento é, portanto, o salto evolutivo que demos de animais naturais para animais sociais. O problema disso tudo é que quando percebemos a presença de um outro indivíduo que tem seus próprios pensamentos, desejos e modo de ver o mundo, ficamos preocupados como ele nos vê. Para obter o melhor julgamento possível do outro, realizamos tarefas e fazemos coisas que as vezes nem fazem parte do que realmente somos.


A indústria dos cosméticos se baseia nisso. Na ideia de “como o outro vai te ver”. A maquiagem maquia, disfarça, quem realmente você é para agradar o olhar do outro. “Mas eu me sinto feliz e bonita quando me maquio”. Não duvido disso, mas já parou para perguntar o porque você fica feliz quando se sente bonita? Já se questionou o motivo pelo qual você se sente feliz quando usa uma roupa cara? Essa satisfação não pode estar completamente atrelada ao que o outro vai achar de você? Algo do tipo: “Estou satisfeito com o jeito que estou bonito hoje porque sei que o outro também vai achar isso”. Alias… Como você sabe o que é belo? É o que você acha belo ou o que você aprendeu com outras pessoas o que é belo? No fim das contas, tudo acaba sendo em função do outro. Por mais desconfortável que o salto alto e a gravata sejam, homens e mulheres de negócio passam o dia desconfortável mas, pelo menos se sentem felizes pois causaram boas impressões.


Penso que no fim das contas o olhar do outro não deveria importar tanto. Que se dane o julgamento do outro eu odeio usar gravata e salto alto machuca meus pés. Que se lasque o que o outro vai pensar, eu gosto de usar Crocs e meia com chinelo. Não to nem aí para o que o outro vai achar de mim se eu sair com a minha camisa amassada. E da vestimenta você pode ir para o ketchup na pizza que você tanto gosta, daquela música de ritmo estridente que faz você dançar, daquele projeto que você deixou na gaveta e está louco para colocar em prática. Liberte-se do julgamento do outro. E também esqueça de que o outro está nu também. Não ligue para o julgamento. Não julgue. Afinal, não estamos aqui para julgar. 




E aqui, uma das raras vezes que você lerá um conselho meu: Jogue seu ferro fora. O mundo vai ser um lugar melhor quando pararmos de passar roupa.

Conhecimento é Conquista

-FS

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© 2020 por FELIPE SCHADT.

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