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Ilustrações de Jeckson Fernandes

A Novíssima República

Capítulo 9

"Entrada permitida"

*Esta é um obra de ficção e qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência*

Judy estacionou a sua moto na rua atrás da casa onde Marcelo morava, dali conseguia ver a janela do quarto dele. Tirou o capacete e o deixou preso em cima do guidão. Contornou a esquina a pé e ao chegar na frente da casa do amigo a viu totalmente escura e silenciosa. Exatamente como todas as outras casas da rua, afinal eram quase 3 horas da manhã. Mesmo sendo ano novo, aquele horário já era realmente muito tarde, até para a maior cidade do país. As pessoas já tinham se acostumado a negar a vida noturna graças a uma época em que o toque de recolher era comum. Fazia muito tempo desde a última obrigação em ficar em casa depois da meia noite, mas a cultura de não ficar exposto na rua nesse horário já fazia parte do cotidiano dos brasileiros. Judy sabia que todos aquelas casas estavam silenciosas pois seus moradores estavam dormindo. Mas ela não tinha certeza se na casa de Marcelo a realidade era a mesma.

Foi até o portão e do lado direito dele, um interfone com um teclado numérico e um leitor biométrico impedia qualquer pessoa de entrar na casa sem o consentimento dos donos. Casas mais ricas tinham leitores de retina, casas mais pobres contavam ainda com o velho e bom cadeado. Independente disso, as casas de São Paulo eram relativamente seguras. De canto de olho, viu que a câmera de segurança da residência a observava. Aquilo a fazia lembrar das tantas vezes que invadiu aquela casa para ver Marcelo. Muito mais decidida do que seu amigo, sempre que tinha vontade ia visitá-lo na calada da noite. Marcelo gostava dos encontros noturnos e para facilitar o acesso de sua visitante, cadastrou a digital dela no controle de acesso sem que seus pais soubessem. Judy colocou o dedão no leitor e a mensagem de Entrada permitida surgiu na cor verde. Na sequência, um pequeno estalo fez o portão se abrir.

Os dois se conheciam desde pequenos. Eram amigos de escola mas pertenciam a grupos diferentes. Marcelo era o típico garoto introvertido que não chamava atenção de ninguém. Judy, por sua vez, era uma das garotas mais populares da escola devido sua capacidade de arrumar confusão. Uma vez, ela foi parar na diretoria por causa de uma barata que ela havia colocado no estojo de uma menina e, na sala da diretora, conheceu Marcelo, na época, membro do conselho estudantil. O castigo de Judy foi trabalhar por duas semanas no conselho ajudando Marcelo com a manutenção da sala de informática.

- Judy, você trabalhará com o Marcelo. E nem tente nenhuma gracinha, pois ele fará um relatório do seu trabalho para mim. Se você sair da linha, eu saberei. - Advertiu a diretora.

- E se eu sair da linha? - Judy tentou ser desafiadora.

- Você será expulsa!

Aquilo deu um nó na garganta de Judy. Já tinha sido expulsa uma vez de outra escola e não queria passar por tudo aquilo de novo. Olhou para Marcelo e viu que o garoto estava assustado.

- É… o trabalho nem é tão chato assim. - Marcelo tentou ser gentil ao ver que estavam sozinhos.

- Não me parece muito animador.

- A gente só precisa fazer o backup das máquinas e salvar tudo nos chips USBs.

- Ainda não estou convencida que vai ser divertido.

- Teremos acesso a todos os documentos da escola, inclusive relatórios dos professores. - Agora Marcelo mostrou uma certa malícia. - Quer saber o que cada professor fala de cada aluno?

Judy sorriu e percebeu que aquele menino assustado também era legal. Ficaram próximos o bastante para a amizade durar depois daquela semana de castigo. Os dois passaram a andar juntos e a se ajudarem em determinadas questões. Judy ensinou ele a ser mais descolado, Marcelo ajudou ela a ser mais comportada. Isso fazia deles uma dupla e tanto. Foi um pulo para que os dois fizessem daquela amizade algo mais colorido. Judy era uma adolescente precoce e seu corpo havia se formado muito rápido. Seu corpo e sua vontade de se relacionar com garotos. Um dia depois da aula, os dois ficaram na sala de química fazendo o inventário para a aquisição de novos materiais e ela percebeu que Marcelo não tirava os olhos de seus seios. Ela não o culpava, pois o uniforme escolar era transparente o bastante para ele ver o volume dentro do seu sutiã.

- Você já viu um par de peitos ao vivo, Marcelo?

Marcelo corou como um carvão em brasa.

- Oi?… É… O que?!

- Peitos, Marcelo. Peitos! Já viu ao vivo ou só na internet?

- Eu já vi sim… Uma vez uma prima minha deixou o biquíni cair quando tentou mergulhar na piscina. Aí deu pra ver… Mas foi bem rápido.

- E pegar? Já pegou em um?

- Nunca. - Marcelo não sabia onde se esconder de tanta vergonha.

- Não sei o que há de tão especial em peitos. - Pegou nos seus seios e os mexeu com desdém. - São até esquisitos.

Marcelo olhava para aquela cena e se sentia estranhamente excitado.

- Vou fazer esse favor pra você. Me dá a sua mão. - Judy foi até ele, pegou sua mão e a depositou sobre um dos seus seios. Marcelo estava petrificado. - Vai ficar aí parado. Pega neles, Marcelo.

Com muita timidez, Marcelo apalpava o seio de Judy de uma maneira quase que mecânica. Ela percebeu que ele estava em choque. De repente, com um súbito movimento, Judy tirou a mão dele do seu peito.

- Não se acostuma com isso! Só deixei você tocar porque somos amigos e sempre seremos assim! - Foi taxativa.

- Claro… Claro… É… Obrigado por isso. - Ainda estava morrendo de vergonha e de excitação.

- Relaxa! Um dia deixo você ver eles.

- Na amizade, presumo eu?

- Sempre, Marcelo. Sempre!

Judy não sabia, mas aquele limite que ela colocou entre os dois seria levado muito a sério por Marcelo. Um dia eles se beijaram, outro eles se tocaram e em um eles perderam a virgindade juntos, mas sempre com o estandarte da amizade que dessa vez era Marcelo quem carregava. O sexo passou a ser constante e os dois mantiveram isso até depois da escola. Mesmo em faculdades diferentes, a amizade colorida se mantinha, mas Judy queria mais. Ela já sabia que amava seu amigo e queria algo a mais do que só sexo, mas nunca teve coragem de dizer isso a ele, não sabia se por orgulho ou se por medo. Toda vez que sentia vontade de vê-lo, pegava a sua moto e ia até a sua casa na calada da noite. Assim que entrava no portão ela repetia o mesmo mantra: Marcelo, eu te amo e não quero ser só sua amiga. Mas quando o via, as palavras não saiam.

Assim que fechou o portão atrás dela, lembrou de tudo isso, inclusive do mantra que nunca teve coragem de dizer. Mas aquela noite não encontraria seu amado amigo ali. Na verdade, temia não encontrar ninguém lá dentro.

Na delegacia, Angelo Franco recebeu uma notificação no seu celular. A mensagem dizia que alguém havia aberto o portão: Entrada - Leitor biométrico ativado às 02:48. Toda vez que ele saia de casa, ativava esse recurso de segurança para saber quando sua família entrava ou saia de casa. Ninguém sabia disso e sua desculpa para si mesmo era a segurança, mas no fundo ele sabia que na verdade era o ciúmes da esposa e a tentativa de controlá-la que o fizera querer saber toda vez que o portão de sua residência era aberto ou fechado. O pai de Marcelo escondeu o celular no bolso e olhou nervoso para sua mulher, que ainda tentava contactar seu filho pelo telefone. Marcelo voltou pra casa… pensou. Se levantou da cadeira e se dirigiu até a porta.

- Onde você vai, Angelo? - Quis saber Jane.

- Vou ao banheiro.

- Você pode me trazer um café na volta? - Jane olhava pra ele com certa ternura.

- Claro.

Angelo saiu, mas não foi no banheiro. Ele na verdade foi procurar pelo delegado Vimo Magalhães.

Judy tinha acabado de entrar na sala. Ela destrancou a porta com a chave reserva que a família Franco escondia no vaso de samambaia, à direita da porta. Abriu, devolveu a chave para a planta e trancou a porta por dentro. Na casa, o silêncio e a escuridão. Resolveu não acender nenhuma luz e caminhar até o andar de cima do sobrado para verificar os quartos. Sorrateiramente, como sempre fazia nas noites em que ia transar com Marcelo, subiu as escadas e chegou até o corredor que dava acesso aos quartos. No começo do corredor, logo após o fim da escada estava o quarto do seu amigo, no meio, um quarto de hospedes e no final do corredor o quarto de Angelo e Jane Franco.

Mesmo sabendo que as chances de haver alguém ali eram muito poucas, resolveu continuar em silêncio até confirmar sua tese de que os pais de Marcelo não estavam em casa. Caminhou até o corredor e ao encontrar a porta, colocou uma das orelhas nela para tentar escutar algo. Silêncio. Tocou na maçaneta e, com todo cuidado, empurrou ela para baixo. Estranhamente seu coração estava acelerado, mas não sabia se estava com medo de ver alguém ali ou de não ver. Assim que a porta estava livre para ser aberta, um barulho continuo de vibrações quase a fez gritar. Era seu celular com um número não identificado. É o Marcelo. Ela terminou de abrir a porta e viu que não havia ninguém no quarto. Pegou o celular e atendeu.

- Marcelo?

- Oi Judy, sou eu. Você conseguiu chegar em casa?

- Acabei de entrar e seus pais não estão aqui. - Conseguiu perceber a tensão do outro lado da linha. - Você acha que a polícia levou eles?

- Só pode ter sido… Obrigado, Judy. Você foi de grande ajuda. - A voz de Marcelo era triste.

Judy queria confortar o amigo. Mais, ela queria dizer a ele o quanto o amava. Não é o momento… ele está no meio de uma crise e seus pais estão em apuros. Foi a conclusão que chegou. Já tinha esperado o suficiente, poderia esperar tudo isso acabar para dizer o que sentia.

- Onde você está, Marcelo? Eu não aguento mais essa angústia!

- Estou tentando resolver todo esse problema.

- Que problema é esse? O que está acontecendo?

- Eu não posso contar nada agora, Judy. Mas prometo que farei isso assim que eu puder. Volto a entrar em contato. Mas fique tranquila eu estou bem e você também ficará. Vá pra casa.

- Eu só vou ficar bem quando você me disser o que está acontecendo.

- Desculpa te envolver nisso tudo. Me perdoa. Preciso desligar.

O telefone ficou mudo. Judy se sentia muito impotente sem saber o que de fato estava acontecendo. Deu as costas para o quarto dos pais de Marcelo e olhou para o quarto dele do outro lado do corredor. Resolveu entrar lá. Viu a cama e todas as coisas de Marcelo na sua escrivaninha sempre lotada de cadernos e anotações. Sentiu saudades daquele ambiente. Fazia alguma tempo que os dois não se relacionavam e percebia que cada vez mais ela se distanciava dela. Deitou na cama onde por dezenas de vezes os dois se engalfinharam nus em silêncio. Quis chorar mas a única coisa que conseguiu foi abraçar o travesseiro e se acomodar no cheiro dele. Ela se afogou nas lembranças e na esperança de poder viver ao lado dele. Em minutos, adormeceu.

Jane já estava preocupada com o marido que não voltava do banheiro. Não sabia se poderia deixar a sala e ir procurá-lo, achou por bem ficar e esperar. Já tinha desistido de ligar para seu filho e a preocupação com ele só aumentava. Olhou para o relógio de parede. Ele marcava 3 horas e 4 minutos. Fazia mais de dez minutos que Angelo havia saído da sala. Ele está demorando muito… Relutante, mas preocupada, se levantou do sofá e foi no sentido da porta quando ela abriu num súbito. Era seu marido com um copo de café na mão.

- Nossa! Por que demorou tanto? - Quis saber Jane.

- Você não tem ideia de como é difícil arrumar um café por aqui. - Explicou Angelo. - Conseguiu alguma coisa?

- Eu desisti. O Marcelo não vai atender. Acho até que ele nem está com o celular dele.

- Tenho certeza que logo acharão ele.

- Tomara que sim. - Disse e abraçou o marido. - Só espero que não façam mal nenhum para ele.

Angelo ficou mudo.

O delegado Vimo Magalhães acabara de contar a novidade para o Governador que rapidamente foi contar a boa notícia para o presidente. Mesmo assim, Privius ficou espantado com a devoção de Angelo para com a República. Assim que saiu da sala no qual falava por telefone com Guto Boaventura, o governador encontrou o delegado.

- O cara realmente entregou o próprio filho! Ele tem noção de que o rapaz não vai ter chance nenhuma?

- Eu espero que não. Porque se ele soubesse para onde o filho dele vai depois de ser preso e mesmo assim o entregasse, esse Angelo seria um grande filho da puta.

- Ele não vai ser preso, Vimo.

- Como assim não vai ser preso?

- O presidente tem outros planos para ele. - Vimo já previa o pior. - Antes de você me contar que o pai do cara havia recebido aquela notificação de segurança, eu estava com o presidente no telefone. Ele quer que montemos dentro do quarto do Marcelo uma espécie de estúdio de gravações. O presidente acha que podemos fazer todos acreditarem que o vídeo que rolou da Avenida Paulista com o repórter em Paris foi feito no quarto do Marcelo com alguns equipamentos de filmagem e um tecido verde de Chroma Key.

- Então todos irão acreditar que o vídeo é uma montagem…

- Exatamente, delegado! Mas com a notícia de que ele e o outro sujeito estão na casa, o presidente quer dar um tom de dramaticidade a essa história. - Privius ficou extremamente sério. - O presidente quer ambos mortos!

Vimo não ficou feliz com aquilo.

- E o que vão contar para as pessoas? Que eles se mataram? - O delegado não conseguia esconder a raiva dessa conduta imoral por parte da presidência.

- Quase, delegado. Vamos dar uma morte digna Marcelo. Faremos as pessoas acreditarem que o outro sujeito o matou depois de um desentendimento e que ele foi coagido a gravar o vídeo do repórter em Paris. A imagem do rapaz e de sua família não será tão manchada. Acho que o presidente quer recompensar o pai do Marcelo pela delação com o mínimo de honra.

- E o outro?

- O outro vai receber toda a culpa e vai ser morto após confronto com a polícia. - Disse a frase fazendo o sinal de aspas com as mãos. - Chame dois de seus homens para fazer isso. Mas eu quero explicar pessoalmente como eles devem agir. Essa operação não pode ter erro. Por enquanto, mande uma viatura para monitorar a casa. Qualquer movimento naquela rua eu quero ser informado.

O delegado sabia que os homens certos para fazerem isso estavam chegando na delegacia, mas não podia esperar. Chamou outros dois policiais de sua confiança para ouvir as orientações do governador. Mesmo de total desacordo, Vimo seguia ordens e não costumava falhar. Para monitorar a rua, mandou a guarnição mais próxima e que chegaria no local em menos de três minutos. Entrou na sala para acompanhar o que Privius falava para os policiais.

- O presidente quer que vocês resolvam isso de uma maneira rápida. Assim que vocês liberarem a casa, nós entraremos lá para montar o cenário da história que contaremos. Não pode haver falhas. Não deixem sobreviventes!

Os policiais bateram continência e saíram da sala rumo à missão. Vimo olhou para Privius e indagou o governador:

- E qual história contaremos para os pais?

- Faça-os cooperar conosco, Vimo.

- Eles não vão concordar com a nossa história depois de termos matado o filho deles.

- Você sabe quais métodos usar para convencer pessoas. Confio no seu potencial.

O delegado olhou para o governador sem esconder o ódio que sentia por ouvir aquela ordem.

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