• Felipe Schadt

A morte te ajuda a viver melhor


Ruan Sanchez Villa-Lobos Ramirez (Sean Connery) ensinando Connor MacLeod (Christopher Lambert) que ambos eram imortais e só morreriam se perdessem a cabeça (Reprodução/Highlander - O Guerreiro Imortal)

> Quem gostaria de viver para sempre? Essa é pergunta feita pelo mortal Freddie Mercury na trilha sonora do filme do herói imortal Connor MacLeod. Uma pergunta atraente e, a primeira vista, de resposta rápida. Mas se você já respondeu essa questão, sugiro esperar um pouco e refletir comigo sobre alguns aspectos, pois como em Highlander, viver pela eternidade está mais para uma maldição do que para uma dádiva.


A morte, para a filosofia, pode ser entendida sob duas óticas. Ou a morte representa o término ou a morte representa uma transição. Ficaremos com o primeiro entendimento e explico o porquê. Entender a morte como uma passagem envolve uma variável muito importante, a fé. A fé de que haverá algo além do que já existe. Como cada um tem a sua própria crença e não estou aqui para privilegiar uma em detrimento da outra, vamos nos atentar ao entendimento de que a morte seja mesmo o fim. E bom… eu só saberei o quanto estou errado quando eu morrer.


A morte sendo a interrupção da vida dá a nossa existência uma característica de raridade. Veja, se sabemos que o sorvete vai acabar e será a última vez que o tomamos, ele passa a ter um valor muito maior do que se tivéssemos certeza de ter um estoque infinito da sobremesa ao nosso dispor. O que eu quero dizer é que se damos valor a nossa vida é porque sabemos que ela um dia acabará. E isso é fator determinante nas nossas escolhas.


Segundo Espinoza, famoso filósofo dos afetos, nossa existência é baseada na reflexão sobre morte. O que ele quis dizer com isso? Que vivemos pensando em velório ou na morte da bezerra? Não! O filósofo luso-holandês quis dizer que todas as nossas escolhas possuem a morte como a variável de maior valor. Ou seja, quando escolhemos algo sempre pensamos na nossa finitude.


Se você é chamado para fazer um trabalho que lhe dará muito dinheiro, mas por outro lado te tomará 70 anos da sua vida, você provavelmente declinará, pois do que adianta ter muito grana se você terá só mais vinte anos de uma caduca existência para usufruir? Ou você é convidado para fazer algo extremamente prazeroso mas que reduzirá o seu tempo de vida pela metade. Mais uma vez, você estará inclinado a não aceitar.


Estranho isso, pois existem muitas pessoas que continuam trabalhando até os 70 pelo dinheiro que não poderão gastar em vida e outras que, por causa do prazer de fumar, reduzem sua expectativa de vida quase pela metade. Será que essas pessoas não têm amor à existência ou simplesmente acreditam que a morte não é o fim de tudo?


Connor MacLeod não tinha esse tipo de preocupação. Como um imortal que era, o “delta T” da equação de sua vida simplesmente não existia. Para o herói interpretado por Christopher Lambert, Renato Russo estava absolutamente certo quando cantava que “temos todo tempo do mundo”. Imagine você acordar agora e descobrir que manterá seu corpo jovem pela eternidade e que nada interromperá sua existência. Imagine não ter pressa nenhuma para estudar, ou nunca mais ter que escolher entre um ou outro, já que você poderá fazer um e depois o outro no tempo que quiser, imagine poder assistir todos os filmes já feitos, ouvir todas as músicas já criadas e ler todos os livros já escritos. Ser imortal é fazer tudo o que quiser.


Porém, uma hora você terá feito tudo e não haverá mais nada para conhecer. Todos os livros lidos, todos os filmes vistos e todas as músicas ouvidas. Todos os lugares visitados, todas as línguas aprendidas e todos os sabores experimentados. Perfeito… Mas es depois? O nosso herói escocês do filme teve sua maior dor quando enterrou sua amada que, diferente dele, morria. E teve como maior prêmio capacidade de morrer depois de derrotar o seu inimigo (desculpe pelo spoiler).


Fato: somos os únicos animais que sabem que um dia a vida chegará ao fim. Talvez seja por isso que vivemos tentando dar sentido para ela. Além disso, tentamos imaginar que a vida não acabará aqui e que, de alguma maneira, nossa existência será eterna. Mas mais do que isso, é na eminência da morte que damos valor para a vida. Eu sei… parece clichê de filme americano, mas na verdade eu copiei a frase de Tropa de Elite II.


O que o Capitão Nascimento nos ensinou enquanto seu carro estava sendo baleado, é que saber que iremos morrer faz com que valorizamos nosso finito tempo de vida. Se a morte não existisse, nossa existência perderia a característica de raridade e, portanto, se tornaria algo trivial e tedioso. Você já deu valor para o Oxigênio? Posso apostar que não, pois ele é abundante e não falta. Bom, faça a mesma pergunta para alguém que já subiu o Everest e sofreu com o rarefeito. Já deu valor para o sol e o calor? Talvez você só faça isso no inverno ou se você mora em Londres. E com a vida? Você já foi grato? Se você tem consciência que ela vai acabar, provavelmente sim.


A imortalidade também carrega outro fator importante: a urgência da escolha. Nós, reles mortais, só precisamos escolher porque na maioria das situações não temos tempo suficiente para fazer as duas coisas. Quando você escolhe se dedicar a uma carreira em detrimento da outra, por exemplo. Ou quando escolhe ter uma casa própria ao invés de viajar, ou quando prefere casar e ter filhos do que viver sozinho.


Em uma visão existencialista, são as escolhas que fazemos que definem nossa essência. Mas para escolher entre A ou B você precisa atribuir valor. E aí que está a chave do castelo. Quando você tem que escolher entre comprar uma bicicleta ou casar, você tem que atribuir valor. Exemplo: Qual das duas coisas me fará mais feliz? Qual delas me custará menos? Qual delas me deixará com o corpo saudável? Qual delas não me trará preocupações? Essas perguntas são os valores que você procura e você já deve ter entendido que, no exemplo, ter uma bicicleta tem mais valor do que casar.


Atribuir valor para as coisas significa dar sentido para elas. No exemplo que acabei de mencionar, a bicicleta obteve um sentido. Toda vez que escolhemos atribuímos valor e toda vez que atribuímos valor damos sentido para as coisas. Pois bem… A imortalidade te isenta da escolha, ou seja, você nunca mais precisará escolher, sendo assim, nunca mais atribuirá valor a nada e consequentemente as coisas não terão mais sentindo algum, causando o triunfo do tédio. E o que é o tédio? É a mais pura inércia. Sabe aquele domingo chuvoso sem energia elétrica? Pois é… imagine você vivendo nesse domingo pela eternidade. Assim seria a vida para aqueles que não morrem.


Quem gostaria de viver para sempre?


Conhecimento é Conquista

-FS

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© 2020 por FELIPE SCHADT.

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