• Felipe Schadt

Entre Platão e Jesus, eu aposto no filósofo grego


O Banquete de Platão (Anselm Feuerbach - 1869)

> Se você fosse apostar todo seu dinheiro em qual dessas pessoas o brasileiro segue fielmente: Platão ou Jesus, em qual deles você apostaria? “Em Jesus, é claro”, pode dizer você se baseando nos números que dizem que mais de 88% dos brasileiros são cristãos. Bom… eu se fosse você não ficaria tão confiante assim.


Os números não estão errados, mas eu apostaria todo meu dinheiro que aqui no Brasil os ensinamentos de Platão são muito mais presentes no cotidiano nacional do que as lições de Jesus de Nazaré. Principalmente em momentos como esse com um vírus mortal a solta. Se duvida, vem comigo que eu te explico isso.


O que é o amor? Multiplas interpretações, variados entendimentos e muitas maneiras de praticá-lo. Para o senso comum o amor está ligado ao romantismo ou, o amor é só de mãe, o resto é puro ódio, parafraseando os Detentos do Rap. Esses dois tipos de amor foram amplamente difundidos na nossa cultura ocidental graças a justamente esses dois sujeitos: Platão e Jesus Cristo.


Platão dedicou um diálogo inteiro para falar sobre esse sentimento. Para você que é marinheiro de primeira viagem, ele escrevia em forma de diálogos e esse sobre o amor se chama O Banquete. Na história, Agatão, um poeta, resolve dar uma festa para os amigos. Entre eles está Socrates, personagem principal dos diálogos Platônicos. Uma forma que Platão encontrou para homenagear seu mestre.


Você sabe que um banquete grego era regado de muita comida e principalmente muita bebida… e cansados da bebedeira da noite anterior, os personagens dessa história resolveram se divertir de uma outra maneira: iniciaram uma competição de elogios. É parece que os gregos gostavam desse tipo de entretenimento. Um dos presentes sugeriu que eles criassem discursos para enaltecer o Amor, chamado por eles de Eros, e que ao final decidissem qual foi o melhor. Mas antes que começassem a falar, Sócrates levantou a mão e sugeriu que antes de elogiar Eros, era preciso definir Eros.


Todos na mesa então começaram a dar suas definições e Platão, utilizando a figura do personagem Sócrates, disse o que acha que Eros é. Eros é desejo e desejo é o amor na ausência, o amor na falta. Só amamos aquilo que não temos e quando temos deixamos de amar para poder amar outra coisa que nos falte. É daí que vem a expressão, “amor platônico”. Sabe aquele amor que parece impossível? Então, para Platão, quanto mais impossível, melhor, pois o amor dura na medida que ele não se concretiza.


Quando eu era criança, meu sonho de consumo era um Game Boy. Como eu enchi o saco dos meus pais e tios para ganhar um desses. O desejo só aumentou quando comecei a estudar em uma escola particular onde todos os meninos da minha sala ostentavam um desses no recreio. Nossa… como eu os invejava. Ao mesmo tempo que queria muito poder apertar aqueles botões, eu tentava manter a pose dizendo que “minha mãe não deixa eu trazer o meu Game Boy para a escola”. Como doía contar aquela mentira para meus amigos. Lembro que cada ida ao shopping era o mesmo drama. Quando eu avistava um na vitrine, eu contemplava com todo o amor que eu nutria pelo brinquedo eletrônico e sofria quando eu ficava sabendo que não seria daquela vez que eu teria um. Cada aniversário, dia das crianças, natal e qualquer tipo de feriado, eu, esperançoso, esperava ser surpreendido com o meu objeto de desejo. Mas nunca fui… era um brinquedo muito caro para os padrões da minha família que já se esforçava muito para pagar o colégio para mim.


Oito anos se passaram e eu não parei de desejar o Game Boy. Juntei dinheiro com o emprego que eu tinha, esperei pacientemente e já adulto pude enfim ir até uma loja de eletrônicos e comprar o tão desejado brinquedo. E eu fiz miséria! Não comprei só um Game Boy. Comprei a versão deluxe, platinum, double, color, Plus, evolution… Já que esperei tanto, eu queria ter simplesmente o melhor. Comprei, joguei e hoje, 10 anos depois eu não faço a mínima ideia de onde meu Game Boy foi parar. Deve estar em alguma gaveta perdido por aí. Fazem anos que eu não o vejo e nem sei se funciona ainda.


Não sei se você notou, mas o desejo pelo Game Boy se foi assim que ele não me fazia mais falta. Se desejo é amor, meu amor pelo brinquedo simplesmente não existe mais. Alias, lembro que poucos meses depois de tê-lo adquirido, o PlayStation 3 foi lançado e adivinhe você, ele passou a ser meu objeto de desejo. O amor platônico é assim, acaba quando o objeto desejado é alcançado pelo ser desejante.


E funciona com pessoas também. Eu amo a Fernanda Souza. E amo ela desde a época em que ela interpretava a Mille de Chiquititas. Nossa, como eu a idolatrava na frente da TV. E esse amor ainda não acabou. Desejo a Fernanda Souza loucamente e assim o farei até o fim dos meus dias, ou até ela me notar e corresponder todo esse amor. Fernanda Souza, se um dia você ler esse texto, por favor, não me procure. Pois não quero nunca ter nem a chance remota de ser correspondido, pois se eu for, meu amor por você acabará para dar lugar a outro amor impossível. E quero continuar te amando para sempre.


Já o amor cristão é completamente diferente. Jesus pregava o Ágape, e não estou falando do livro do padre, estou falando do amor abnegado, o amor ao próximo, o amor ao outro. A ideia de amor ágape vem justamente de colocar qualquer outra pessoa a frente de você na escala de importância da sua vida. Todas as suas ações são baseadas em causar alegria ao outro, pois só quando o outro está bem você pode se permitir estar bem também. É um amor tão altruísta que você deixaria de viver para que o outro vivesse. Um amor a base do sacrifício.


Para entender melhor essa ideia, precisamos entender o que Cristo pregava. Vamos olhar para o Deus cristão e tentar identificar aonde está esse amor. Se você perguntar para qualquer um “qual foi a maior prova de amor que Deus fez por nós”, você provavelmente ouvirá “ele deu seu único filho para nos salvar dos pecados”. Vou apresentar uma outra resposta. Uma outra prova de amor que condiz mais com a ideia de Ágape que estamos falando aqui.


Na concepção cristã, Deus é perfeito. Fiquemos com essa ideia então. Na mesma lógica, não existe mais ninguém perfeito a não ser Ele. Nem você e muito menos eu somos perfeitos. Muito bem… Imagine que eu queria fazer com que o meu blog seja perfeito. Oras, se eu não sou perfeito e ninguém é, quem é o único capaz de fazer do meu blog perfeito? Isso mesmo, Deus. Então eu chego pra Deus e falo: “Deus, você pode fazer meu blog perfeito?”… “Sério? Você pode! Legal! Então faça!”… “Espera… para você fazer o meu blog ser perfeito eu não posso mais participar?”… “Entendi… Ah… você vai mudar o nome, pois o nome foi escolhido por mim que sou imperfeito, logo ele também é imperfeito… Certo… E você vai mudar o logo também? E o roteio. E o estilo…”… “Você vai mudar tudo então!”…”Mas aí não será mais o meu blog”… “Será o seu blog”.


Acho que você entendeu. Se Deus assumisse meu lugar nesse texto, ele não seria mais meu texto e passaria a ser de Deus, já que ele é o único que saberia fazer um texto perfeito. E minha presença aqui não faria nenhum sentido. E isso serve para tudo. Uma oficina mecânica perfeita não precisa de mecânicos, basta Deus colocar um macacão e concertar os carros com perfeição. Uma lanchonete perfeita não precisaria de cozinheiros, pois Deus estaria no comando da cozinha, do atendimento e das entregas… Entenda que se Deus fosse presente em todas as coisas, nossa existência não seria necessária. Para que nós possamos existir, portanto, Deus precisou se retirar.


E se Deus nos fizesse perfeitos? Aí não seriamos nós, seríamos Deus. Uma vez um aluno meu disse que o seu pai odiava o fato dele ter escolhido Publicidade e Propaganda para cursar. “Meu pai queria que eu fizesse Direito como ele, mas eu não gosto”. “E o que você fez para convencer seu pai?”, perguntei. “Nada, professor. Ele simplesmente entendeu que para eu ser feliz, ele precisou deixar que eu tomasse minhas próprias decisões e trilhasse meu próprio caminho, mesmo que ele achasse isso imperfeito”. O pai do meu aluno queria que ele fosse um advogado exatamente como ele era, mas isso anularia a existência do meu aluno. Percebendo isso, o pai se retirou para que o filho pudesse existir. Deus fez exatamente a mesma coisa. E é essa a maior prova de amor que ele fez por nós. Saiu de cena para que a gente pudesse atuar em nossa imperfeição.


Ágape é literalmente dar a sua vida pela a do outro sem pensar. Uma mãe, ou pelo menos a maioria delas, faz essas escolhas todos os dias. Deixa de existir para que o filho exista. Quantas mulheres não se anularam como mulher para se tornarem mães?


Enquanto Eros é um amor que diz respeito a você, Ágape é um amor que diz respeito ao outro. Eros é egoísta, pois fala do seu desejo e não do desejo do outro. Ágape é altruísta, pois fala sempre da felicidade do outro e não da sua.


Hoje, em um cenário de pandemia em que não temos vacina, a melhor maneira de evitar que o vírus se espalhe é o distanciamento social. É ficando em casa. Usar máscaras. Lavar bem as mãos e não fazer aglomerações. Mas você está cansado de ficar preso. Está de saco cheio de ficar recluso. Não aguenta mais de saudade dos amigos e das festinhas. Você sente falta das festinhas. Você deseja as festinhas… E, como todo bom ser desejante, você vai atrás de saciar sua vontade e esquece que essa atitude coloca muitas outras pessoas em risco. Para matar o seu desejo, para matar a sua vontade, você ajudou na proliferação de um vírus que mata mais de mil pessoas por dia.


E o engraçado é que em um país onde mais de 88% das pessoas são cristãs, ou seja, seguidoras de Cristo, o amor a ser praticado deveria ser o amor que Jesus ensinou, o Ágape. Mas parece que as pessoas estão mais interessadas em Eros, ou seja, em saciar os próprios desejos.


Quando você fica em casa, você está praticando o amor Ágape. Mesmo cansado de ficar preso. De saco cheio de ficar recluso. Com saudade dos amigos e das festinhas, você pensa no outro. Para que o outro possa se manter a salvo, você deixa de fazer aquilo que quer. Você primeiro pensa no bem estar do outro para só depois pensar no seu.


Infelizmente a maioria não pensa assim. E é por isso que eu aposto todas as minhas fichas que aqui no Brasil, preferimos Platão do que Jesus Cristo.

Conhecimento é Conquista

-FS

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© 2020 por FELIPE SCHADT.

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