• Felipe Schadt

A solidão é um presente que não queremos ganhar


Suzy, a detenta transexual que não recebe visitas há pelo menos sete anos (Imagem: Reprodução/Fantástico)

> Suzy de Oliveira Santos, 30 anos, detenta, portadora do vírus HIV e transexual. Há oito anos sem receber visita de parentes ou amigos. Ela foi entrevistada pelo médico Drauzio Varella em uma reportagem do Fantástico. Em poucos segundos de diálogo, Suzy e Drauzio emocionaram muita gente abrindo a discussão para o tema da solidão. Convido você para mergulhar nesses poucos segundos.





Logo, uma corrente na internet se iniciou para que pessoas escrevessem e mandassem cartas para Suzy, com o claro intuito de diminuir a solidão que ela enfrenta. Um gesto louvável, carinhoso e empático. Um gesto que também nos obriga a pensar a respeito da solidão. Será que a solidão também não pode ser algo bom? Será que estamos preparados para a solidão? Por que temos a impressão de que viver só é algo ruim ou digno de pena? Necessitamos tanto assim da presença do outro? Por que o sentimento de solidão da Suzy nos feriu tanto?


Jean Jacques-Rousseau, famoso filósofo dono da frase “O homem é bom, a sociedade que o corrompe”, entende que o ser humano é um animal coletivo. Nós nascemos para conviver em grupo pelo simples fato de que sozinhos jamais conseguiríamos sobreviver ao estado de natureza. Esse sentimento de colaboração, inerente ao humano, nos faz pensar que precisamos do outro e o outro precisa da gente, logo, ser sozinho passa a ser estranho a nós.


Isso nos ajuda a pensar muitas coisas referente ao que entendemos como solidão. Nessa perspectiva, quando você consegue conviver em grupo, você demonstra grande habilidade de colaboração, ou seja, pessoas dependem de você e você depende de pessoas. De certa maneira, saber conviver no coletivo é uma espécie de vitória. Quem não gosta daquele sujeito que faz amizade fácil, que conversa com todo mundo, que não tem problemas em participar das dinâmicas sociais e que sempre está acompanhado? “Olha lá, ele é tão querido por todos”. Saber conviver é uma das vitórias do jogo social.


Por outro lado, aquele que não consegue se enturmar, conviver no coletivo ou manter relações, ou é visto como vilão ou como coitado. Tudo isso porque, segundo a ideia de Rousseau, essa pessoa não possui habilidades de convivência e colaboração e, portanto, não consegue viver com o outro e por isso é isolada. Sabe aquele parente que prefere ficar no quarto do que no churrasco com a família? “Credo, fica lá sozinho e não se enturma, que chato” ou “Que dó eu tenho dele, sempre sozinho”.


O bigodudo Friedrich Nietzsche pensaria o oposto disso. Ele, que na fase derradeira de sua vida, seria o parente que prefere o quarto ao churrasco com a família. Nietzsche abordou o tema da solidão no livro “Aurora”, publicado em 1881, 15 anos após ser diagnosticado com sífilis e de iniciar sua reclusão social, vivendo na mais pura solidão. Nesse livro que reúne mais de 500 aforismos, o filósofo alemão fala sobre a libertação do homem das amarras da moralidade construída por valores tradicionais. Mais ou menos uma grande indagação do “por que eu tenho que obedecer a isso ou aquilo?”. Para ele, o homem precisaria se libertar e para alcançar a aurora de sua existência, seria preciso questionar todos os valores externos e olhar para dentro de si.


E para fazer esse exercício, era necessário ficar só. Dirá Nietzsche no aforismo 491: “Estando entre muitos, vivo como muitos e não penso como eu; após algum tempo, é como se me quisessem banir de mim mesmo e roubar-me a alma — e aborreço-me com todos e receio a todos. Então o deserto me é necessário, para ficar novamente bom”.


Isso significa que a solidão é o momento em que nós podemos ser nós mesmos, pois, na ausência do outro, não precisamos nos preocupar como o outro nos vê, logo, é na solidão que podemos nos expandir. Você só consegue ser você quando você está só. Quando você está com o outro, você é aquilo que você quer que os outros vejam. No entendimento de Nietzsche, negar a solidão é replicar o comportamento do outro. E replicar o comportamento do outro é negar o seu próprio comportamento. É aderir ao efeito manada.


Elizabeth Neumann, filósofa conterrânea de Nietzsche, nos apresenta a teoria da Espiral do Silêncio. Essa teoria aborda a nossa tendência a nos calarmos em determinadas situações por medo do isolamento social. Imagina que você está em um grupo e todos, exceto você, acham que a tortura é algo bom. Você não concorda com isso, mas é o único na roda de amigos que pensa diferente. Segundo a teoria, você, com medo de ser isolado dentro do grupo, ou se cala perante a discussão ou acaba até concordando. E isso é muito mais comum do que imaginamos. Para aqueles que temem a solidão e o isolamento, a espiral do silêncio é quase que uma regra. Logo, sua individualidade vai escorrendo pelo ralo enquanto você se torna um produto replicante do grupo.


Eis o efeito manada. Todos pensam igual para se manterem no grupo. E essa massa homogênea passa a ser facilmente diagnosticada e previsível. Essa situação me lembra de um personagem do épico de Isaac Asimov, A Fundação. Hari Seldon, que praticava a psico-história (profissão fictícia do universo asimoviano), dizia que era capaz de prever o futuro olhando para o comportamento das massas. Para a psico-história, a massa age de maneira previsível enquanto um ser humano sozinho é imprevisível. E isso pode ser observado na vida real. Forças policiais já possuem inteligência para agir em caso de briga de torcidas organizadas, pois eles sabem como essa massa costuma agir. O engraçado é que em A Fundação, as previsões de Hari Saldon estavam todas corretas, porém um fator mudou tudo, a presença de um personagem fora da massa, o solitário Mulo.


Bom, você já deve ter entendido que a solidão não é necessariamente algo ruim. Pode ser, inclusive algo essencial para que nós saibamos ser nós mesmos e sermos, no mais puro significado da palavra, indivíduos. Ou seja, individuais. Donos e donas da própria existência. Mas aí você se lembra da Suzy… Um soco no estômago que deixa um gosto ruim na boca.


Penso que Suzy não sofre de solidão. Pra mim ela sofre de abandono. Mano Brown já havia nos alertados em Diário de um Detendo que “Nada deixa um homem mais doente, do que o abandono dos parentes”. O abandono é triste pois não foi uma escolha sua estar só, foi uma imposição, uma condenação. Isso me faz pensar que a solidão é um presente que você não gosta de ganhar dos outros, mas que você compra para você mesmo. Viver só deve ser algo consciente. O que eu quero dizer com isso: você precisa querer estar sozinho, pois só você sabe quando você estará ponto para isso.


Por outro lado, se você parar para pensar, nós somos sozinhos o tempo inteiro. Veja, ninguém sente o que você sente, ninguém vê como você vê, ninguém pensa como você pensa. Em algum momento do dia, você se dará conta de que está sozinho ou sozinha. Algumas pessoas temem tanto isso que ao primeiro sinal de solidão sacam o celular do bolso e se conectam com o mundo. Não as culpo, pois nunca fomos ensinados sobre a solidão. Para o senso comum, ser só é ser triste.


Triste mesmo é você não saber se as suas escolhas, pensamentos, visão de mundo são de fatos seus ou se são do grupo que você faz parte.


Você quer ser quem você é ou quem você quer ser?


Sugiro que fique sozinho para pensar sobre isso.



Conhecimento é Conquista

-FS

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© 2020 por FELIPE SCHADT.

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