• Felipe Schadt

As Redes e os Dilemas - Pt. 3: A Lei


Cena de "O Dilema das Redes" (Divulgação: Netflix)

> Um dia desses vi um meme que eu particularmente achei engraçado. Era uma imagem de Moisés segurando as tábuas de pedra com os dez mandamentos e na descrição da imagem estava escrito o seguinte: “Tecnicamente, Moisés foi o primeiro homem a baixar dados da nuvem em um tablet”. Pode não ser o meme mais engraçado da internet, mas a sacada foi divina.


Moisés desceu do Monte Sinai com duas placas de pedra contendo mensagens escritas, segundo ele, pelo próprio Criador. Os dez mandamentos formam a base das leis cristãs que, até hoje, servem de guia da moralidade de seus fieis. Mas é de outra religião que eu quero falar aqui. Quero continuar nosso papo sobre dataísmo e contar para você qual é a lei que rege os seguidores dos dados.


Diferente do cristianismo, o dataísmo possui um único mandamento: As informações devem ser livres! Faça o que fizer na internet, nunca em hipótese alguma impeça a informação de circular livremente. É só isso que o dataísmo quer de você. Ele não quer que você honre seus pais ou que você não mate ou não roube. Um bom dataísta é aquele sujeito que deixa, garante, facilita e mantém os dados livres.


E é bem simples de entender essa lei. Se os dados não circularem, a internet simplesmente não funciona. Pare para pensar um pouquinho comigo. O que é a internet? Um espaço imaginário que contem todas as informações que nós colocamos lá. Ela é praticamente um banco. Imagine a seguinte situação: você e todos os correntistas do banco X resolvem tirar todo o dinheiro que vocês depositaram lá. O que acontece com o banco? Ele quebra. Pois um banco só funciona se houver dinheiro de outras pessoas circulando dentro dele. Com a internet é exatamente a mesma coisa. Todas as informações dentro da internet são produções humanas. Se todos os humanos simplesmente pararem de depositar informações lá, a internet deixa de existir.


Você deve se lembrar do Orkut. Uma rede social muito famosa na segunda metade da primeira década dos anos 2000. Desativada em 2014, a rede social viu seu declínio por dois motivos. O primeiro, foi a ascensão do seu concorrente, o Facebook. As pessoas acharam a ideia de Mark Zuckerberg mais atraente, pois diferente do Orkut, elas não precisavam buscar por informações dos seus amigos indo até suas páginas, as informações chegavam até elas pelo feed de notícias. O feed foi uma das engrenagens que deram ao Facebook o poder que ele tem hoje. Você não precisava fazer nenhum esforço, as informações simplesmente chegavam até você.


O segundo motivo da morte do Orkut foi embalado justamente pelo feed do Facebook. As pessoas gostavam da ideia de postar alguma informação e saber que ela poderia parar no feed de outras pessoas. Ser visto no Facebook era muito mais fácil do que no Orkut. Então, como uma diáspora rumo a terra prometida, os usuários migraram para o Face e o Orkut foi perdendo usuários. Sem usuários, sem informações sendo produzidas, sem informações sendo produzidas, a página das famosas comunidades definhou até a sua morte.


A lição que o Orkut deixou para nós foi de que a internet só sobrevive se houver pessoas dispostas a compartilhar informações nela. Eis o primeiro grande ponto da lei dataísta. Deixar as informações livres significa produzir dados e compartilha-los. Nada de tirar uma foto e não postar. Tirou uma foto? Escreveu um texto? Gravou um podcast? Poste. E o Orkut morreu porque não era um espaço atrativo para as pessoas deixarem suas informações livres, pois para as pessoas, do que adiantava produzir informações se a logística para ela chegar até outras pessoas era capenga e ineficiente?


Mas nada adianta liberar a foto, o texto ou o podcast se não há garantias de que eles circularão livres por aí. Um dos grandes demônios do dataísmo é o Pay Wall. O Pay Wall é basicamente um muro que separa as informações das pessoas. Alguns dos grandes jornais do mundo se utilizam dessa tática para restringir conteúdo. Se você já tentou ler uma reportagem em algum site de notícias e apareceu a mensagem “Restrito para assinantes”, você foi vítima do Pay Wall. Para o dataísmo, essa prática é literalmente infernal.


Porém o dataísmo também possui os seus santos. Aaron Swartz, um hacker americano que enfrentou essa prática de restringir acesso à informações como um verdadeiro dataísta. Em 2008, ele publicou o manifesto Guerrilha Open Access, que pedia para que todas as informações, onde quer que estivessem armazenadas, fossem liberadas para que pudessem ser copiadas e compartilhadas com todo mundo. “Precisamos lutar a guerrilha do livre acesso!”, disse ele.


Sua causa dataísta ganhou holofotes quando a biblioteca digital ISTOR, que abriga milhões de trabalhos científicos, decidiu cobrar de seus leitores para acessar seu acervo. A ideia da biblioteca era de garantir que os cientistas e pesquisadores fossem pagos pelas seus artigos. Aaron, mesmo nome do irmão mais velho de Moisés, veja você, pensava diferente da biblioteca. Ele acreditava que ideias não pertenciam às pessoas individualmente e sim eram uma propriedade universal. Como hacker que era, invadiu o sistema da biblioteca, baixou milhares de trabalhos e pretendia liberar para toda a internet. Por causa disso ele foi preso e levado a julgamento. Esperando a sentença em liberdade, não aceitou a ideia de ir preso. Logo ele, que lutava pela liberdade. Cometeu suicídio em seu apartamento. Um verdadeiro mártir dataísta que seria canonizado sem nenhuma dificuldade pelos sacerdotes da internet.


Diferente dos jornais e seus Pay Walls e das bibliotecas e seus acervos restritos, há na internet cada vez mais iniciativas de facilitar a circulação dos dados. Engenheiros, pesquisadores, cientistas e operários da indústria informacional trabalham dia e noite para oferecer para você aparelhos que façam isso. A cada ano, os smartphones estão mais potentes em conectar você com as informações. Além disso, eles permitiram que você produzisse informação com muito mais facilidade e rapidez. Quantos vídeos, textos e áudios temos todos os dias sendo publicados na internet? Cerca de 60 horas de vídeos são subidos para o YouTube por minuto. Isso significa que quando você terminar de ler esse texto, haverá 360 horas de novos vídeos na plataforma.


As casas inteligentes também são facilitadoras do fluxo livre de dados. Uma casa inteiramente conectada na internet envia informações detalhadas a cada minuto sobre a rotina dos moradores. Quanto se gasta de energia elétrica até o que há dentro da geladeira. A internet das coisas se torna cada dia mais parte de nossas vidas por deixa-la mais fácil, e ter uma casa conectada é para o dataísmo a mesma coisa que ter sua casa abençoada pelo próprio Papa.


Mas um dataísta fiel mesmo é aquele que abdica da sua própria humanidade para adorar os dados. E adorar os dados é, como já disse, deixar, garantir, facilitar e manter as informações livres. E para isso acontecer precisamos deixar o humanismo para trás. E o processo já começou e você nem percebeu. Se no humanismo o ser humano está no centro do universo e no dataísmo são os dados que tomam esse papel, o que será de nós, seres humanos nessa nova era? Qual será a nossa função? Ora… manter as informações livres.


Só que você se engana se acha que manter as informações livres é só postar no Facebook, lutar contra barreiras de acesso ou ter uma casa conectada. Por onde você acha que a informação circula para chegar até você? Se você ainda não sacou, vou te ajudar. Vá até a torneira mais próxima e se faça a pergunta: “Por onde a água viaja até chegar aqui?” É… por um cano. As informações também precisam de um cano para fluir e adivinhe só, esse cano é você! No dataísmo somos todos um pedaço de um fio condutor que se conecta com outro pedaço de fio criando uma grande rede por onde os dados podem circular.


Quebrar essa corrente humana é o pior dos pecados nessa nova religião. Pecado esse passível do pior castigo de todos: a morte. Mas estou falando de uma morte diferente. Não falo da morte física. Falo da morte virtual. Não estar na internet significa não existir. Você pode negar os dados como o nosso novo Deus, só que infelizmente você não desfrutará do paraíso que a internet nos oferece. Seja um servo dos dados, um obediente fio condutor de informações e tenha a permissão de fazer parte da maior comunidade da história, com regalias e comodidades que só a internet pode nos dar. A aldeia global profetizada por Marshall McLuhan. Negue os dados e aceite a inexistência da sua própria vida.


Como o outro Deus que já conhecemos, o dataísmo também é benevolente. E você nem precisa pedir perdão para ser aceito no paraíso virtual. Basta se conectar e aceitar sua nova condição. Crie, poste, publique e compartilhe. Pronto… E diferente das outras religiões, o paraíso não é uma promessa, é uma realidade e os dados te convidam a entrar no Éden cibernético todos os dias pela tela do seu celular.


O importante a se pensar é: o que acontece quando um cano não faz seu trabalho direito? Oras… é simples! Jogue o cano com defeito fora e faça uma remenda com outro novo cano que esteja em bom estado. E existem bilhões de canos dispostos a conduzir os dados com eficiência por aí. Então, seja um cano obediente e mantenha as informações circulando livremente por aí. Essa é a lei!


Conhecimento é Conquista

-FS

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© 2020 por FELIPE SCHADT.

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