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Um Web-LIvro de Felipe Schadt

Ilustrações de Jeckson Fernandes

A Novíssima República

Capítulo 2

"A cova dos leões"

*Esta é um obra de ficção e qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência*

     A Avenida Paulista está completamente lotada e como vocês podem ver, há muita empolgação dos presentes graças à festa que foi prometida. Já já vamos subir no camarote para conversar com alguns famosos que vieram para o Réveillon de São Paulo. Não desligue a TV! Disse uma mulher animada com um vestido amarelo que fazia a cobertura do Réveillon na Paulista, antes de aparecer um comercial sobre um carro laranja semi-autônomo. Na sala, apenas Marcelo Franco. Estava sentado, praticamente inerte na frente da televisão de tela curva que tomava conta de quase toda a parede. Não estava nem um pouco animado para o ano novo. 

 

     Encostou a cabeça no encosto do sofá retrátil e levou a garrafa quase vazia de cerveja à sua boca. Quente, disse ele ao perceber que a cerveja já não estava gelada e que possivelmente fazia tempo que aquele restinho habitava em sua garrafa. Como um milagre, uma garrafa cheia e gelada apareceu na sua frente.

 

     - Não acostuma não! - disse uma mulher que aparentava ter pouco mais de 25 anos de idade e tinha curtos cabelos verdes.

     - Obrigado! - respondeu Marcelo, abrindo sua garrafa.

     - Qual é do desânimo, Marcelo? É ano novo, cara!

     - E quem se importa com isso, Judy? - ela olhou para ele com cara de reprovação. - Claro, todo mundo.

     - Tá todo mundo lá fora… Vamos lá com a gente?

     - Eu tô de boa, Judy. Vou assistir a “super festa” para o “super centenário” do “super governo” idiota! - Judy tapa a boca de Marcelo quase que de maneira violenta.

     - Fala baixo, porra! Esqueceu que a família do Giovani trabalha no governo? 

     - Eu também trabalho pro governo! - falou tirando a mão dela de sua boca.

     - Eles trabalham no ministério, enquanto você é só um professor de… Marcelo, desculpa, eu não quis dizer isso.

     - Termina a frase! Sou só um professor de história que não serve pra porra nenhuma, é isso que você ia dizer não era? - Marcelo se levantou. - Vou dar uma volta. 

 

     Enquanto Marcelo saía pela sala, Judy o observava quieta e sem reação. Às vezes ela se culpava por nutrir algum sentimento por ele, mas o conhecia há muito tempo e já havia se acostumado com o mau humor constante do amigo. No fundo, ela entendia o desprezo que ele tinha pelo governo. O Onisciente tinha tirado o emprego de muitos professores. A cada ano, a carreira docente era mais sucateada e substituída pelo ensino à distância e métodos de ensino autodidatas. Era uma sorte ele ainda estar à frente de uma sala de aula. Infelizmente, muito de seus colegas precisaram trocar de carreira ou ir para subempregos. Ainda tinha aqueles que precisavam encarar dois trabalhos, que era o caso dele. Ela entendia a raiva, mas não havia muito o que fazer. 

 

     Marcelo Franco tinha 29 anos e já alguns cabelos brancos. Passou toda a infância ouvindo histórias do seu avô sobre a Novíssima República. Mas as histórias que seu avô contava contrastavam com tudo sobre o que se falava nos documentos oficiais, nas escolas e no Onisciente. Seu avô, Apolo Franco, vivia enchendo a sua cabeça de informações que seu pai, Ângelo Franco, chamava de teorias da conspiração. Segundo Apolo, todas as coisas que ele sabia sobre o Brasil, ele havia aprendido com o avô dele, Sebastião Franco, antes de ter desaparecido misteriosamente. Seu tataravô foi um jornalista, um dos bons. Ele participou de uma equipe que investigava a Terceira Guerra Mundial. O motivo? Eles tinham elementos suficientes para crer que ela nunca aconteceu! Marcelo ficava extasiado com as histórias do avô sobre seu tataravô, mas toda vez que se empolgava com essas histórias, o pai de Marcelo rebatia. Seu tataravô perdeu o emprego por causa do True News e por isso criou essa raiva do governo. Não caia nas histórias fantásticas do meu pai.

 

     Todas essas versões fez Marcelo querer ser, desde muito cedo, um jornalista. Ele acreditava que só havia um jeito de descobrir a verdade: investigando! Mas foi na faculdade de jornalismo que descobriu uma verdade mais dura. O curso era totalmente técnico e não incentivava nenhum tipo de investigação mais profunda, apenas como encontrar bons entrevistados e revelar histórias sensacionalistas. Na verdade, os futuros jornalistas aprendiam, em tese, a lidar com o Onisciente e toda sua mecânica de produção de notícias. Após os dois anos de curso, pegou seu diploma e durou apenas dez meses em um jornaleco do interior de São Paulo. Na redação ele só trabalhava com jornalismo publicitário, visitando os anunciantes para fazer o que o seu tataravô chamaria de jabá. 

 

     Arrumou emprego em uma das fábricas responsáveis por produzir os tablets. Lá aprendeu muita coisa sobre tecnologia e computação. Além disso, ganhava relativamente bem e pôde pagar por um curso superior de História que era oferecido onde ficava a última universidade pública pré-boaventuriana a deixar de existir, a Universidade de São Paulo, na capital da província sudestina. Teve a felicidade de conhecer Claudio Borges, um professor remanescente da antiga USP que aceitara o emprego, mesmo discordando do projeto Onisciente. Eu não tinha o que fazer, garoto. Eu precisava de dinheiro e resolvi jogar o joguinho deles. Já faz mais de 20 anos que jogo conforme as regras, mesmo não concordando com elas. Marcelo tentou convencê-lo durante o primeiro ano inteiro a contar aquilo que ele sabia sobre o governo. Borges sempre negou, mas manteve Marcelo como seu pupilo. Prestes a se aposentar, o professor resolveu dar a ele uma de suas vagas no mestrado. Garoto, essa pode ser a última vaga de mestrado que eu concederei para alguém. Quero que seja sua. Marcelo ganhara mais três anos com o professor e a relação de confiança aumentava a cada dia. No dia da defesa de seu título de mestre, em que defendeu um trabalho sobre a história do jornalismo brasileiro na Novíssima República, Claudio o abraçou e disse ao pé do ouvido continue procurando e você vai achar um monte de merda que esse governo é. Entregou o canudo da diplomação para Marcelo e lançou-lhe um olhar amargurado mas que de alguma maneira demostrava um pouco de esperança.

 

     Assim que Marcelo chegou em casa, um apartamento de 46 metros quadrados no centro de São Paulo, abriu o canudo e nele havia um papel com algo escrito e uma chave. O papel estava escrito em elfico?, uma lembrança do fanatismo de Claudio Borges pelo O Senhor dos Anéis. Felizmente ele havia ensinado ao seu pupilo o alfabeto dos elfos imaginários de Tolkien, pois gostava de se comunicar com bilhetes escritos a mão e codificados ao invés dos e-mails monitorados pelo Onisciente. Entenda, garoto. Nunca confie em ninguém, principalmente nas máquinas. Marcelo sabia bem disso. Naquela altura, ele já tinha uma posição de prestígio na fábrica de tablets e supervisionava uma divisão de retenção de dados. Por isso sabia que seu professor estava certo em não confiar nas máquinas, principalmente na internet. Tudo era passível de fiscalização governamental, pois tudo que estava na rede era armazenado em um gigantesco banco de dados. O trabalho de Marcelo era sempre aumentar a capacidade do aparelho por meio de chips que eram comprados pelo governo e periodicamente distribuídos para a população de forma gratuita. Você entrega seu chip antigo e ganha um novo com mais espaço! dizia a propaganda. Ninguém sabia o que acontecia com os chips antigos, mas ninguém se importava. A história que se contava é que eles eram reciclados, mas Marcelo ouviu dizer certa vez nos corredores da fábrica, que antes da reciclagem, o governo fazia uma varredura em cada chip para buscar fotos, vídeos, textos ou gravações que pudessem comprometer algum possível inimigo da pátria. Mas era uma lenda urbana.

     No dia seguinte à sua defesa do mestrado, Marcelo foi até o endereço codificado em elfico no papel entregue pelo seu professor. O bilhete dizia: “Praça Pedro Lessa s n Centro SP. J33 3”. O local indicado abrigava o antigo prédio central dos Correios. Mesmo com o serviço obsoleto por causa da internet, os Correios faziam algumas entregas, mas em geral, as pessoas preferiam confiar suas mercadorias aos serviços de entregas particulares. Conhecido como Palácio dos Correios, o prédio amarelo que se erguia no meio do Vale do Anhangabaú, na cidade de São Paulo, fora construído em 1920 e resistia ao tempo como sede principal das agências de São Paulo. Marcelo ficou ali olhando para a fachada do edifício que também era o Centro Cultural dos Correios. Tá bom, mestre. Já estou aqui, o que você quer de mim agora? Se perguntou enquanto olhava novamente para o papel com os dizeres em elfico. J33 3, que diabos isso quer dizer? Não demorou muito para ele perceber que o Diabo nada tinha a ver com aquilo, na verdade, quem ele precisava clamar era Deus. Jeremias 33-3, seu maldito… pensou em tom brincalhão ao notar a ironia do nome e lembrar de uma conversa que tiveram. Já escutou esse CD? “All that can’t leave behind” é um dos melhores do U2. Olha a capa, garoto, nela tem uma mensagem. Ali no cantinho, no painel de informações tem um J33-3. É uma passagem da Bíblia: “Clama a mim e responder-te-ei”. Isso só pode ter sido ideia do Bono. Marcelo revirou os olhos lembrando da explicação entusiasmada que seu professor dera sobre a banda irlandesa.

 

     Marcelo resolveu clamar por respostas. Pegou seu telefone e ligou para seu antigo professor.

     - Pensei que você seria mais ágil para me ligar. - disse Claudio Borges do outro lado da linha.

     - Já estou aqui. O que tenho que fazer agora?

     - Procure pela cova dos leões. - Mais Bíblia? Desde quando esse homem se tornou temente a Deus?

     - Não seria mais fácil você me dizer… - o outro lado da linha já estava mudo.

 

     Ok, vamos lá então. Chegando no saguão do prédio, avistou as grandes colunas que sustentavam o hall de entrada e dividiam espaço com uma escada rolante que levava até o andar superior que, por sua vez, era adornado com uma grande parede quadriculada. À esquerda, avistou um grande balcão de informações e se dirigiu a uma moça.

 

     - Boa tarde. Eu… - Espera aí… o que eu devo dizer? Se perguntou mentalmente.

     - Você? Está procurando por algo ou alguém? - Estou procurando pela cova dos leões. Pensou mas não disse.

     - Acho que sei o que ele procura, Roberta. - Disse uma terceira pessoa que surgia pela direita do saguão vestindo trajes de segurança. No seu crachá estava escrito Daniel. - Venha comigo, rapaz. 

 

Daniel na cova dos leões. Completamente óbvio! Pensou Marcelo enquanto seguia o homem chamado Daniel. Atrás das escadas rolantes, passaram por portas de vidro e chegaram até uma sala com dezenas de cadeiras de espera, todas vazias. No canto esquerdo, uma pequena porta que levava para uma escada que descia até uma área de serviço. 

 

     - Problemas com claustrofobia, filho? - perguntou o guia.

     - Não que eu saiba.

     - Então vamos descobrir da maneira mais rápida. Você trouxe a chave?

 

     Marcelo entregou a chave que seu professore havia deixado junto com o bilhete. O guarda noturno dos Correios a colocou em um cadeado enorme que estava preso no chão e assim que foi aberto, Daniel puxou uma escotilha escondida debaixo de produtos de limpeza da área de serviço, acessando uma escada que descia uns 10 metros pra baixo. Quando chegaram ao fim da escada, o guia ligou uma lanterna e mostrou, atrás de umas caixas empilhadas, um fundo falso que escondia um buraco que tinha altura de 80 centímetros por um metro de largura. Vou ter que rastejar? A resposta à pergunta de Marcelo veio assim que o homem agachou e entrou no buraco. Vou ter que rastejar! E lá foi ele atrás do guarda. Depois de rastejarem por 15 metros, abriram o fundo falso do outro lado e saíram numa sala grande e tão escura quanto o próprio buraco. Daniel tateou a parede a achou um interruptor. Luzes inundaram o recinto e o que Marcelo viu quase o fez cair para trás.

 

     A lembrança de Marcelo foi repentinamente interrompida por um barulho de rojão que estourara perto dele. Já tinha andado bastante desde que saíra da casa do Giovani e seu relógio marcava 23h00. Alguém soltou fogos antes da hora. Idiota!

 

 

     A Avenida Paulista estava apinhada de gente. As entradas pelo Metrô já haviam sido fechadas há duas horas e praticamente todos já estavam com seus óculos de Realidade Virtual na cabeça. Telões por toda a extensão da avenida garantiriam uma boa visão dos shows que já rolavam desde as 21h, mas o lugar mais disputado era próximo ao palco. Quem se acotovelava para ter o melhor lugar, brigava para poder ver seus artistas de perto. Mas ele tinha um motivo diferente para estar ali. Mais 40 minutos, disse em voz baixa. Olhou para a direita e avistou o camarote que abrigava os artistas famosos. Olhou com desprezo para cada um deles enquanto os demais tentavam tirar fotos com as estrelas da TV, da música e do esporte que habitavam a área VIP.

 

     Desviou o olhar e começou a repetir mentalmente o plano. Olhou fixamente para um dos técnicos de vídeo que estava no pé do palco, perto do aparato de geração de imagens. Era apenas um homem de boné que estava chupando um pirulito e ajustando alguns botões, aparentemente conferindo tudo antes do espetáculo. Por um momento, ele atravessou a área passando por baixo do cordão de isolamento e seguindo em direção ao camarote, na parte de baixo. Vou buscar um refrigerante, fica de olho aí pra mim. Disse o técnico para um dos seguranças que não tirava os olhos das pessoas que tentavam chegar perto demais dos famosos. Com a estação de vídeo vazia, ele tentou chegar o mais perto possível para ver o que desse para ver. Foi se acotovelando e brigando por espaço para tentar ir mais para a lateral possível. Após alguns empurrões dados e recebidos, ele chegou bem próximo da área que o técnico de imagem deveria estar. Do seu lado, uma fã histérica de um dos famosos gritava enlouquecidamente. Quis calar a boca da mulher mas tinha um plano melhor para ela. 

 

     - Tão perto e tão longe, não é? - tentou puxar assunto com a moça.

     - Nem me fale! Daria qualquer coisa para chegar mais perto. - disse ela. - O problema é que aquele segurança não deixa eu me aproximar nem pra tentar uma selfie com o Ronnie. 

     - O Ronnie é maravilhoso! - Quem é Ronnie?, pensou.

     - Ele é tudo na minha vida! Ronnie!!! - Ela deu um grito e tentou acenar para o suposto famoso que estava de terno branco e um chapéu paleta bem na frente na área VIP conversando com outros famosos. Ao perceber a moça histérica, ele levantou o copo e sorriu para ela. - Meu Deus! Ele me viu! Ele me viu! 

     - E se eu te falar que consigo te colocar lá em cima? - ele disse maliciosamente para ela.

     - Me diz o que eu tenho que fazer! - perguntou de olhos arregalados. Bingo! Ele chegou perto dela e tirou uma credencial  do bolso da calça que dava acesso ao camarote. A moça ameaçou um grito. - Como você conseguiu isso?

     - Conheço umas pessoas importantes. Não quero nada em troca, mas eu só preciso que você vá para lá num momento muito específico.

     - Qual momento?

 

     Ele explicou seu plano para a moça. Enquanto todos estivessem assistindo o discurso virtual do ex-presidente, ela deveria se dirigir ao camarote e apresentar a credencial para o segurança. Preciso que você vá exatamente nesse momento. Mesmo achando estranho, a moça concordou na hora. Não se importaria de perder o show de realidade virtual. Prefiro ver meu Ronnie de perto!  Ela disse com toda convicção que tinha. Mas você precisa parar de chamar atenção agora, pois vão perceber que você é só mais uma fã tentando entrar a qualquer custo no camarote. Seja discreta para não ficar marcada pelo segurança. Foi a orientação final. Ele entregou a credencial para ela e ela o abraçou. 23h30. Faltava muito pouco.

 

 

     Marcelo saiu da estação de metrô do Anhangabaú e foi caminhando até o Centro Cultural dos Correios. Nas mãos, uma sacola com algumas garrafas de cerveja. Ao chegar à frente do prédio, bateu na porta uma sequência de batidas específica que significava em código morse D6, uma referência ao livro bíblico de Daniel e o capítulo sobre a história da cova dos leões. Eu também posso usar a Bíblia para criar meus próprios códigos, professor, pensou alto no dia que combinou a senha com o guarda noturno que havia atendido ele há quatro anos na primeira vez que pisou ali a mando de Claudio. A porta se abriu lentamente e Marcelo viu o rosto de Daniel.

 

     - Feliz ano novo! - Mostrando a sacola com cervejas.

     - Você não tem amigos, Marcelo? - Disse o guarda abrindo caminho para seu convidado entrar.

     - Preciso ir à cova. - Falou enquanto entregava uma garrafa para Daniel.

     - A essa hora? Hoje?… Vocês jovens têm hábitos muito estranhos. - Abriu a garrafa e deu um gole. - Você sabe o caminho.

 

Enquanto caminhava até a porta de vidro, ouviu Daniel chamá-lo.

     - Preparado para mais cem anos?

     - Nem um pouco! 

     Assim que tirou o fundo falso da saída do buraco, Marcelo rastejou para fora dele e tateou a parede em busca do interruptor. Acendeu a luz. A impressão que ele tinha era sempre a mesma toda vez que as luzes iluminavam o recinto e tudo o que havia nele. Use a cova com sabedoria, garoto. Ecoaram as palavras de Claudio Borges na última vez que se viram em um hospital antes dele falecer. Tudo isso passou a ser meu. E ele sabia que ali era mais do que um refúgio. Era um local que dava para ele condições de saber o que ninguém mais saberia. Olhou no relógio de pulso. 23h48. Foi até uma das prateleiras e escolheu, entre as centenas, um dos favoritos de seu professor. Sentou no chão, abriu uma garrafa e olhou para o que havia acabado de pegar. A Era dos Extremos de Eric Hobsbawm. Abriu o livro e começou a ler. 

© 2020 por FELIPE SCHADT.

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