• Felipe Schadt

Quem garante que o Sol nascerá amanhã?


(Imagem: Internet)

> “Mas é claro que o Sol, vai voltar amanhã”… Olha… por mais que eu goste muito do Renato Russo e dessa canção, a filosofia fala mais alto e eu tenho que questionar. Será que o Sol realmente vai voltar amanhã? Existe alguma garantia de que o veremos nascer outra vez no dia seguinte? David Hume, um pensador inglês, diria que não. Não há nenhuma garantia de que o Sol volte amanhã. Alias, não há nenhuma garantia para nada que ainda não está aqui. Viver é basicamente uma roleta russa da existência. Pode ser que você acorde amanhã e siga sua vida normalmente, pode ser que o universo deixe de existir assim que você terminar de ler esse texto. Não existe garantia de nada.


“Nossa Felipe, que desanimador você”, ah… mas aí que você se engana. Vou tentar te mostrar o quanto esse pensamento é justamente o contrário do desânimo. E ele é tão rico que nos dá margem para tantas linhas de raciocínio. Vem comigo e no final desse texto você diz se eu te desanimei ou não.


De onde veio a ideia de que o Sol nascerá amanhã? “Oras… o sol nasce todo dia, então é meio lógico que ele vai nascer amanhã”. Isso é o que chamamos de hábito! O hábito é a repetição de determinada ação que praticamente não muda e nos força a acreditar que se algo já aconteceu tantas vezes, ele irá acontecer outras tantas. Nós somos muito apegados ao hábito como metodologia comportamental. E damos uma carga positiva para ele. “O hábito da leitura é bom porque te faz ter mais conhecimento”, aí você cria um hábito de todos os dias ler 20 páginas. Quando você vê, já se passaram 10 dias e você leu um livro de 200 páginas.


E aí você se força a todos os dias, no mesmo horário, ler as benditas 20 páginas diárias. Cria um hábito que, quanto mais for praticado, mais impresso fica em sua rotina, fazendo parte do seu comportamento. Existem pessoas que possuem o hábito de tomar café. Ou de fazer uma caminhada, ou de meditar. O hábito se torna parte de você. Ou você se torna parte do hábito?


Na minha adolescência eu era apaixonado pela menina mais bonita da escola. E, para minha sorte, ela me deu bola e começamos a meio que namorar. Ela chegava na escola muito cedo, quase uma das primeiras alunas e, todos os dias, ficava sentada no banco ao lado da cantina esperando a hora da aula. Para poder ficar com ela, eu criei o hábito de chegar no mesmo horário. Todos os dias, quando eu atravessava o portão principal, avistava ela sentada no banco ao lado da cantina. O hábito me acostumou mau. E no dia que eu cheguei mais cedo e não a avistei, me senti perdido e sem saber o que fazer. Nunca passou pela minha cabeça que haveria um dia que ela não estaria no banco ao lado da cantina logo cedo. Eu não pensava isso pois eu me tornei escravo do hábito.


Quando preenchemos nossas vidas com o hábito, o ineditismo, o encontro virginal, a novidade normalmente incomoda. Você que lê 20 páginas de livros diariamente, experimente acordar atrasado e perder o horário da leitura. Ou, para os bebedores de café, experimente ficar sem tomar a sua xícara de café diária. Tão acostumados com o hábito, a quebra de rotina machuca muito mais.


O hábito inclusive faz com que a gente se torne mais esperançoso. Você dorme cheio de esperança de que lerá seu livro ou tomará seu café no dia seguinte, assim como faz todos os dias. Eu vivia cheio de esperança de que a menina que eu gostava estaria me esperando no banco ao lado da cantina. Mas será que viver esperançoso é bom? Penso que mais ou menos…


Para ilustrar isso, darei um exemplo que provavelmente você já leu aqui. Se já o fiz, repetirei para refrescar a sua memória e facilitar sua compreensão. Se falo pela primeira vez, aprecie a novidade desse encontro. Vamos ao exemplo.


Todos os dias você acorda as 6h da manhã. Sai de casa às 7h, caminha cinco minutos até o ponto de ônibus e, pontualmente, às 7h15, o ônibus chega. Você, de tanto pegar o mesmo ônibus todos os dias, já até conhece o motorista e o cobrador. Também reconhece a maioria dos rostos dos outros passageiros e até troca uma ou outra palavra com alguns deles, como um trivial “bom dia” ou com um “como vai a família” menos formal. Um dia você acorda as 6h, sai de casa as 7h, chega no ponto às 7h05 e espera. Às 7h15 seu ônibus não aparece. Você não se importa, algum passageiro no ponto anterior pode ter demorado um pouco mais para embarcar causando o leve atraso. Mais cinco minutos se passam e nada do busão. Você já começa a se preocupar, mas, fiel ao hábito, você resolve esperar. Você começa a conjecturar que, quanto mais você espera, menos terá que esperar, pois quanto mais o ônibus demora, mais próximo ele está de você. Já são 7h30 e você começa a duvidar da realidade. Se pergunta se não é domingo ou se seu relógio não está errado. Mas é sexta-feira e seu relógio está certo. 7h40, você ainda espera, mesmo sabendo que chegará com atraso no trabalho. A angústia começa a te consumir e a esperança de ver o seu ônibus apontando na esquina já começa a ruir. 8h, e nada. A esperança se foi. Acabou. Você não acredita mais que seu ônibus virá. Você resolve tomar uma atitude. Você resolve chamar um táxi.


Essa história reflete que você, prisioneiro do hábito do horário do ônibus e absorto de esperança de que ele cumprirá o seu papel habitual, só agiu quando a esperança acabou. Eu não sei se você percebeu, mas o hábito leva à esperança e a esperança leva a inércia. Você percebe que se tornou uma pessoa que espera e só.


Espera que o tempo vai melhorar. Espera que a pessoa vai voltar. Espera que o jogo vai começar. Espera que tudo vai se resolver. E se continuar chovendo? E se a pessoa não voltar mais? E se o jogo não acontecer. E se tudo não tiver mais solução? Na mesma música Renato Russo diz: “Quem acredita sempre alcança”… Bom, só acreditar não basta. Você provavelmente não vai chegar no trabalho se só esperar pelo ônibus para sempre.


Eu perdi a esperança de que o mundo se tornará um lugar melhor. E isso é maravilhoso. Pois como no ponto do ônibus que nunca chega, cansei de esperar pela mudança no mundo e resolvi agir, a minha maneira, nas minhas condições para mudar o mundo. A falta de esperança joga na minha cara uma realidade muito dura: a esperança conforta mas não resolve. Religiões monoteístas utilizam a esperança como ferramenta de arrebatamento. Você vive em prol de uma vida que não chegou e de que não tem nenhuma garantia de que chegará. Viver acreditando em um paraíso, seja ele qual for, é fazer uma aposta: trocar a certeza da vida de agora pela incerteza da vida de amanhã.


Não existe nenhuma garantia de que o sol nascerá amanhã. Nenhuma mesmo. O que há, e só o que há, é a esperança de que veremos a alvorada. Mas não se apegue na esperança. O amanhã pode nunca acontecer e você pode desperdiçar sua vida esperando… Deixando para depois… Confiando no hábito que até agora nunca falhou. O amanhã, até hoje, sempre chegou. Mas não há garantia nenhuma de que essa lógica se repetirá no dia seguinte. E já que não há garantias de que o amanhã chegue, melhor viver a única coisa que você tem, que é o agora.


Conhecimento é Conquista

-FS

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© 2020 por FELIPE SCHADT.

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