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Um Web-LIvro de Felipe Schadt

Ilustrações de Jeckson Fernandes

A Novíssima República

Capítulo 4

"Desconectados"

*Esta é um obra de ficção e qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência*

     Os fogos de artifício de Copacabana sempre a deixavam meio emocionada. Já era o nono ano consecutivo que passava o Réveillon na praia mais famosa do Rio de Janeiro. Mesmo imprópria para o banho há anos, as areias daquele lugar sempre estavam cheias de boemia e animação. Mas ela só a visitava no último dia de dezembro para ver os fogos. Eles faziam ela se lembrar do jeito que Alberto, seu último namorado, ficava feliz nessa época do ano. Promete pra mim que um dia a gente vai ver os fogos em Copacabana? Ele sempre dizia. Claro que eu prometo! Era a resposta dela. Mas agora ele não estava mais ali e não passava de uma doce lembrança na sua vida. Ela sentia muita falta do homem que adorava irritá-la com questões filosóficas, mas ao invés de pensar na ausência, preferia lembrar de como ele era alegre e de como sonhava com aquele lugar. Estou aqui por você e vou festejar por você, disse enquanto segurava sua correntinha com uma coruja dourada adornada com um pequeno cristal.

 

     Lisa Orsi era uma jovem de pouco mais de 28 anos que possuía uma inteligência ímpar. Destaque na escola, sempre orgulhava os pais com as melhores notas. Uma vez foi desafiada pela mãe a fazer o vestibular da Universidade Central de Brasília com apenas 14 anos. Ela não só passou na primeira fase, como chamou atenção da mídia da época que a transformou num prodígio nacional. Mas ela não quis abandonar o ensino médio, pois gostava da companhia de suas amigas. Ninguém se importou, pois o próprio presidente da república na época, Henrique Boaventura, havia concedido uma bolsa integral para ela utilizar assim que saísse da escola. Escolheu estudar Ciências da Informação e emendou um curso de especialização em Cibernética e Informática aplicada onde desenvolveu um vírus de computador extremamente potente e capaz de invadir qualquer sistema de segurança que estivesse conectado a uma fonte de internet. Era como um aríete derrubando uma porta de isopor. Brincavam os amigos de sala. Mas o diferencial do seu vírus era que junto com a invasão, ele armazenava qualquer tipo de informação no sistema invadido sem nenhuma chance de remoção. Esse vírus derruba o firewall, armazena a informação desejada na origem do sistema e implanta uma bomba relógio. Se você tentar remover a mensagem, a bomba é ativada e todos os seus dados são perdidos para sempre. O Antares, como ficou conhecido, e carinhosamente apelidado de Mensageiro do Caos, chegou ao conhecimento do governo, que ficou tão impressionado com o que Lisa havia desenvolvido, que a contratou para trabalhar no setor de inteligência do Onisciente.

     Fazia apenas quatro anos que Lisa trabalhava para o governo, mas já havia alcançado muito prestígio no Distrito Federal, tendo inclusive uma linha direta com o Palácio do Planalto, para assuntos emergenciais de inteligência. Mesmo assim, ela se dava folga entre os dias 30 de dezembro e 02 de janeiro. E não era uma folga qualquer. Ela se desconectava do mundo por quatro dias. Sem celular, sem tablet, sem televisão e principalmente sem internet. Explicara uma vez para sua mãe, antes que ela se preocupasse com o sumiço da filha por quatro dias. Lisa só queria festejar, lembrar de Alberto e se desconectar do resto para se conectar consigo mesma. Religiosa moderada, acreditava tanto em Deus como nos astros. Todo ano, quando a maioria das pessoas vão embora, ela fica sentada na praia, com uma garrafa de champanhe na mão e a cabeça inclinada para o céu, esperando a constelação de escorpião aparecer no horizonte. Ela sempre acreditou que as estrelas do seu signo as protegiam. Mas nesse ano, seu ritual não seria completo.

 

     Assim que os fogos começaram a estourar no céu carioca, ela percebeu uma movimentação estranha ao seu redor. As pessoas não olhavam para cima com os rostos iluminados pela pirotecnia. As pessoas estavam olhando para baixo com seus rostos iluminados pelas telas dos seus tablets e celulares. No começo aquilo não a incomodou muito, mas os burburinhos à sua volta foram ficando maiores ao ponto de instigar a curiosidade dela. Tentou ignorar pela terceira vez, mas a cena à sua frente era muito surreal. Praticamente todas as cabeças ali estavam ignorando os fogos. Ela se lembrou da festa na Paulista e imaginou que as pessoas preferiam ver os fogos pelo celular do que ao vivo. Mas sua intuição não a deixava em paz. Ajustou o grandes óculos de acetato casca de tartaruga e madrepérola no rosto e esticou o pescoço para um casal que estava do seu lado. Eles já estavam olhando um para o outro com um ar incrédulo.

 

- Oi… Feliz ano novo! - Lisa falou meio desconcertada. - Mas o que é que está acontecendo?

- Parece que alguém sabotou o pronunciamento do Jeremias e colocou um vídeo de um cara em Paris dizendo que não houve a Terceira Guerra Mundial. - Respondeu a mulher.

- Lógico que é montagem! - Protestou o homem que estava com ela. - Isso aí é teoria da conspiração.

    

- Eu posso ver o vídeo? Eu deixei meu celular no hotel.

- Claro! - Falou a mulher entregando o tablet para Lisa.

 

     As filmagens que fizeram da Avenida Paulista e do telão com um repórter em Paris tinha uma qualidade razoável. Razoável o bastante para ela acreditar que o vídeo que interrompeu do discurso do ex-presidente não se tratava de uma montagem. Pelo menos, não de uma montagem amadora. Ela viu o vídeo pelo menos mais duas vezes até se lembrar de que o casal esperava por seu tablet de volta. Ela precisava ir para o hotel urgente e ligar seu celular. Tentativas de derrubar o governo por meio de informações falsas na internet já haviam acontecido antes e ela sabia o procedimento. Na verdade, ela chefiava a equipe que fazia esse procedimento acontecer. Entregou o aparelho para o casal e saiu correndo na direção oposta ao mar. Felizmente, seu hotel ficava a três quarteirões da praia. Decidiu correr. Segurou o vestido para ganhar mobilidade e correu.

 

Seu sexto sentido dizia que aquela noite seria muito longa.

 

 

- Judy, fica tranquila. Não sou eu! - Andando de um lado para o outro no meio do saguão da agência, Marcelo tentava se explicar para sua amiga pelo telefone. - Aquele cara ali é meu tataravô. Eu realmente me pareço muito com ele… - Ela tagarelava alguma coisa no outro lado da linha - Não faço ideia de como aquele vídeo foi parar ali. Judy… Judy, se acalma. Eu estou bem. - Ouviu o que ela dizia e olhou para Daniel.- Estou na casa de uma amigo da época do mestrado. Depois eu te ligo. Preciso desligar. Beijo. - Marcelo desligou o celular.

 

- Parece que você terá muito o que explicar. - Daniel disse solenemente.

- Não há nada o que explicar, Daniel. Como eu estaria em Paris quase cem anos atrás? Aquele cara do vídeo é meu tataravô. Ele era jornalista e é bem provável que esse vídeo seja realmente verdade.

- E é exatamente por isso que você terá muito o que explicar. - Daniel tem razão… Esse vídeo pode causar problemas pra mim e para minha família. - Se você disser que o vídeo é de fato verdade, é bem provável que eles associem a sua família a inimigos do governo. E se você disser o contrário, ou seja, que o vídeo não é verdadeiro, eles vão concluir que foi você quem atuou na montagem e vão te classificar como traidor. - Marcelo já estava em choque quando percebeu a enrascada que se encontrava.

- O que eu devo fazer?

- Você precisa se esconder.

- Posso fugir!

- Pra onde você iria? Para Paris? - Daniel foi o mais irônico possível. - Fique na cova. - Nesse momento o celular de Marcelo começa a tocar. Na tela, Mãe.

- Filho, onde você está? O que está acontecendo?

- Eu estou bem mãe. E eu não sei o que está acontecendo. Parece que acharam um vídeo do tataravô e estão usando para tentar derrubar o governo e… - Sua mãe o interrompe.

- Ligue a câmera, Marcelo. Quero saber onde você está!

- Minha câmera está com defeito, mãe. - Teve que mentir.

- Eu estou preocupada. Seu pai teve que desligar o celular, pois não paravam de chegar mensagens sobre o vídeo. - Sei bem como é.

- Eu já estou indo pra casa… - Uma interrupção.

- Marcelo… - Silêncio. - Eu preciso desligar. - Mais silêncio.

- O que aconteceu, mãe?

- A polícia acabou de chegar aqui.

- Mãe! Espera mãe! Não desliga! Mãe?! Mãe!? - O telefone estava mudo.

 

Marcelo estava desesperado. Daniel se levantou da sua cadeira atrás do balcão para tentar acalmá-lo. Não teve sucesso.

 

- Eles pegaram minha família, cara!! Eu preciso ir pra lá! - Gritava.

- E pra quê? Pra ser preso na sequência? Você precisa se esconder até pensarmos numa solução. - Marcelo estava prestes a chorar quando ouviu carros estacionando na frente da agência. Olhou com espanto para Daniel. - Seu celular… Eles já te acharam. Corre para a cova! AGORA!

 

     Marcelo saiu em disparada rumo ao caminho que levava à biblioteca secreta de seu antigo professor. Tentou não deixar rastros por onde passava e cada vez mais rápido ia até a cova. Chegando lá, sentou num canto entre uma prateleira e uma parede. Olhou para o celular, sem sinal. Não parava de pensar nos pais e no que a polícia estaria fazendo com eles agora. Lembrou das histórias que seu avô contava sobre as supostas torturas que os inimigos políticos sofriam. Temia pela sua família. Temia por Daniel que teria que lidar com os policiais por culpa dele. Nem é minha culpa. Não sou eu naquele vídeo! Um murro na parede foi tudo que ele conseguiu fazer antes das lágrimas de desespero começarem a escorrer pelo seu rosto. Precisava confiar em Daniel, que conversava com policiais no saguão.

 

- Estamos atrás de um suspeito e achamos que ele pode ter vindo para cá. - Falou o policial.

- Suspeito do que, se me permite a pergunta? - O policial ignorou a pergunta de Daniel e mostrou uma foto em um tablet.

- Você conhece esse sujeito? - A espinha de Daniel gelou.

 

 

     Assim que Lisa avistou o seu hotel, sentiu uma ponta de alívio. Chegara bem rápido e os três quarteirões não foram obstáculo para ela. Passou pelo saguão sem dizer nada, mas o recepcionista tentou pará-la.

 

- Senhorita… - Foi interrompido bruscamente.

- Estou com pressa! - Disse mostrando o cartão que servia como chave do quarto enquanto ia em direção ao elevador.

 

     No seu andar, deu mais uma pequena corrida até seu quarto e ao abrir a porta, tomou um susto com um homem fardado olhando pela janela para a vista que o hotel dava pra rua. Com um pulo para trás ela tentou protestar, mas o homem fardado foi mais rápido. Vestido impecavelmente com uma farda verde oliva e cheia de condecorações e medalhas, o homem forçou um meio sorriso e se dirigiu a ela.

 

- Senhorita Orsi, capitão Milton Carvalho. Feliz ano novo!. - Estendeu a mão para Lisa. Relutante, ela atendeu o gesto, apertando a mão dele. - Preciso que arrume as malas com urgência, a senhora precisa ir comigo até São Paulo. - Antes de qualquer reação ele continuou. - A senhora deve estar sabendo do atentado na Paulista. - Atentado? Já estão classificando assim? - Sua presença no local do crime se faz fundamental pelo artefato que encontraram em um dos computadores responsáveis pela reprodução do vídeo.

- Que artefato?

- Não há tempo para explicações agora. A senhora tem que vir comigo imediatamente.

- Olha aqui, capitão… - Olhou para o nome em sua farda. - Carvalho. Eu não vou a lugar nenhum antes de explicações. Estou de folga e minha equipe pode resolver isso em Brasília. Eu só preciso dar um telefonema. - Começou a procurar seu telefone que havia deixado no hotel.

- Se está procurando por isso… - O capitão tirou o celular dela do bolso da frente de sua farda. - É melhor você atender.

- O que você está fazendo com o meu telefone!? Quem deu ordens para você invadir meu quarto de hotel, pegar nas minhas coisas…

- O presidente. - Respondeu secamente. - O celular dela começou a tocar. Na tela apareceu os dizeres Palácio do Planalto.

 

     Em menos de dez minutos depois, ela descia o elevador com o capitão Carvalho rumo ao aeroporto do Galeão. Agora não era mais intuição. Ela tinha certeza de que seria uma noite longa. Pelo visto é mais sério do que eu pensava. Assim que entrou no carro, olhou para as pessoas se divertindo na rua e deu adeus à sua tradicional comemoração de ano novo. Se lembrou de Alberto e mentalmente pediu desculpas por não se encontrar com ele naquela noite. Onde quer que você esteja, feliz 2119! Ajustou os óculos no rosto e olhou para o celular. Mais mensagens começaram a aparecer. Estava conectada com o mundo outra vez.

 

 

     Onde está o seu filho??? É melhor você abrir a boca logo sua vagabunda! Sabe… Vou te apresentar um amigo meu. Tá vendo esse pedaço de ferro aqui? Então… Ele já aprontou cada uma… Tudo isso porque ele se irrita com muita facilidade. Toda vez que ele não escuta o que ele quer ouvir, ele ataca. E olha, dona, eu já vi ele muito bravo. Uma vez, uma mulher igual a você não quis colaborar com meu amigo. Sabe o que ele fez? Entrou dentro da vagina dela até o útero. Acredite. Não foi bom. Digo. Não foi bom pra mulher, já meu amigo aqui se divertiu bastante. E acho que ele vai querer se divertir com a senhora também. Olha pra mim e colabora… Cadê o filho da puta do seu filho???

 

     Um barulho seco fez Marcelo despertar do transe que estava preso. Estava imaginando a mãe sendo torturada e isso o fez suar frio. Só retomou a noção de onde estava por causa do ruído que ouvira. Se levantou do canto que estava e foi verificar. Assim que deu o primeiro passo, ouviu o ruído outra vez. Daniel? É você? Dizia ele enquanto olhava para o buraco que ele usava como acesso para a cova. Mas o fundo falso estava do jeito que havia deixado. Seguiu entre as prateleiras para ver se achava algo. No fundo do recinto, a escrivaninha de estudos estava fora do lugar!? Foi ate a direção dela quando um barulho seco e alto o suficiente para assustá-lo veio da direção de uma das prateleiras de livros. Estava com medo, mesmo sabendo que não havia ninguém ali, pois a cova não tinha outro acesso a não ser pelo o que ele usava. Pelo menos era no que acreditava. Pegou o celular por instinto para ligar para alguém. Sem sinal. Ele estava desconectado do mundo. A cada passo, seu coração acelerava mais o ao ponto de se tornar audível. Assim que chegou na prateleira de onde veio o barulho, olhou para o chão e viu um livro. Foi só um livro que caiu… Deve ter sido um rato, sei lá. Marcelo foi pegá-lo.

 

De repente um braço agarrou o pescoço de Marcelo por trás e uma mão tapou sua boca com força o bastante para imobilizá-lo. Seus olhos estavam esbugalhados de medo.

© 2020 por FELIPE SCHADT.

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