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Ilustrações de Jeckson Fernandes

A Novíssima República

Capítulo 1

"A mensagem"

*Esta é um obra de ficção e qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência*

31 de dezembro de 2118, São Paulo, capital da província do Sudeste

 

     No fundo do armário, uma peça original com cheiro de mofo de uma camiseta da extinta Seleção Brasileira de Futebol. Comprada em uma feira de antiguidades, a camisa amarela com cinco estrelas verdes no escudo foi, há cem anos, o símbolo da luta contra o esquerdismo que estava tentando se perpetuar no poder. Se você pesquisar no Onisciente os dizeres “Eleições de 2018”, verá uma série de fotos de pessoas usando a camiseta em apoio a Jeremias Boaventura, eleito na ocasião.

 

     Eu até gosto dessa camiseta. Seria bom ter visto a Seleção jogar. Disse enquanto erguia a peça de roupa e observava seu amarelo já desbotado. Ele estima que ela tenha a idade de seu bisavô. Foi o último modelo produzido antes da Guerra e uma peça de colecionador. Ainda é possível adquirir uma camiseta nova nas lojas, mas essa tinha história. Perfeita para um dia histórico.

 

     Deixou a camiseta em cima da cama e foi tomar um banho, repassando mentalmente tudo aquilo que precisava fazer daqui a algumas horas. É só passar a mensagem. Havia se preparado muito para esse dia e muita gente confiava nele. Enquanto a água morna caia sobre sua cabeça, o frio subia pela espinha. Aumentou a intensidade do chuveiro e aproveitou aquele banho como se fosse o último. E tinha tudo para ser.

 

 

     Todos estão empolgados para o Réveillon deste ano. Afinal, não será uma virada de ano qualquer. Será a comemoração do centésimo aniversário da Novíssima República e a festa preparada pelo governo da província do Sudeste promete ser a maior da história. Centenas de milhares de pessoas lotavam as estações de metrô rumo à Avenida Paulista. Gente de todo o país garantiu seu ingresso com quase um mês de antecedência, que chegaram a valores bem altos. O Réveillon Paulista iria ser transmitido pela TV, mas só quem estivesse in loco iria participar de uma experiência, que os vloggers do Onisciente previam como transcendental.

    Para garantir sua indicação como novo governador da província do Sudeste, Normando Privius, um magnata da indústria armamentista, fez uma proposta arrojada para selar parceria com os Boaventuras. Prometeu para Guto Boaventura, na época candidato à reeleição na presidência, que faria uma inesquecível homenagem ao seu tataravô, Jeremias, na festa de virada de ano. Distribuiria para as duas milhões de pessoas que fossem à Avenida Paulista para as comemorações do ano novo, um óculos de Realidade Virtual (VR) que, em conexão com seus tablets, possibilitaria assistir a um discurso em 3D do próprio Jeremias instantes antes da queima de fogos que duraria exatos cem minutos. Com os óculos de VR, será possível ver o grande Jeremias Boaventura saindo da tela do tablet para falar com cada um dos presentes e fazer a contagem regressiva para o centenário. Disse Privius em uma entrevista para o Onisciente. A megalomania do magnata agradou a cúpula boaventurista que o nomeou para governador da província assim que as eleições confirmaram a vitória de Guto.

     Foi uma jogada de marketing maravilhosa do mega empresário. Privius lutava para ser nomeado governador há muito tempo e resolveu apelar em sua campanha interna prometendo homenagear a Novíssima República de uma maneira inesquecível. E sua promessa surtiu efeito. O partido bancou sua candidatura e conseguiu convencer a família Boaventura a nomeá-lo. Assim que as eleições terminaram, em outubro, o nome de Normando foi anunciado pelo presidente reeleito. Para ser governador era preciso ter influência no partido, apostar em quem seria o futuro presidente, bajulá-lo e esperar o anúncio oficial horas depois do resultado das urnas. Ter dinheiro ajudava na empreitada e Privius tinha de sobra.

 

     A partir do segundo mandato de Fabiano Boaventura, em 2039, neto mais velho do presidente Jeremias, o país foi dividido em quatro províncias: Sul, Sudeste, Oeste e Nordeste e controladas pelo Centro. Cada uma delas ganhou uma capital que serviria de sede para o governo provinciano, que obedeceria as demandas vindas do Distrito Federal, controlado pelo presidente. No Sul, Curitiba se tornou a capital representando os estados de Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná; no Sudeste, a cidade de São Paulo ganhou a incumbência de representar Minas Gerais, Espirito Santo, São Paulo e Rio de Janeiro; no Oeste, Cuiabá era a capital que representava Mato Grosso, Goiás, Rondônia e Mato Grosso do Sul; e no Nordeste, Salvador representava Bahia, Tocantins, Sergipe, Alagoas, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí e o que havia restado do Maranhão. 

 

     Para governar as províncias era preciso ser nomeado pelo próprio presidente. Por sua vez, o governador da província era responsável por nomear os prefeitos de cada município e, cada prefeito tinha o direito a um voto para a escolha dos deputados federais e senadores que representariam a sua província no governo central. Desse jeito, as eleições diretas ficavam centralizadas na escolha do presidente. Essa foi a reforma política que Fabiano deu para o país, alegando que uma nação só consegue andar pra frente se todas as esferas do poder caminharem para mesma direção. 

 

     E desde a primeira eleição de Jeremias, não houve nenhuma vez nesses 100 anos que o presidente não fosse da família Boaventura. Depois dele, que ficou oito anos no poder, seu filho e seu neto, Fernando e Fabiano, também conseguiram se reeleger, mantendo os Boaventuras por 24 anos no executivo. Na sequência, em 2043, a esposa de Fabiano, Kelly Boaventura, se elegeu, mas ficou apenas dois anos no mandato, pois foi assassinada por grupos extremistas da Província do Nordeste, o que ocasionou na Guerra Civil Nordestina, que resultou no isolamento da região do resto do país. Uma nova eleição foi aclamada pela população e Fabiano voltou, em 2045, a ser presidente por mais oito anos, indicando seu irmão mais novo de apenas 33 anos para sucede-lo nas eleições realizadas em 2053. Caio Boaventura foi eleito o presidente mais novo da história do Brasil e, logo em seu primeiro mandato, mudou a lei eleitoral impedindo a reeleição, mas ampliando o tempo de mandato presidencial, de quatro para dez anos. 

 

     Tempo suficiente para seu filho e único herdeiro vivo dos Boaventuras, Elias, completar 18 anos e poder se candidatar à presidência, superando o pai como presidente mais novo da história. No seu quinto ano de mandato, em 2067, Elias revogou a lei promulgada pelo seu pai que impedia e reeleição. Além dos dez anos de mandato, o presidente poderia se candidatar à reeleição se quisesse. E foi o que aconteceu. Elias foi o Boaventura que mais ficou no poder: 20 anos. Depois da Terceira Guerra Mundial e da Guerra Civil Nordestina, foi o momento mais turbulento que o governo boaventurista enfrentou, pois a regra de permanência de dez anos no cargo com reeleição não se estendeu aos governadores, prefeitos, deputados e senadores, causando um racha no país e colocando o Distrito Federal contra as demais províncias. Além disso, o Judiciário, que exigia eleições para a escolha do executivo, também ameaçou entrar na briga por achar a reforma política arbitrária, mas na verdade, o Supremo Tribunal Federal brigava por um reajuste salarial que Elias havia prometido e, até o momento, não havia cumprido.

 

     As coisas só se acalmaram quando um casamento entre o governador da província de Curitiba, Sidnei d’Metri, com Samanta Boaventura, irmã mais nova de Elias, foi realizado dois anos antes das eleições, em 2080. O casamento fez com que Samanta ganhasse apoio do Sul para se candidatar a presidência e manter a dinastia dos Boaventuras no poder central. Era preciso convencer o Oeste e o Sudeste a dar apoio, pois eles ameaçavam não seguir com o boaventurismo nas eleições de 2082. Para o Oeste, promessas de cargos para os deputados e senadores garantiram o apoio necessário, coisa que não satisfaria o poderoso centro econômico e empresarial do país. 

 

     O Sudeste queria muito mais do que cargos no governo, queria aumentar sua autonomia no controle da produção brasileira e para isso, precisava manter um governo sólido e longo, que pudesse dialogar com o Distrito Federal. Mas os provincianos sudestinos já iniciavam uma articulação para colocar Riberto Casagrande, prefeito do Rio de Janeiro, para concorrer com os Boaventuras. Era uma aposta arriscada, pois o Sudeste poderia perder o capital político caso apoiasse um candidato perdedor. Não precisaram arriscar, pois Samanta prometeu revogar as leis de seu pai e de seu avô, diminuindo o tempo de mandato para cinco anos com direito à reeleição, garantindo que governadores, prefeitos, deputados e senadores ficariam no cargo durante o mesmo tempo de permanência do presidente, sem direito a mais do que uma reeleição consecutiva, além de garantir ao Sudeste o controle de preços da mão de obra que vinha do isolado Nordeste. As propostas  agradaram a cúpula provinciana que se juntou ao Oeste e também deu apoio à Samanta, que venceria as eleições e cumpriria suas promessas.

 

     Samanta Boaventura ficou por dez anos no cargo, sendo sucedida pelo seu outro irmão, Paulo, contrariando a intenção de seu marido de chegar à presidência. O que pesava para Sidnei d’Mitri era seu sobrenome. Por mais que fosse casado com Samanta por 12 anos, ele não era um Boaventura. Teve que se contentar com um cargo no Judiciário. Paulo Boaventura fez um governo discreto, pois não tinha metade do carisma de sua irmã Samanta e muito menos o traquejo político, mas mesmo assim, se manteve como presidente por dez anos, tendo sua irmã como mentora e líder do governo. O quarto filho de Caio, Henrique Boaventura, sucedeu seu irmão Paulo em 2103 e só não ficou os dez anos no poder devido a uma câncer no intestino que o impediu de tentar reeleição. Como seu sobrinho na época, Breno, primeiro filho de Samanta, ainda era um adolescente de 17 anos, ela mesma voltou à presidência por mais cinco anos. 

 

     Breno Boaventura entrou no lugar da mãe na sequência, em 2113 e, com menos de um ano de mandato, desapareceu misteriosamente após um voo sobre uma área devastada no antigo estado do Pará. Entusiasta das teorias de recuperação da floresta Amazônica, Breno, que era piloto da aeronáutica, sobrevoou uma das áreas devastadas pelas explosões nucleares para observar de perto a suposta recuperação da floresta. Porém, segundo relatos oficiais, uma pane na aeronave fez o avião cair no que havia sobrado do município de Marabá, nas margens do Rio Tocantins. Com a ajuda das forças armadas americanas, apenas os destroços do avião de Breno foram encontrados. Nem ele e nem os outros três tripulantes da aeronave, um co-piloto, um oficial da Guarda Nacional e um pesquisador especialista em reflorestamento, foram localizados. Dado como morto após a Polícia Federal dar as buscas como encerradas, ao concluir que, devido a forte radiação do local, seria impossível alguém sobreviver por mais de dois meses, seu pai, Sidnei d’Mitri, na ocasião presidente do Tribunal Superior Eleitoral, pediu novas eleições. O irmão mais novo de Breno e filho de d’Mitri, Guto Boaventura, se candidatou e venceu as eleições, assumindo em 2114. Hoje, cinco anos depois, Guto acabou de ser reeleito e, cem anos após a primeira eleição de Jeremias Boaventura, conseguiu garantir o boaventurismo por mais de um século no comando da Novíssima República.

 

     E era esse período centenário que as duas milhões de pessoas que entupiam a Avenida Paulista iam comemorar. Para lembrar a primeira eleição de Jeremias, todos se vestiram com a camiseta amarela da Seleção. Nas saídas das estações do Metrô, uma correnteza amarela seguia rumo à avenida que, por motivos de segurança, estava cercada com grades e monitorada por policiais. Com três entradas possíveis, uma pela estação Trianon, outra pela estação Brigadeiro e mais uma pela estação Consolação, as pessoas podiam trocar os seus ingressos por uma pulseira que, mais adiante, já no meio da avenida, garantia o tão esperado óculos de Realidade Virtual. Para garantir a segurança, todos eram revistados nas saídas do Metrô, gerando um pouco de filas e certa confusão, que era abafada pelo entusiasmo. Com instruções para chegarem até as 21h, as estações foram fechadas após esse horário e ninguém mais poderia entrar na avenida e, se saísse, não conseguiria voltar. 

 

     O relógio dele marcava 20h18 quando ele trocou seu ingresso pela pulseira. Caminhou até um dos centros de distribuição dos óculos VR, pegou um e o parelhou ao seu tablet. 20h19. Um horário profético, pensou ele, ajustando os óculos na cabeça. Olhou em volta e percebeu que estava rodeado de pessoas vestidas exatamente como ele, tornado-o só mais um ponto amarelo num oceano dourado. Foi na direção do palco principal, que ficava no início da avenida. Lá, um telão gigantesco e todos os aparatos tecnológicos que garantiriam o espetáculo prometido por Privius e seus óculos de Realidade Virtual. Pôs a mão no escapulário que trazia no pescoço. Tateou a imagem de Jesus Cristo e olhou para o chip USB que a imagem escondia. Eu só preciso passar a mensagem. 

© 2020 por FELIPE SCHADT.

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