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Um Web-LIvro de Felipe Schadt

Ilustrações de Jeckson Fernandes

A Novíssima República

Prólogo

*Esta é um obra de ficção e qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência*



    A partir dessa atualização, as pessoas começaram a ter acesso a livros virtuais. Isso causou uma diminuição drástica no consumo de livros físicos, provocando o fechamento de várias livrarias. Isso porque, as editoras perceberam a possibilidade de ganhar dinheiro vendendo livros para serem consumidos nos tablets. Porem, o governo decidia quais livros poderiam integrar o acervo do Onisciente. Alguns livros foram negados, outros foram aceitos e a maioria foi revisado. Em poucos anos, os livros físicos caíram em desuso e as editoras investiram todo seu material para serem aceitos na plataforma governamental. Uma a uma as livrarias foram fechando e no dia 23 de março de 2037, a última livraria física do Brasil, a livraria Luisa, no Leblon, Rio de Janeiro, fechou as portas, decretando oficialmente a morte do livro físico.
    
    Dois anos antes, o filho de Fernando e neto de Jeremias, Fabiano Boaventura, havia ganho a corrida eleitoral e se tornado o terceiro Boaventura seguido a assumir a presidência em um país onde todos os conteúdos de informações noticiosas, educacionais e culturais estavam sob controle do governo através do Onisciente.
Fabiano decretou em uma transmissão ao vivo pela plataforma, logo no seu primeiro dia de mandato, que o Brasil não era mais uma República Federativa: 

    Assim que o Brasil saiu vitorioso da Terceira Guerra Mundial, a popularidade do então presidente, Jeremias Boaventura, que já era alta, ficou ainda maior. As eleições, que aconteceram dois meses depois do fim do conflito internacional, só evidenciaram o poder popular de Boaventura. Os candidatos que tentaram substituí-lo no Palácio do Planalto não conseguiram, juntos, atrair 10% do eleitorado. A reeleição veio com 90% dos votos e nascia no Brasil a era boaventurista.

    Com crédito com a população, nada abalava as estruturas presidenciais. Os jornais que tentavam emplacar alguma reportagem de tom mais crítico ao presidente eram rapidamente retalhados pela opinião pública que, cada vez mais, ignorava os jornais como fontes confiáveis de notícias. Qualquer tweet de Boaventura tinha mais força do que as maiores reportagens veiculadas na mídia. Bastava uma postagem do presidente para derrubar um jornal. E isso era feito com muita frequência.

    O tradicional Folhetim Paulista foi o primeiro a cair. Após uma denúncia de caixa dois que mostrava um possível envolvimento da família Boaventura com dinheiro oriundo de igrejas evangélicas para financiar ilegalmente a sua campanha em 2018, o jornal foi extremamente criticado nas redes por tentar derrubar o herói nacional e acusado de realizar fake news. Além disso, Boaventura não precisou de muito esforço para que anunciantes abandonassem o Folhetim. Ignorado pelos leitores e abandonado pelos patrocinadores, o Folhetim Paulista encerrou suas atividades no dia 31 de dezembro de 2024. Sua última edição foi dedicada a montar um dossiê contra Jeremias Boaventura. Os jornais se esgotaram em questões de horas, mas não por leitores. Os exemplares, assim que adquiridos, eram queimados na frente das próprias bancas de jornal. Alguns populares levaram centenas de jornais para frente da sede do Folhetim e fizeram uma grande fogueira, comemorando o fim da empresa.

    E esse era o destino de todos os jornais que ousavam criticar o atual governo. Foi então que o Palácio do Planalto iniciou um plano de incentivo para captar empresas jornalísticas. O True News, como ficou conhecido, dava dinheiro para jornais de pequeno e médio porte de todo o território nacional que estivessem alinhados com a pauta do governo. Os valores eram altos, permitindo que esses jornais abandonassem a mídia impressa e investissem na digitalização de suas redações, criando seus próprios sites. Os grandes jornais que restaram não queriam ter o mesmo fim do Folhetim Paulista e se renderam ao True News. Já os canais de TV se dedicaram apenas aos esportes e ao entretenimento, deixando o jornalismo para os seus sites na internet que, por sua vez, já faziam parte do cartel jornalístico.

    Para pautar os jornais, foi criada uma plataforma que servia como fonte oficial de notícias do Brasil, o Onisciente. Essa plataforma reunia todas as informações do país e passava para as redações dos jornais cadastrados se pautarem. Com um discurso que apelava para o combate às fake news, o Onisciente ganhou a confiança da população, que por sua vez abandonou qualquer outra fonte de notícia a não ser a governamental. O Onisciente deixou de fornecer informações para os jornais e passou a receber notícias deles. Toda notícia produzida no Brasil era enviada para a plataforma e, se aprovada, era divulgada em seu site oficial onisciente.org.br. Para identificar a fonte, o site dava os créditos para o jornal produtor da notícia. Quanto mais vezes o nome do jornal aparecia no Onisciente, mais ele tinha valor, pois era praticamente como receber um selo de confiabilidade do governo. E quanto mais valor tinha, mais dinheiro de anunciantes e do próprio governo esse jornal ganhava. O True News se transformou em uma bolsa de valores do mercado jornalístico.

    Em 2026, o Onisciente já era o site mais acessado do Brasil. Com o seu sucesso, ele criou sua própria Rede Social e, em menos de três meses, já detinha 95 milhões de contas ativas, superando o Facebook, Twitter, YouTube e Instagram, dando a eles o mesmo fim que o Orkut teve em 2014. O site era consumido diariamente por praticamente todos os brasileiros e seu sucesso aumentava cada vez mais, ajudando Fernando Boaventura, filho de Jeremias, a conseguir ser eleito presidente do Brasil em uma das eleições mais tranquilas da história do país. Com apenas um candidato opositor, o pouco carismático Giovane Brito, líder de um grupo que era contra os Boaventuras formado por ex-sindicalistas, acadêmicos e jornalistas que haviam perdido o emprego devido ao True News, não conseguiu obter 2% dos votos válidos, devido sua campanha ter sido abafada pelo poder do Onisciente.

    E a tranquilidade da situação se estendeu para a escolha dos governadores, deputados e senadores. Todos surfavam na onda boaventurista, em que um simples pronunciamento de apoio de Jeremias ou  de qualquer um de seus filhos na plataforma, resultava em milhares de votos para quem quer que fosse. A única região que resistia ao boaventurismo, e de uma maneira muito tímida, era o Nordeste graças sua ligação com o ex-presidente Lineu dos Santos, que havia cometido suicídio na prisão em 2020. Por não acreditar que Lineu teria tirado a própria vida, grupos fieis a ele criavam teorias que provassem o contrário, além de tentarem resistir aos planos governamentais, criando uma pequena rede de informações clandestina que alimentava os poucos anti-boaventuristas espalhados pelo Brasil.

    Logo no primeiro ano de mandato, Fernando Boaventura resolveu ampliar o poder do Onisciente. Com o apoio da opinião pública de praticamente 100% do Congresso, o recém eleito apresentou uma proposta de transformar o programa de informações do governo na base do currículo escolar de todo o país. O Onisciente ficaria responsável por fornecer todo o conteúdo das escolas do ensino fundamental ao ensino médio. Com pouca resistência, o projeto foi aprovado e aplicado no ano seguinte, primeiro nas escolas municipais de nível fundamental das 21 capitais restantes do país. Depois de um ano de testes e de um bom resultado das escolas participantes em provas do governo, pais de todo o Brasil participaram de uma consulta pública apoiando a ampliação da medida. Em 2029, o Onisciente já era realidade em 100% das escolas de nível fundamental e médio do Brasil.

    Obcecado pela presença do Onisciente em todos os lugares, Fernando Boaventura resolveu dar um passo mais largo. Em um plano conhecido como “Onisciente: O verdadeiro conhecimento na palma de sua mão”, o Governo Federal investiu 15 bilhões de dólares, oriundos da sua vitória na guerra, para a compra de milhões de tablets que seriam distribuídos para todo jovem em idade escolar do país. A ousada medida visava facilitar o acesso à plataforma governamental. Nossa ideia é fazer com que todos os jovens brasileiros possam ter acesso ao conhecimento. Educação é a nossa prioridade máxima. Foi o discurso dito por Fernando Boaventura em uma entrevista concedida para o Onisciente.

    A distribuição dos tablets para as crianças foi amplamente elogiada pela opinião pública, garantindo a reeleição quase que automática de Fernando para a presidência. E ela aconteceu de uma maneira tão tranquila quanto a anterior. O oponente representava as universidades públicas que foram contra o projeto que levava o Onisciente para as escolas, alegando que o governo queria controlar o ensino. Mesmo sem o apoio da classe acadêmica, Boaventura venceu fácil. Sua grande plataforma de campanha era distribuir tablets para toda a população. A ideia apresentada era fazer parcerias público-privadas para construção de fábricas e polos tecnológicos para produção e distribuição desses equipamentos. E sua promessa foi cumprida no ano seguinte a sua reeleição, em que foram construídas dezenas de fábricas no interior de São Paulo.


    Junto com a derrota nas urnas, as universidades públicas também perdiam prestígio. Acusadas de doutrinação ideológica no ensino, cada vez menos jovens se interessavam em se matricular no ensino superior público, chegando ao ponto de sobrarem vagas nos cursos de graduação. Com a diminuição da procura, houve também a diminuição de repasse governamental. O dinheiro que era destinado para universidades estaduais e federais foi revertido para universidades particulares que já haviam aceitado utilizar o Onisciente como fonte de conteúdo para o currículo acadêmico. Não demoraria muito para que as faculdades públicas fossem marginalizadas e reduzidas a prédios cada vez mais vazios e sem credibilidade. Alguns campus se renderam ao investimento privado e deram espaço para o funcionamento de faculdades particulares. Para cada universidade pública fechada, oito universidades particulares abriam no lugar. Este fato agradou a população, que teve mais vagas nas escolas de nível superior. O governo criou um ranking de escolas de ensino superior privado que beneficiava as melhores posicionadas. A faculdade que implementasse o sistema de ensino do Onisciente com mais eficiência ganhava pontos e subia na classificação. Quanto maior sua posição, mais bolsas de financiamento o governo dava.

    O Onisciente estava presente em todos os níveis educacionais já em 2032 e o caminho para distribuição dos tablets para cada cidadão brasileiro estava aberto. A distribuição aconteceu em 2033 e foi muito comemorada pela população. Todos que possuíam um CPF tinham direito a um kit que continha um tablet, um carregador e um chip de internet 4G, que foi adquirido junto com empresas de telefonia que viram no empreendimento uma grande chance de negócio. A primeira versão do tablet continha câmera frontal e traseira, gravador de voz e acesso a todo conteúdo disponível no Onisciente. A primeira atualização, que aconteceu meses depois da distribuição, já continha todo o acervo selecionado de domínio público da Biblioteca Nacional de Brasília.

 


 

     Esse novo Brasil, feliz, vitorioso, poderoso e unido teve início com meu avô, Jeremias Boaventura, o nosso maior herói nacional e responsável por todas as boas coisas que conquistamos. Ele que foi mentor de meu pai, ajudando-o a governar e a ampliar o Onisciente para o povo brasileiro. Ele que continuará servindo essa nação como meu conselheiro principal. Ele que merece todas as honrarias, transformou a Nova República, que era tão velha quanto à de Deodoro da Fonseca, em uma República moderna e de olho no futuro. Em homenagem a Jeremias Boaventura, declaro que a partir do dia 01 de janeiro de 2019, primeiro dia de seu mandato, o Brasil deixou a Nova República para ser uma Novíssima República!

 

© 2020 por FELIPE SCHADT.

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