top of page
  • Foto do escritorFelipe Schadt

O mito jornalístico no filme Guerra Civil




> No último domingo eu fui ao cinema para assistir ao novo filme da A24 "Guerra Civil". Muitos elementos me deixaram empolgados para ver o longa nas telonas. Além da presença do talentosíssimo Wagner Moura como um dos protagonistas, o enredo do filme foi o principal motivo que despertou meu interesse: jornalismo de conflito.


Calma, não darei nenhum spoiler do filme que estreou no último dia 18 de abril. Além disso, não quero - e nem tenho habilidade para - fazer uma análise da película que só um bom cinéfilo especializado teria condições de fazer, como é o caso do meu amigo Rafael Amaral. O que quero dividir com você é meu olhar sobre o jornalismo que foi representado na história.


O filme fala sobre um grupo de jornalistas especializados em conflitos que viajam por um Estados Unidos mergulhado em uma guerra civil entre apoiadores de um presidente com ares de ditador e o restante da população que não concorda com o chefe do executivo. Muito familiar nos dias atuais, aliás. O filme, que tem até lapsos documentais, mostra, na ótica do grupo de jornalistas como o conflito se desenrola e como isso afeta cada um deles.


A personagem principal, Lee Smith (Kirsten Dunst), é uma experiente repórter fotográfica que já registrou com suas lentes dezenas de outros conflitos pelo mundo. Por conta disso, se tornou uma jornalista fria que não consegue mais se sensibilizar com os horrores de uma guerra.


Ela se torna, meio que sem querer, mentora de uma jovem fotógrafa de 23 anos, Jessie (Cailee Spaeny) que quer aprender tudo o que pode com a já consagrada jornalista. E uma das principais lições que a foca (termo utilizado para jornalistas iniciantes) recebe é de que um jornalista deve apenas registrar e deixar para que os espectadores façam juízo de valor do que foi mostrado, enaltecendo duas máximas jornalísticas: objetividade e neutralidade. O que eu considero um mito.


Lee Smith (Kirsten Dunst) e Joe (Wagner Moura) / Divulgação

Essas ideias de objetividade e neutralidade vêm de uma teoria que nós jornalistas conhecemos muito bem, a Teoria do Espelho. Basicamente ela prega que o relato jornalístico deve ser um espelho do fato, ou seja, deve refletir um acontecimento exatamente como ele se deu, tal qual um espelho reflete o que é colocado na frente dele. Essa teoria, por sua vez, nasce em um contexto positivista. O positivismo é uma corrente filosófica (que sacramentou a Sociologia como ciência) que entende que a sociedade é necessariamente objetiva, ou seja, a sociedade responderia a leis sociais tal qual a natureza responde as leis físicas. Uma sociedade que tem por base a ordem, terá o progresso como fim. Sim, é o lema da nossa bandeira que, por sinal, foi criada por positivistas republicanos em 1889.


O problema desse pensamento é que ele ignora o básico: seres humanos não são objetivos como máquinas. Pelo contrário, somos um poço de subjetividade sem fim. Uma coisa não me afeta da mesma maneira que te afeta, por exemplo. Isso porque eu tenho uma história, cultura e valores diferentes do seu. A sociedade é composta por um bando de seres humanos que enxergam de maneiras particulares o mundo. Zero objetividade.


E o jornalismo é - pasme - uma prática completamente humana, portanto, completamente subjetiva. Achar que um jornalista não se envolve com a notícia é uma falácia. Quando falamos em jornalismo de guerra, essa falácia fica cada vez maior.


Na história do jornalismo de conflito, consideramos um dos primeiros repórteres profissionais de guerra o irlandês William Howard Russell, que escrevia para o jornal londrino The Times que cobriu as Campanhas Napoleônicas (1803-1815) na Espanha (o que inclui a Guerra de Independência Espanhola) e na Alemanha. E duas das principais características de sua cobertura eram os relatos detalhados e altamente críticos. 


A parcialidade em seus textos ficava evidente a quem lia, pois Russell fazia questão de denunciar os horrores da guerra e a falta de assistência médica aos soldados. Sua função, portanto, não era apenas registrar, como a personagem de Kirsten Dunst prega como função do jornalista de guerra.


Desumanizar o jornalismo é algo que julgo como perigoso, pois nossa função como repórteres é dar ao espectador olhares originais e inéditos sobre os fatos, é ser os olhos e ouvidos de quem não pode estar in loco e oferecer condições para que se possa compreender o ocorrido dentro de um contexto e de uma história. Sem isso, o fato fica solto e passível a ser interpretado de maneiras erradas. A pós-verdade tá aí para não me deixar mentir: cada um escolhe a verdade que lhe convém.


Só um humano treinado tem a sensibilidade de saber para o que olhar, como olhar e, mais ainda, como relatar o que foi visto. Esse é o trabalho do jornalista. Um trabalho 100% humano, subjetivo e cheio de envolvimento. E esse jornalista é justamente o apresentado por outro personagem da trama, o Joe (Wagner Moura), que se banha na própria humanidade e que não tem nenhuma vergonha disso.


Ah... e se você quer minha opinião sobre o filme. Bom, eu gostei muito, afinal, me gerou essa reflexão que dividi com você.


Conhecimento é conquista.

-FS



21 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Comments


bottom of page