• Felipe Schadt

Ciência não é opinião, mesmo que você ache o contrário


A ciência não liga para a sua opinião sobre a Cloroqiina (Imagem: Internet)

> Parece óbvio, mas não é. Pessoas insistem em refutar conhecimento científico com base em suas opiniões. Quantas vezes já não assistimos pseudocelebridades virtuais começando uma argumentação contra dados científicos com a frase “eu acho…” ou com a famigerada “pode até ser, mas eu não concordo”. Por que isso acontece? Sinceramente eu não sei da onde vem esse desrespeito à ciência, mas te convido para um breve passeio filosófico sobre o conceito de ciência e o porque ela não tem nada a ver com opinião. Nossa jornada começa três séculos antes de Cristo, com Aristocles, um dos maiores filósofos da história da humanidade. Aristocles era um sujeito de portes atléticos e reconhecível pelos seus ombros largos, por isso ganhou o apelido de Platão. Platão pode ser classificado como um filósofo dualista, ou seja, acreditava que as coisas eram divididas em duas. Dos dualismos platônicos, três nos serão úteis aqui. O primeiro é o Dualismo Metafísico. Platão acreditava que existiam dois mundos, o mundo de cima e o mundo de baixo. O mundo de cima, era chamado de Mundo Ideal, ou mundo das ideias. Nesse mundo, era onde as coisas ideias viviam. Já o mundo de baixo, era chamado de Mundo Sensível, ou mundo dos sentidos. Nesse outro mundo, era onde as representações das coisas ideias residiam. Vamos aos exemplos: Tudo o que você vê, toca, sente, cheira… Enfim… Tudo que você percebe graças aos seus cinco sentidos, são representações imperfeitas da sua forma perfeita que está no Mundo Ideal. Esse celular que você está usando agora é apenas uma representação, uma sombra, uma cópia imperfeita do celular ideal. E isso serve para todas as coisas. Você só conseguirá ter acesso ao celular ideal quando sair do mundo dos sentidos e ir para o mundo das ideias. E como você fará isso? Quando você sair da caverna! O dualismo metafísico é a moral da história da famosa alegoria da caverna de Platão. Dentro dela, você só vê as sombras. As coisas que projetam essas sombras estão do lado fora. Mundo sensível, caverna. Mundo ideal, fora da caverna. Ou para quem prefere. Mundo sensível, Matrix. Mundo ideal, fora da Matrix. Isso nos leva ao segundo dualismo platônico, o Dualismo Antropológico. Se o mundo é dividido por dois, o homem também é. O ser humano é dividido em Corpo que sente e Alma que pensa. E você já matou a charada. O corpo vive no mundo sensível e a alma no mundo ideal. O problema é que a alma, para Platão, está presa ao seu corpo e a morte seria a libertação da alma para ela enfim viver no mundo das ideias. O interessante aqui é que a alma não sente, porque a alma é ideal. Quem sente é o corpo, que é sensível. E aqui você pode perceber o quanto o catolicismo se apropriou dessa ideia: O corpo que peca e apodrece na terra versus a alma imortal que transcende aos céus. Por fim, chegamos ao Dualismo Epistemológico. Se existe um mundo ideal versus um mundo sensível, se existe uma alma ideal versus um corpo sensível, também existe um conhecimento ideal versus um conhecimento sensível. O conhecimento ideal é o conhecimento abstrato, representado pela matemática. Ora, você há de concordar comigo que a matemática é perfeita. 1 mais 1 sempre será 2. E por que é abstrata. Por que você não precisa comprovar empiricamente que uma bala mais outra bala resultará em duas balas. Você só precisa pensar nos números, calcula-los e voilá. Já o conhecimento sensível é o empirismo. Para você conhecer algo você precisa colocar seus sentidos para trabalhar. Exemplo: Como você pode saber se o chá está quente ou frio? Você pode observar o líquido e ver se ele está borbulhando ou você pode tocar no líquido e sentir sua temperatura. Você precisou experimentar, ou seja, fazer uma experiência para adquirir o conhecimento sobre a temperatura do chá. E é nesse ponto que nosso problema começa. Quando eu tinha 15 anos eu queria fazer academia. Ficar forte e ter o corpo musculoso para impressionar o sexo oposto. Convenci um amigo meu, o Barba, a ir comigo. Ah, um detalhe. Ele não era um adolescente precoce com pelos no rosto, o Barba ganhou esse apelido porque em uma festa junina na escola, ao invés de desenhar com caneta um cavanhaque na cara, ele cortou um pouco do próprio cabelo e colou nas bochechas. Nunca mais foi chamado pelo nome. Enfim, eu e o Barba fomos até uma academia, fizemos nossa matrícula e começamos os treinos. Nosso instrutor, um cara de quase dois metros de altura, com músculos gigantes e auto apelidado de “Encrenca”, nos mostrou o que deveríamos fazer e nos advertiu: “Não tentem levantar pesos que vocês não aguentam, comecem leve”. Eu não desobedeceria um cara chamado Encrenca, mas o Barba queria resultados rápidos e foi no pesos mais pesados. Enquanto eu estava feliz levantando dois quilos em cada mão, o Barba estava com oito. “Pega leve aí, Barba. Você ouviu o homem”, “Mano, pra mim tá leve”. Tínhamos a mesma estrutura física e se ele disse que estava leve para ele, também seria leve para mim. Larguei os pesinhos e fui para os pesos de oito quilos em cada mão. Não estava leva pra mim. Estava muito pesado. E eu estava sofrendo. Mas eu era um adolescente que nunca admitiria uma derrota. No dia seguinte, eu não fui para a escola, pois não conseguia mexer os braços e era uma versão magrela do Batoré. Oito quilos é leve ou é pesado? Para saber, você precisa experimentar. O Barba experimentou e constatou que era leve. Eu experimentei e constatei que era pesado. Mas afinal de contas, oito quilos é leve ou é pesado? Depende de quem o experimenta. Para Platão o conhecimento sensível é uma doxa. Ou seja, uma opinião. O chá a 50ºC está quente ou frio? Alguns podem achar quente outros podem achar frio. Já que somos diferentes, teremos experiências diferentes e, portanto, resultados diferentes. Aqui se estabelece uma guerra de narrativas. Qual opinião vale mais, a minha dizendo que oito quilos é pesado ou a do Barba dizendo que oito quilos é leve? O cientista inglês, Francis Bacon, dezoito séculos depois de Platão, resolveu esse problema. Cravou que nenhuma opinião deve ser válida ante a comprovação científica. E para ser cientificamente validado, as opiniões, paixões, interesses e qualquer influência externa, deve ser deixada de lado na hora de observar o experimento. Bacon buscou se livrar do pensamento filosófico clássico e se debruçar em uma construção de metodologias científicas que fossem práticas e objetivas. Quando o chá está quente? Independente do que você ache ser quente ou não, a observação objetiva conclui que a água ferve aos 100ºC. Essa conclusão só foi possível graças ao que o cientista inglês classificou como queda dos ídolos. Bacon acredita que a ciência possui algumas limitações. Essas limitações seriam os Ídolos que são distrações que impedem a indução para a busca da verdade. Os ídolos são as subjetividades, crenças, paixões, interesses e qualquer influência externa que dificultam o fazer científico. Imagine que um cientista precisa estudar como o organismo de um sapo funciona, e para isso ele precisa dissecar um. O problema é que ele ama os animais e seria incapaz de matar um sapo para tal experimento. O experimento não acontece. Troque o sapo por ratinhos. Antidepressivos jamais seriam descobertos se os cientistas deixassem suas paixões dominarem seu trabalho. Os ídolos também podem atrapalhar na obtenção dos resultados. O médico britânico Andrew Wakefield publicou, em 1998, um estudo que relacionava a vacina contra a caxumba, o sarampo e a rubéola, ao autismo. Das 12 crianças com autismo analisadas no artigo, oito teriam manifestado a doença duas semanas depois da aplicação da vacina. A teoria de Wakefield era de que o sistema imunológico havia sofrido uma sobrecarga com a imunização. Um tempo após a publicação, o estudo começou a ser questionado. O médico estava envolvido com advogados que queriam lucrar a partir de processos contra fabricantes de vacinas. Além disso, ele utilizou dados falsos e alterou informações sobre os pacientes. Esse estudo originou o movimento antivacina. Para ser ciência, há uma série de métodos a serem cumpridos que destroem esses ídolos. Um remédio, por exemplo, é testado incontáveis vezes em muitas pessoas diferentes, além de ser submetido a provas e contraprovas que identificam qualquer tipo de erro que os testes poderiam ter. Esse procedimento de criar um medicamento e comercializá-lo nas farmácias leva até uma década. Ou seja, a ciência não se importa com o tempo e sim com o resultado eficaz. O infectologista francês Didier Raoult, da Universidade de Medicina de Marselha, divulgou um estudo no qual a utilização de cloroquina para o tratamento de pacientes com COVID-19 se mostrou eficaz. Isso chamou a atenção do presidente estadunidense Donald Trump e do seu equivalente brasileiro, Jair Bolsonaro. Ambos, preocupados com o colapso econômico, começaram a defender veemente o uso do medicamento como solução para o Novo Coronavírus, mesmo com o estudo de Raoult sendo contestado pela comunidade científica devido a ineficácia e falta de rigor dos experimentos. Algumas notícias pipocam dizendo que o remédio é eficaz. Outras, por sua vez, mostram os efeitos colaterais que levaram alguns pacientes a óbito. A Cloroquina é eficaz no tratamento contra COVID-19? Uns acham que sim. Outros acham que não. A água do chá está quente? Uns acham que sim. Outros acham que não. Só que ciência não é opinião, lembra? Por mais que você ache que a Cloroquina seja eficaz, a ciência ainda não comprovou isso. E por mais que você ache que a Cloroquina seja ineficaz, a ciência também ainda não bateu o martelo. Aí vai de você confiar na opinião de alguns ou nos fatos da ciência. O que eu quero dizer com tudo isso? A ciência transcende a sua opinião. Você pode achar que a água a 100ºC não é quente o suficiente. Independente do que você acha, ela ferverá. Você pode achar que a vacina tríplice vai te causar autismo. Independente do que você acha, ela não vai te causar autismo. Você pode achar que o aquecimento global não existe. Independente do que você acha, as calotas polares estão derretendo. Você pode achar que a terra é plana. Independente do que você acha, a terra é uma esfera que gira em torno do Sol. Ciência não é sobre você ou sobre sua visão do mundo. Ciência é o mundo e o mundo independe de você. Ciência não é opinião, mesmo que você ache o contrário. Conhecimento é Conquista

-FS

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© 2020 por FELIPE SCHADT.

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