• Felipe Schadt

Eu odeio quem mexe no meu pé de maçã


Imperador Nero: o ódio como guia (Imagem: Internet)

> O ser humano é uma máquina de odiar. E eu poderia apresentar várias estatísticas que provam o fato, mas eu prefiro deixar que você mesmo comprove isso fazendo uma simples reflexão: Eu já odiei? Eu já presenciei alguém odiar? Eu já fui odiado ou odiada?


Você vai perceber rapidamente o quanto o ódio está presente no nosso cotidiano. Mas por que? Por que odiamos? Vou tentar te ajudar a buscar por respostas contando uma história. A história de vida de Nero Cláudio César Augusto Germânico, ou simplesmente, Nero.


Conhecido pelo censo comum como o imperador que incendiou Roma, Nero baseava todas, ou a maioria de suas atitudes, no ódio. Segundo estimativas históricas, ele foi responsável pela morte de mais de 5700 pessoas. Envolto por disputas pelo poder e intrigas desde seu nascimento, ele assume o posto de imperador aos 17 anos e começa seu mandato de ira, matando opositores, conspiradores ou qualquer um que não o agradasse.


Nero construiu calabouços em Roma para executar pessoas das mais variadas maneiras. Ora por questões políticas, ora por pura diversão imperial. Foi em sua gestão que os cristãos foram brutalmente perseguidos e assassinados. Além disso, Nero foi o responsável pela morte de sua própria mãe. Ah… Ele também exilou e executou sua primeira esposa por acusá-la de infertilidade e, aos chutes e pontapés, matou a segunda.


Mas tudo isso poderia ser muito pior se não fosse seu primeiro tutor, Lucius Annaeus Sêneca. O filósofo romano do primeiro século viu no ódio de seu pupilo a oportunidade de entender como esse sentimento funcionava. Sêneca concluiu que o ódio é o desejo de causar dano ao outro, pois temos o sentimento de que nos foi causado algum tipo de dano antes disso. Ou seja, o ódio é um sentimento de vingança.


Sêneca percebeu que Nero sentia ódio porque se sentia ameaçado por todos. É importante que se diga que o filósofo não queria justificar as atrocidades de seu pupilo, mas sim entender o que o motivava a sentir tal sentimento. Para ele, Nero imaginava que sofreria algum tipo de dano e, portanto, era preciso retribuir o dano ao agressor, mesmo que este ainda não o causasse mal algum. “A melhor defesa é o ataque”, sabe?


Vamos a um exemplo: Imagine que você está plantando uma macieira para que daqui uns anos você possa ter maçãs para fazer uma torta e uma árvore para lhe dar sombra. Após muito cuidado e dedicação à sua planta, você vê alguém golpeando sua árvore com um machado destruindo todo o seu trabalho. Você sentirá ódio, pois está sofrendo um dano. Sofrendo um prejuízo. O ódio nasce da sensação de prejuízo.


Movido pela força do ódio, Nero comandou Roma com punhos de ferro. Pois o medo de sofrer danos ou sair no prejuízo fazia dele um ser que só sabia odiar.


Me lembrei da primeira vez que me confrontei com o ódio. Foi em Cavaleiros do Zodíaco. Um dos personagens, chamado Ikki, tinha ido treinar para se tornar um cavaleiro na fictícia Ilha da Rainha da Morte. Lá, ele era treinado pelo diabólico Guilty que tinha como única premissa o ódio. Ele dizia para Ikki que ele precisaria odiar tudo e todos para ser um cavaleiro forte. Mas Ikki não conseguia odiar e para fazer seu discípulo entender, Guilty acaba matando sua própria filha incitando toda ira de Ikki. Em resposta, o cavaleiro mata seu mestre graças ao ódio que inundara seu coração. Na lógica do diabólico mestre, o amor e a compaixão deixava as pessoas fracas e vulneráveis.


Mas para Espinoza, viver apenas baseado no ódio é filosoficamente impossível. Mais, diz que o amor e o ódio são faces da mesma moeda. Se você já assistiu algum vídeo do professor Clóvis de Barros Filho, você já conhece a expressão “Potência de Agir”. Se não, não se preocupe. Eu te explico. Para Espinoza todos nós somos regidos por uma energia, a qual ele nomeou como potência de agir. Essa energia oscila. Ora você ganha potência, ora você perde potência.


Imagine um calor infernal. Você andou por uns dois quilômetros até chegar em sua casa. Com sede e exausto pelas altas temperaturas, você abre a geladeira e avista uma garrafa de sua bebida favorita geladinha. Você pega, abre e, no gargalo mesmo, você bebe quase que tudo. Assim que o liquido encontra com as papilas gustativas e o frescor da bebida encosta na sua goela, sua potência de agir é elevada. Esse aumento de potência é chamado por Espinoza de alegria.


Pensemos agora no oposto. Você acorda pela manhã com o barulho inconfundível do despertador e, cambaleante, caminha até o banheiro para fazer suas necessidades fisiológicas. No trajeto, o seu dedinho do pé esquerdo encontra a quina do pé de madeira da cama, fazendo você sentir uma dor aguda, sua boca soltar um palavrão e sua potência cair vertiginosamente. A diminuição de potência é chamada de tristeza.


Quando algo ou alguém faz tua potência subir, ou seja, te alegra, a causa da tua alegria é representada pelo amor. E quando algo ou alguém faz tua potência cair, ou seja, te entristece, a causa da tua tristeza é representada pelo ódio. Ou seja, você ama aquilo que te alegra e odeia aquilo que te entristece.


O problema aqui não é sentir. Amar e odiar é parte fundamental da dinâmica humana. Temos encontros alegres e tristes a todo instante. O problema aqui é o volume. Estamos muito mais propensos a odiar do que amar e eu digo o porquê.


O próprio Sêneca já havia identificado isso: nossas expectativas sempre são muito altas, ou seja, a gente nunca espera que o pior possa acontecer e, como não estamos preparados para isso, nos frustramos e nos sentimos lesados. Pense comigo. Você nunca esperaria que alguém viesse com um machado para destruir sua árvore de maçã. Logo, quando aconteceu, você não estava preparado e seu sentimento de ódio tomou conta da situação. Para o filósofo romano, se você já estivesse preparado para o pior cenário possível, nada te surpreenderia e, portanto, não haveria frustração.


Isso acontece porque achamos que tudo tem que ser do nosso jeito e odiamos as situações que não são, porque isso nos causa danos, frustrações e prejuízos. Quando você odeia o colega por ser de uma religião diferente da sua, você está se sentindo lesado e frustrado por ele praticar uma religião que você não reconhece como válida ou verdadeira. Quando você odeia o colega que tem uma visão política oposta da sua, você está se sentindo lesado e frustrado por ele ter uma ideologia que você não reconhece como válida ou verdadeira. E como você pode perceber, frustração e prejuízo fazem você perder potência e perder potência é se entristecer… Bom, você sabe o que sentimos pelas coisas que nos entristecem. Nós as odiamos.


E já que algo ou alguém nos causou danos, frustrações, prejuízos e tristeza, o sentimento de ódio nós leva a um único propósito: a vingança. É por isso que existem pessoas que querem causar dano aos homossexuais, por exemplo. Elas sentem que a homossexualidade causa algum tipo de dano a elas, se frustram pois os homossexuais não fazem parte do modelo de mundo delas, sentem que o casamento gay por exemplo causa prejuízo em seu ideal de sociedade e se entristecem com isso. Qual o resultado? Homofobia e violência. E você pode fazer essa analogia com negros, mulheres, indígenas, políticos e qualquer tipo de pessoa.


Você já deve ter presenciado ataques em redes sociais no qual a violência é gritante. Essa violência é explicada pelo ódio que as pessoas sentem na hora de digitar suas ofensas. E o discurso de ódio é aquele que incentiva as pessoas a odiarem outras. “Odeie aquele lá pois ele nos causa danos, frustrações, prejuízos e tristeza”. E não tem como, quando você odeia você quer causar dano ao odiado, ou seja, ódio e violência são indissociáveis.


Bom, agora que você já sabe o que é o ódio e porquê odiamos, te pergunto: por que você odeia o que você odeia?


Não me odeie por isso.



Conhecimento é Conquista

-FS

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© 2020 por FELIPE SCHADT.

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