• Felipe Schadt

Funarte proíbe o Rock? Que bom para o Rock!

Com isso o gênero voltou para o seu melhor lugar: a contracultura

Imagem icônica de Woodstock, o festival de Rock que celebrou a contracultura (imagem: Michael Ochs Archives/Getty Images)

> Eu cresci ouvindo rock dos anos 80. Eu fui forjado a base de Legião Urbana e U2. Meu primeiro violão, aos 12 anos, trovou a primeira vez com Tempo Perdido da banda de Renato Russo e, na sequência, com os quatro acordes infinitos de With Or Without You. Logo o desejo de ter uma banda tomou conta de mim e, junto de meu primo, em sua casa, compúnhamos tudo o que vinha na cabeça. Eu fazia parte da máxima adolescente de ter uma banda de garagem.


Lembro que quando formamos a nossa primeira banda, Órion, em meados de 2007, já existia uma cena bem potente na região de Jundiaí. Só em Campo Limpo Paulista, uma galera já estava fazendo som autoral e tocando por aí. Na terra da uva nem se fala. O cenário, aquecido pelo icônico ano de 2004 para as bandas undergrounds, era propício para que pelo menos uma em cada dez garagens abrigasse adolescentes cheios de som e fúria.


Em 2009, já com outra banda, a minha atual (Genomma), os festivais que abriam espaço para grupos autorais fervilhavam na região. A Genomma nasceu em um desses, o Pop Festival, que acontecia nas antigas Lounge e Tequila. Isso só fez com que mais bandas aparecessem e ganhassem espaço e certa notoriedade. Mas o que eu não conseguia enxergar ali era que esse movimento era apenas o último suspiro de um Rock mainstream que já sobrevivia por aparelhos há anos.


Rapidamente, as bandas de rock começaram a perder espaço para outros estilos nas casas de show da região. Eram raros os espaços que ainda apostavam no gênero. Os que resistiram, em sua maioria, valorizavam, como sempre fizeram, as bandas covers que resgatavam o mesmo Rock oitentista que entoava no meu discman, mas que, na virada da década de 2010, já era saudosista.


Vamos lembrar que o ano de 2004 já havia mostrado que o Rock sobrevivia, e muito bem, no submundo da música. Eram nos rolês undergrounds que as bandas faziam seu nome e arrastavam uma galera para vê-las tocar. O Hard Core, por exemplo, pulsava vivo, contraversivo e raivoso. Porém, estilos mais populares (como o da minha banda) estavam no limbo. Sem pertencer ao underground e muito menos ao mainstream, eu era vocalista de uma banda sem palco.


Diferente das décadas de 70 e 80 (e até parte da de 90), o Rock estava em alta. A MTV ditava o tom com seus programas voltados para videoclipes, que em sua maioria, eram de Rock. A 89 era uma das rádios mais importantes do país e a cada show anunciado, estádios lotados e roqueiros ricos. Em 2010 o Rock vivia como um pedinte nas sarjetas da indústria.


Quando o Rock percebeu sua posição, lambeu as feridas e resolveu permanecer no cantinho da sala. Bandas novas foram surgindo com o renascimento da Rádio Rock, outra bandas, que tentavam manter o Rock em alta iam se desfazendo ou voltando para o underground, outras, resistentes bandas oitentistas e noventistas, caiam no ostracismos mesmo aparecendo domingo sim domingo não nos programas de auditório da TV. Tirando o underground, o Rock ficou morno e assim permaneceu, cozinhando novos talentos, apresentando novas sonoridades e mantendo um público que não dizia absurdos como a famigerada frase “O Rock morreu”, mas que também não era novo.


Bandas como a minha sobreviviam fazendo cover de qualquer coisa. Tudo isso para nos proporcionar a alegria de subir em um palco. Jundiaí, apelidada antigamente de Seattle Brasileira (por ser berço de uma penca de grupos musicais), se tornara um cemitério onde viúvas e viúvos do Rock buscavam afogar suas mágoas com bandas que tocavam músicas consagradas de uma época que o gênero fazia certa diferença na vida e na sociedade de modo geral.


Até que, em 2020, o edital da Funarte “Prêmio de Apoio a Bandas de Música 2020” (1), presidida por Dante Mantovani, que ganhou notoriedade (sic) ao dizer que “o rock ativa as drogas, que ativam o sexo livre, que ativa a indústria do aborto, que ativa o satanismo” (2), proíbe a participação de bandas de Rock. E isso é fantástico!


Vale lembrar que essa proibição não é uma exclusividade desse governo. Nos editais anteriores de 2010 e 2012 do mesmo Prêmio, as bandas de Rock também não puderam participar (1). Mas é óbvio que a fala do atual presidente sobre o Rock ajudou a fomentar as críticas. Mas independente disso, essa proibição somada ao preconceito que Dante Mantovani possui com o gênero mantém o Rock longe das graças do Estado.


Com o conhecimento dessa proibição, além de deixar claro que o Rock não está incluso no o governo enxerga como “culturalmente bom e aceitável” e não merece incentivo do Estado, o Rock, morno lá no cantinho da sala e nos becos da indústria, se revira e tem a possibilidade de se levantar e fazer o que fez dele o que ele é: um movimento de contracultura.


Muita gente que eu conheço da cena, e muita gente mesmo, manifestou repúdio ao edital da Funarte. E dou total razão a elas. Eu também me manifestei. Mas o legal disso é ver que isso ativou na galera que produz Rock um sentimento de revolta típico do gênero. E esse movimento de revolta, sempre presente no underground, pode ganhar outros espaços. Eu imagino um levante das bandas de Rock. Várias bandas se unindo para promover festivais gratuitos, bandas surgindo com sangue nos olhos, músicas de protesto e, com tudo isso, um público novo sedento pelo som. Eu não tive um Rock pra mim. Cresci ouvindo uma geração de artistas que não era a minha, salvo raras exceções. Agora, o terreno está fértil para o Rock florescer outra vez no mainstream e voltar para os holofotes.


Talvez estejamos vivendo um momento de virada do ciclo natural do Rock (ser clandestino, ser contracultura, virar mainstream, perder a razão de ser, voltar para a clandestinidade e por aí vai). Estamos no estágio de sair da clandestinidade morna para viver a efervescente contracultura. E tudo isso porquê precisamos que o Rock fosse declaradamente taxado de anticultural. Bom, ele sempre foi e sempre deveria ser, a gente só não quis admitir isso diferente da cena underground que sempre entendeu o papel do gênero.


Não sendo um futurista, mas já sendo (ou tentando), prevejo bons ventos para o Rock. Prevejo novas bandas ganhando novos espaços. Prevejo novos públicos lotando novos shows. Prevejo novas músicas, novas tentativas de derrubar sistemas, novas revoluções. Prevejo novas modas e novas maneiras de pensar o mundo. Prevejo jovens de 12 anos tocando em seus violões recém ganhados as músicas que as nossas bandas estão fazendo. Prevejo o Rock sendo Rock.


Conhecimento é Conquista

-FS


Fontes:




(1) https://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,edital-de-incentivo-a-bandas-da-funarte-veta-rock-e-e-criticado,70003169931


(2) https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2019/12/02/dante-mantovani-novo-presidente-da-funarte-e-maestro-e-disse-que-rock-leva-ao-aborto-e-ao-satanismo.ghtml

15 visualizações

© 2020 por FELIPE SCHADT.

This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now