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Um Web-LIvro de Felipe Schadt

Ilustrações de Jeckson Fernandes

A Novíssima República

Capítulo 5

"Caça às bruxas"

*Esta é um obra de ficção e qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência*

     Você percebe a desonestidade, o desespero e a falta de escrúpulos quando se depara com o ato terrorista que aconteceu há agora pouco na Avenida Paulista. "Nossa, Nico... Terrorista?" TERRORISTA SIM! Afirmo com todas as letras! Você que está me assistindo agora aí pelo seu tablet, confortável aí na sua casa depois de comemorar o Réveillon com a família e os amigos, não deve estar mensurando a canalhice que foi aquele vídeo divulgado clandestinamente durante o discurso do grande Jeremias Boaventura.. Que Deus o tenha. Eu quero analisar o que está acontecendo e dividir isso com vocês. Já dá uma estrela pra esse vídeo aqui e compartilha pra todo mundo que você puder... Porque eles querem destruir tudo de bom que esse governo nos deu com uma montagem mequetrefe e sem nenhum sentido. Eu mesmo vi o vídeo do repórter em Paris umas vinte vezes, sei lá. E constatei que ele é uma montagem muito mal feita. Acreditar nele é um atestado de burrice sem tamanho. É um atestado de que você é um esquerdista jumento e imbecil que acredita em qualquer coisa para ser o do contra. Esses resquícios de comunistas querem confundir você. Querem colocar dúvidas na sua cabeça. E só quem tem cabeça fraca vai cair nessa! Puta que pariu... Eu fico inconformado como tem gente desonesta nesse país. Depois de tudo que os Boaventura fizeram por essa nação, tem filho da puta aí que quer colocar você contra o governo. Por isso o vídeo clandestino na Paulista foi sim um atentado terrorista. Um atentado terrorista contra a pátria, contra o povo, contra a tradição, contra a verdade. Então vai aqui uma dica minha: pare de compartilhar essa merda de vídeo porque é isso que esses canalhas comunistas que se escondem como ratos querem de você. Querem que você ajude no planinho deles de tentar desmentir cem anos de história. Vai compactuar com isso, cidadão? Eu acho que não! Vamos mostrar para essa corja que nossa cabeça já está formada com a verdade e que não tem espaço para tentativas espúrias como essa de derrubar o governo. É ou não é verdade isso o que eu digo? Feliz centenário pra todos que concordam comigo. Se você não concorda, deve ser um rato comunista. Se for, eu quero mais é que você se foda! Nico Mendes falando. Câmbio e desligo.

...

     Em uma das salas de reunião do Palácio do Planalto, Guto Boaventura relia, sozinho, seu discurso de posse. Não parecia satisfeito com as mudanças que seus assessores haviam feito. Depois da crise da Paulista, como estavam chamando o fracassado Réveillon paulista, seu discurso parecia uma colcha de retalhos com tentativas de explicações sobre o vídeo do repórter em Paris que abalava o governo. Era pouco mais de uma hora da manhã. Em 14 horas, iria desfilar de carro aberto pelas ruas de Brasília e falar para toda uma nação. O problema era justamente esse. Ele não sabia o que falaria. Um de seus assessores entrou na sala com um tablet na mão.

- Senhor Presidente, tenho notícias sobre o Nico Mendes.

- Ele já postou o vídeo dele?

- Já, senhor.

- E como estão os números?

- O vídeo está no ar há 15 minutos e já temos mais de dois milhões de visualizações.

Com um sorriso satisfeito, Guto deixou o seu discurso repousar na mesa e suspirou aliviado. Nico Mendes era um vlogger muito influente, principalmente entre os jovens. Dono dos vídeos mais populares do Onisciente, ele tinha um poder de influência muito grande e por isso era peça fundamental do governo para divulgar algumas medidas menos populares soarem mais agradáveis à população através dos vídeos dele. A receita de Nico era simples: enaltecer o boaventurismo e acusar de mal agradecido e traidor quem não fizesse o mesmo. E ele fazia tudo isso ser natural. Talvez porque fosse mesmo, pois o vlogger acreditava cegamente nas decisões governamentais. Essa verdade que ele passava era o que lhe garantia uma legião de seguidores.

A ideia de pedir para ele fazer um vídeo denunciando o vídeo do repórter em Paris foi ideia do próprio Guto. Liguem agora para o Nico Mendes e peçam para ele fazer a mágica dele. Peçam para ele fazer as pessoas pararem de compartilhar o maldito vídeo da Paulista. Felizmente, Nico já estava inconformado com o caso e não foi nem um pouco difícil convencê-lo a postar um vídeo em seu canal.

- Bons números. De manhã o vídeo do Nico já passará dos dez milhões de acessos e até a hora da posse ninguém mais falará sobre o assunto. - Disse Guto ao seu assessor.

- Senhor... É melhor o senhor ver isso. - Esticou o tablet para o Presidente.

- O que aconteceu? As visualizações estão aumentando muito... Isso é ótimo! - Comemorava.

- Eu sei, senhor. Mas não é isso. - O assessor parecia assustado. - Os vídeos do Nico tem uma média de nove estrelas para cada dez visualizações... E nesse vídeo, com quase três milhões de acessos, ele não recebeu mais do que cinco mil estrelas.

- O que isso quer dizer? - Perguntou com medo da resposta.

- As pessoas estão assistindo, mas não estão aprovando o que ele está dizendo.

...

- Fique calmo e não grite. Vou soltar a sua boca devagar e não vou te machucar. Você me entendeu? - Dizia uma voz na orelha de Marcelo que, ofegante, fez sinal de sim com a cabeça.

Como prometido, a mão deixou a boca de Marcelo livre, mas ele continuava atônito. Segurando o braço que prendia seu pescoço, ficou parado como uma presa que está prestes a ser devorada pelo seu predador e não há nada a fazer. Aos poucos, a pressão do braço sobre seu pescoço foi diminuindo até o ponto que Marcelo estava completamente livre. Ele se virou para saber quem era que o atacara.

Vestindo uma camiseta amarela da extinta Seleção Brasileira de Futebol e com o semblante cansado, o homem que havia invadido a cova, olhava fixamente para Marcelo. Mostrou as palmas das mãos e pediu desculpas esperando a enxurrada de perguntas que viria na sequência.

- Desculpa, por isso ok?

- Quem é você? Como você entrou aqui?- Perguntou enquanto massageava o pescoço.

- Me chamo Roberto e entrei pelos túneis que vão do metrô até a entrada atrás da mesa ali do fundo. Fui aluno do Claudio antes de você. Faço parte de um movimento anti boaventurista que tenta provar que o Onisciente é um sistema que controla todas as informações, criando histórias e omitindo outras para manter os Boaventura no poder. Sabe o vídeo do repórter em Paris que rolou hoje no meio do discurso do Jeremias? - Marcelo acenou com a cabeça respondendo que sim. - Fui eu quem colocou lá.

- O vídeo do meu tataravô...

- Exatamente. Assim que o Jeremias venceu as eleições, uma forte onda contrária de jornalistas, historiadores e demais intelectuais começou a atacá-lo e pressioná-lo. Sem saber como fugir das críticas e com a popularidade muito baixa, os dias dele como presidente estavam contados. Mas aí veio a suposta crise hídrica na Europa e a suposta invasão dos venezuelanos na Amazônia, culminando na Terceira Guerra Mundial. A questão é que o mesmo grupo que era contra o Boaventura não acreditou nessa história e começou a investigar. Seu tataravô foi um deles. O problema é que eles não conseguiram provar absolutamente nada e, como aconteceu com o seu tataravô, todos desapareceram após o fim da suposta guerra.

- E como vocês tiveram acesso a esse vídeo dele em Paris?

- Esse vídeo foi um achado do Claudio. Ele conseguiu encontrá-lo em um arquivo morto da antiga Universidade de São Paulo. Segundo ele, o cartão de memória com o vídeo estava dentro de um dos livros que o orientador dele havia resgatado. O professor Leônidas Soares conservou todos os livros que pôde e os guardou aqui. Na época, o Claudio ajudou ele com isso e, naturalmente, herdou a biblioteca. Quase que sem querer, ele achou o cartão de memória. Estava dentro de um livro chamado... Acho que ele ainda está aqui. - Foi até uma prateleira e começou a passar o dedo indicador nas lombadas dos livros. - Achei. Esse aqui!

- View Finder? - Marcelo fez uma cara de estranheza quando viu o livro.

- É... Eu também não conheço. Mas há algo de interessante nele. Veja a assinatura na contra capa. - Roberto mostrou o rabisco no papel envelhecido.

- Benjamin Franco. Esse livro era do...

- Seu bisavô. Filho do Sebastião, seu tataravô. - Marcelo estava maravilhado com aquilo. Seu bisavô era pouco mencionado na família. O que sabia é que ele foi um aluno da USP mas tinha largado a vida acadêmica para poder cuidar dos filhos. Entrou em uma metalúrgica e trabalhou lá até o fim da vida.

- Isso é fantástico. - Disse Marcelo se culpando por não ter descoberto esse livro antes.

- Pois é. O cartão de memória estava aqui dentro. Quando Claudio descobriu o vídeo, ele passou a arquitetar o plano de divulgação com o resto de nós.

- Resto de nós?

- Sim, há outros que também querem derrubar o governo. Mas por motivo de segurança, não posso dizer onde eles estão e nem quem são. O fato é que Claudio sabia que não poderíamos soltar o vídeo aleatoriamente na internet. Primeiro que o vídeo seria rapidamente anulado pelo Onisciente. Segundo que ele precisava ser divulgado em um momento estratégico o bastante para ferir o governo e deixá-lo desnorteado. Foi então que anunciaram o Réveillon na Paulista com o discurso em realidade virtual do Jeremias. O momento perfeito. O Brasil inteiro estaria olhando para esse discurso e, portanto, iria assistir o vídeo. Conseguimos fazer exatamente o que queríamos. Plantamos uma dúvida na cabeça de muita gente.

- Tá... mas e agora?

- É aí que você entra na história, Marcelo.

...

No jatinho que acabara de decolar do Galeão, Lisa, o capitão Carvalho e mais dois oficiais do exército seguiam viagem rumo a São Paulo. Lisa pediu explicações e o capitão explicou o que estava acontecendo para ela.

- O suspeito deixou o chipe USB no computador. Acreditamos que esse chip contenha informações importantes capazes de rastrearmos as pessoas por trás da montagem.

- Mas o vídeo é uma montagem? - Perguntou Lisa.

- O que mais seria?

- Oras... o vídeo pode ser verdadeiro.

- Não fale besteiras, menina! - Menina? Aquilo irritou Lisa profundamente. - Isso é obviamente uma montagem para tentar desmoralizar o governo. E seu trabalho é nos ajudar a rastrear as pessoas que estão por trás dessa farsa.

- E sobre o suspeito? Já o pegaram? Seria mais fácil...

- Já identificamos e estamos atrás dele. - O capitão puxou seu celular e mostrou a imagem de um homem com a camisa amarela perto do palco principal.

- Como conseguiram identificar o rapaz?

- Ele tentou enganar uma mulher dizendo para ela que a colocaria no camarote. Deu para ela credenciais falsas. O que ele não contava, é que a mulher em questão havia tirado uma série de fotos dele antes do ocorrido. Segundo ela, o rapaz era bonito o suficiente para ela mostrar para suas amigas quem era o cara que supostamente ajudaria a subir no camarote.

- Ela não sabe o nome dele?

- Disse que não. Mas contou tudo para nós em troca de sua liberação. Ela havia sido presa por um dos seguranças por causar um tumulto por causa da credencial falsa. Disse que o responsável era esse sujeito da foto. Conseguimos rastreia-lo com as câmeras do metrô, mas segundo as últimas notícias, ele desapareceu na estação do Anhangabaú. Por isso seu trabalho é importante e por isso que precisamos ir para o local do atentado.

Lisa estava convencida de que ela estava no meio de uma crise de Estado. Não se falava em outra coisa a não ser sobre o que acontecera. Pessoas começavam a criar teorias, outras condenavam o vídeo acusando-o de fraude, alguns faziam piada, mas todo mundo só falava nisso. Ela mesmo não tirava o vídeo da cabeça e não parava de pensar sobre a veracidade do vídeo. Se esse vídeo for verdade? Será mesmo que a Terceira Guerra jamais aconteceu? Lisa se lembrou que desde o anúncio da Guerra, os voos internacionais foram cancelados. E de lá pra cá, nenhum brasileiro conseguiu sair do país, por causa dos problemas diplomáticos. Lisa começava a embarcar na sua própria teoria da conspiração sobre o caso. Mesmo assim, tinha um trabalho a fazer. Não é possível que cem anos de história sejam derrubados por causa de um vídeo. Ou é?

...

- Espera! - Fez sinal com a mão para que Roberto parasse de falar. - Você está dizendo que meu tataravô deixou um rastro de informações que podem comprovar que vivemos em uma mentira?

- Exatamente.

- E que meu avô era o guardião dessas informações.

- Isso!

- Como ele nunca me falou antes?

- Ele tentou, Marcelo. Mas seu pai não deixou.

- Como assim?

- Seu pai nunca acreditou nas teorias do seu avô sobre essas informações. Seu avô, portanto, não confiava essas informações para seu pai. Ele até tentou contar com você, mas você deve se lembrar de como seu pai não gostava de ter seu avô por perto.

- Como você sabe de tudo isso?

- Seu avô nos contou. Ele era um dos líderes do nosso grupo. Ele percebeu que teria pouco acesso a você e por isso pediu, antes de morrer, para o Claudio ser seu mentor.

- Você está me dizendo que o Claudio só me escolheu como seu orientando por causa disso?

- E você queria mais? Tudo isso está girando em torno de você, e a sua formação era importante. Já que seu avô não poderia cuidar de você, Claudio se incumbiu disso.

- E porque ele nunca contou nada? - Estava atônito.

- Era importante que você não soubesse até a hora certa, pois se você fosse pego, seria o fim de todo o plano.

Marcelo encostou na parede e precisou parar para respirar. Tudo fazia sentido. As história do avô, a superproteção do pai, as orientações de Claudio, a cova, Daniel... Daniel! Rapidamente lembrou do vigilante noturno que estava conversando com policiais. Olhou para Roberto.

- Daniel ainda está lá em cima com a polícia.

- Vamos ver. - Ver? Como?

- Não podemos sair daqui. - Disse Marcelo tentando entender o que Roberto estava fazendo indo até a mesa de estudos no fundo da biblioteca.

- Não iremos até lá. Mas veremos mesmo assim.

Dentro de uma das gavetas, Roberto acessou um fundo falso e tirou de lá um pequeno monitor. Ligou-o na tomada e a tela brilhou. Atrás dele, Roberto conectou um cabo similar a um de rede que saía da parede. Após alguns segundos, uma série de botões acenderam na tela touchscreen e Roberto digitou um código de quatro números. Assim que a tela foi desbloqueada, o monitor mostrava números de 1 a 35 e, em cada número, um botão com a letra A e outro com a letra B. Eram todas as câmeras do circuito interno de segurança da agência dos correios onde estavam. Marcelo não sabia nem o que pensar a não ser sentir raiva de nunca ser informado daquilo.

- Que foi? O Daniel nunca te contou disso? - Marcelo fez não com a cabeça sem disfarçar o incômodo de não saber. Roberto explicou para ele que aquele cabo escondido na parede ligava o circuito de monitoramento direto naquele monitor que poderia controlar todas as câmeras e armazenar alguns minutos de filmagem. - Você está vendo esses números? São todas as câmeras das agências. A letra A dá acesso à câmera padrão, já a letra B da acesso a uma câmera no mesmo recinto que a câmera padrão está filmando.

- Como se fosse uma câmera reserva?

- Exatamente!

Marcelo se aproximou e eles começaram a olhar para as câmeras padrão. Primeiro foi a do hall de entrada. Vazio. Mas Marcelo pôde perceber uma variação de luzes por debaixo da porta principal. Eram as luzes das sirenes dos carros da polícia. A polícia ainda está aí. Foram vasculhando câmera por câmera até chegar na câmera 13. Ela não estava funcionando. Está quebrada.

- Da onde é essa câmera? - Quis saber Marcelo.

- É a da cozinha. E a única de lá.

- Você acha que o Daniel está lá?

- Vamos ver.

Roberto clicou no botão B do lado do número 13. Imediatamente a imagem de dois policiais apareceram. Um deles segurando um pedaço de madeira com sangue!? A imagem vinha de cima, de um canto da cozinha, de uma câmera escondida em um pinguim de geladeira. Eles conseguiram ver que a câmera padrão da cozinha estava desconectada dos cabos na parede. Roberto e Marcelo conseguiram ver que Daniel estava sentado em uma cadeira, no canto direito da cozinha, ao lado do fogão. Ele estava amarrado enquanto dois policiais estavam de pé a sua frente, de costas para a geladeira. Um dos policiais chegou mais perto do rosto do vigia noturno e com o pedaço de pau, o acertou em cheio.

- Ele está sendo torturado! - Disse Marcelo desesperado. - A gente precisa ir lá ajudar ele. - Roberto segurou o braço de Marcelo e tentou ser calmo.

- Não podemos ser pegos...

Voltaram para o monitor e viram um dos policiais com uma panela na mão. Dela, saia uma fumaça. Marcelo percebeu rápido o que iria acontecer mas não deu tempo de fechar os olhos. O policial jogou a água fervente em cima de Daniel que se contorcia. Durou alguns segundo até que Daniel havia parado de se mexer. Marcelo entrou em pânico.

...

Na cozinha da agência dos correios, destinada para os funcionários fazerem suas horas de almoço, os dois policiais observavam o corpo do vigia noturno setado em uma cadeira, com as mão amarradas e com o rosto desfigurado pelas pancadas e pelas queimaduras. Um dos policiais pegou o celular e teclou alguns números.

- Sargento. O galo não abriu o bico. Cozinhamos ele. - Silêncio enquanto o outro lado da linha dizia algo. - Fica tranquilo, Sargento. A gente diz que chegamos com ele assim e botamos a culpa no terrorista. - Mais um momento de silêncio enquanto o Sargento falava. - Vamos encontrá-lo. Tenho certeza de que ele está escondido aqui.

© 2020 por FELIPE SCHADT.

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