• Felipe Schadt

#VidaCrônica - O Bigode do meu Pai: É Tetra!


Galvão Bueno e Pelé comemorando o tetracampeonato

Como um bigode (ou a falta de um) pode transformar pra sempre a vida de um pequeno torcedor. Confira a continuação da minha história com a seleção alemã de futebol. Para ler a primeira parte, clique aqui:

Eu só ouvia o Galvão gritar: "Se o Taffarel pegar o Brasil é campeão". Frio na espinha.

... Continuação...


Aquela frase não saia da minha cabeça. "Se o Brasil ganhar, eu raspo meu bigode". Me acertou em cheio, como um soco no estômago bem dado. Minha reação foi a mais natural possível para aquela situação. Entrei em desespero.


Enquanto o Parreira falava com os jogadores na beira do gramado do estádio de Los Angeles, minha tia preparava pipoca para a disputa de pênaltis. Eu adorava pipoca, mas nem o cheiro da manteiga invadindo meu nariz me fez esquecer a promessa nefasta do meu pai.


E, como diria Einstein: O tempo é relativo. Para minha mãe, por exemplo, que ama futebol e era um dos seres vivos naquela sala que mais estava ligada no jogo, o tempo demorava a passar e a disputa de pênaltis parecia não começar. Ela já estava ficando impaciente. Já para mim, preocupado com o massacre da gilete que poderia acontecer depois daquela disputa, os pênaltis começaram mais rápido do que dizer Roberto Baggio. Eu já estava ficando desesperado.


Mas o que eu, um garotinho de apenas cinco anos iria fazer contra aquelas pessoas sedentas por futebol? Não dava para desligar a TV olhar para eles e dizer: "Gente, vamos esquecer isso? Que tal jogarmos Rouba Monte?", ou "Ei, pessoal. Dá pra mudar de canal, eu quero assistir Pica-Pau". Não tinha jeito. Eu estava condenado a assistir aquilo tudo completamente impotente à situação.


Resolvi torcer. Claro, contra o Brasil.


Enquanto o Galvão Bueno tentava esconder o nervosismo dentro da cabine de transmissão, o Pelé ao lado dele, quieto, tentando poetizar algo, eu colei meus olhos na televisão e mandei todas minhas energias positivas para o time de azul. As penalidades iriam começar.

A sala foi coberta com um silêncio sepulcral. Os olhos tinham apenas um alvo em comum e o coração de todos estava prestes a pular para fora do peito. Eu acho que era um sentimento compartilhado pelos tantos milhões de brasileiros que acompanhavam aquele jogo.


Baresi, o capitão da Itália foi o primeiro a cobrar. Não entendia direito o que iria acontecer, mas sabia que quem marcasse mais gols seria o vencedor. O italiano foi pra bola... Bateu... "Pra fora e muito", gritou o narrador. Gritos de alegria na sala. Desespero pra mim. Não deu tempo de lamentar, pois outro jogador iria chutar. Dessa vez um brasileiro. Márcio Santos.

Novamente, o silêncio. O jogador canarinho correu pra bola e um nome iria entrar na minha mente e seria repetido por vários anos depois em brincadeiras de futebol. "Pagliuca!!". Decepção familiar contra a minha alegria quieta. Ainda havia esperança.


Albertini, para a Itália, pega a bola, beija-a e a coloca na marca branca no meio da área. Chuta... E marca! Ouço os protestos dos meus parentes e me sinto mais esperançoso. Até que eu ouço: "Romário vai pra bola". Droga! O Romário eu conhecia. Sabia que ele era o craque do time. Não tinha jeito. Ele ia fazer. Ao mesmo tempo que eu pensava isso, minha família gritava e mandava mensagens de apoio ao jogador. Não deu outra. Chutou tão no cantinho que a bola bateu na trave antes de entrar. O Pagliuca, goleiro da Itália, estava desesperado pela má sorte. Ele refletia exatamente o que eu estava sentindo.


Depois o Evani fez para a Itália e o Branco converteu para o Brasil. Além de tenso, estava ficando chato. Foi ai que o jogador italiano Massaro resolveu deixar a cobrança mais interessante. Chutou e um dos jargões mais legais do Galvão Bueno soou em alto e bom som pela TV: "Sai que é tua Taffarel!". O goleiro brasileiro havia defendido o pênalti e colocado o bigode do meu pai mais perto da navalha. E pra ajudar, na sequência, Dunga, o capitão brasileiro bota mais uma pá de terra em cima do caixão no qual repousava minha esperança. Enquanto na sala da casa da minha tia, a euforia era total.


Eu me castigava pelo azar que eu tinha. O time que eu estava torcendo estava perdendo. Pensei em uma estratégia. Já que o time que eu torcia perdia, resolvi torcer contra o time que eu queria que ganhasse. Pensei que se eu torcesse para o Brasil ele iria perder e meu pai conservaria sua bigodela. Naquele instante, vesti a camisa e me juntei aos presentes na sala e na torcida.


Eu só ouvia o Galvão gritar: "Se o Taffarel pegar o Brasil é campeão". Frio na espinha. Mas lá fui eu "torcer" para o próximo jogador italiano errar.


Roberto Baggio foi pra bola. Enquanto por fora eu gritava pra ele errar, por dentro eu estava dizendo: "Faz esse gol, pelo amor de Deus!"


Baggio correu... Chutou...


A cena ficou estática. Todos olhando firme para o camisa 10 da Itália, prontos para festejar. Olhei para o meu pai. Vi seu bigode... Olhei para a bola subindo em câmera lenta... Olhei mais uma vez para meu pai... O sorriso já estava se formando no rosto dele e o bigode ia me dando adeus...


Baggio correu... Chutou...


"ACABOU! É TETRA! É TETRA!!".


Como torci para o pênalti ser perdido, na minha infame estratégia de transferir meu azar para o outro, comemorei o lance meio que involuntariamente. Mas logo percebi que o fim estava próximo. Olhei para aqueles jogadores de amarelo comemorando a vitória e vi meu tio com um Presto Barba, também amarelo, indo em direção ao meu pai. Como um caçador de recompensas. Sedento pelo prêmio final.


Minutos se passaram...


Meu pai no banheiro assassinando seu companheiro de anos. E eu vendo tudo isso. Quando ele terminou eu só fiz a única coisa que uma criança faria naquela situação. Chorei compulsoriamente! Tenho quase certeza que eu fui o único brasileiro que não comemorou aquele 17 de julho.


Estava em prantos. Estava com raiva. E para completar, não reconhecia meu pai, afinal, nunca o tinha visto de cara limpa. Minha lógica infantil foi a seguinte: "Se o Brasil ganhar outra vez, esse pesadelo vai se repetir outra vez". Não podia ser conivente com a minha própria desgraça. Fiz o que deveria ser feito. "Eu nunca vou torcer para o Brasil!" Mas aí eu precisava escolher uma seleção para chamar de minha. A escolha era óbvia.


Sou descendente de alemão (ou pelo menos penso que sou). Meu sobrenome sugere isso e sempre foi motivo de orgulho. O Schadt (e suas variações: Schaditi, Schadat, Scádit, Xádi, Chaid...) era a pista para trocar o verde, amarelo e azul anil pelo preto, vermelho e amarelo. A partir daquele dia em diante, eu me oficializava como torcedor da Alemanha!


Em tempo: Depois desse episódio, o meu pai nunca mais raspou o bigode em mais de 20 anos, até que ano passado resolveu, para sempre, se livrar dos pelos na cara. E eu nem chorei.


Conhecimento é Conquista

-FS

*Texto publicado em 2014

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© 2020 por FELIPE SCHADT.

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