top of page
  • Foto do escritorFelipe Schadt

Acabamos de ver três socos na Educação




> Na última semana, a Educação tomou três socos: Três estados que resolveram tirar de circulação um livro de suas escolas; uma diretora de escola atacada por um homem por ele não concordar com o conteúdo de um material didático; e a eleição de um deputado no mínimo controverso para presidir a Comissão de Educação da Câmara, em Brasília.


O primeiro soco: O livro "O Avesso da Pele", de Jeferson Tenório, foi alvo de um pedido de censura da diretora da Escola Ernesto Alves, da cidade de Santa Cruz do Sul (RS). Segundo a diretora, o livro traz linguagem inapropriada para os alunos do Ensino Médio, além de cenas de sexo. Com a repercussão, os governos do Paraná, Goiás e Mato Grosso do Sul pediram o recolhimento imediato da obra das escolas. E não é uma coincidência o ex-presidente Jair Bolsonaro ter vencido nesses três estados nas últimas eleições.


O vídeo da diretora que pede a censura da obra e que ataca o governo federal e o Ministério da Educação (MEC) pela escolha do livro, foi compartilhado por deputados bolsonaristas do Partido Liberal, como Kelly Moraes (PL-RS) e os deputados federais Zé Trovão (PL-SC), Marcelo Moraes (PL-RS) e Bia Kicis (PL-DF). Porém, o livro foi aprovado pelo Plano Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) durante a gestão Bolsonaro.

Vencedor do Prêmio Jabuti de 2021, o romance literário "O Avesso da Pele" aborda o racismo através da história de um menino negro que tenta entender os motivos que levaram o seu pai ser morto pela polícia. O autor, em suas redes sociais, se manifestou dizendo que "o mais curioso é que as palavras de baixo calão e os atos sexuais do livro causem mais incômodo do que o racismo, a violência policial e a morte de pessoas negras".


O livro está incluso no PNLD, que compra e distribui obras didáticas e literárias para escolas públicas do país. (Foto: divulgação)

Dias depois, o segundo soco: Um homem em Nilópolis (RJ) postou um vídeo em suas redes sociais completamente indignado com um exercício da apostila do 4º. ano do ensino fundamental. Se tratava de uma atividade sobre interpretação de textos no formato de entrevista. O problema para esse homem foi que o exemplo dado pelo material didático foi uma entrevista do youtuber Felipe Neto extraída de uma reportagem do Diário de Pernambuco.


Na frente da escola, o homem intimida a diretora que tenta tapar o rosto enquanto pede para não ser filmada. Entre ataques a escola e à própria servidora pública, o homem vocifera no vídeo contra Felipe Neto, afirmando que o influenciador ensinaria sexo entre meninos e meninas para crianças.


O youtuber se manifestou no X (antigo Twitter) dizendo já ter colocado sua equipe jurídica em ação para identificar e processar o homem. Quem também se manifestou foi a prefeitura de Nilópolis por meio de nota, dizendo repudiar o ato e de dar todo apoio jurídico à diretora da Escola Municipal Poeta Carlos Drummond de Andrade.


"A Prefeitura de Nilópolis, por meio da Secretaria Municipal de Educação (SEMED), esclarece que o material didático distribuído aos alunos da rede municipal é confeccionado pela equipe da SEMED, formada por professores efetivos, a partir da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), utilizando conteúdo de domínio público", diz a nota.


Imagens em redes sociais mostram homem intimidando professora em Nilópolis (Foto: Reprodução)

Por fim, o terceiro soco: Nikolas Ferreira (PL-MG) foi escolhido pelo seu partido para presidir a Comissão de Educação da Câmara dos Deputados. O problema disso é muito simples: o parlamentar nunca apresentou nenhum projeto de Educação.

Além disso, é notório a sua predisposição conservadora e até mesmo retrógrada na pauta de costumes. Expoente do bolsonarismo, Nikolas Ferreira já chegou a defender, em participação em podcast, o direito de negar o holocausto e da fundação de partidos nazistas. Além disso, ele é réu em um processo de caso de transfobia.


Essa linha ideológica alinhada a um forte discurso religioso pode direcionar seu posicionamento na hora de presidir a comissão que tem, entre outras atribuições, aprovar pautas que gerem projetos de lei no campo da Educação. Outro ponto central é que o Plano Nacional de Educação (PNE) será reformulado durante a gestão Nikolas Ferreira e valerá pelos próximos dez anos.


O deputado afirmou em suas redes sociais que a prioridade de seu mandato é debater o Plano Nacional de Educação, Segurança nas Escolas, fortalecimento da Educação Básica e o homeschooling (educação domiciliar). "Para isso, realizaremos audiências públicas, criaremos subcomissões e fiscalizaremos a política nacional de educação do atual Governo", disse o parlamentar, porém sua efetivação como presidente da comissão gerou desconforto e muita turbulência da Câmara.


Em entrevista à Folha de São Paulo, o deputado Bacelar (PV-BA) não vê com bons olhos a eleição de Nikolas Ferreira devido sua inexperiência. "É muito ruim um deputado de primeiro mandato, no segundo ano de mandato, presidir uma comissão com a importância da Educação". Já o deputado Idilvan Alencar (PDT-CE), também em entrevista para a Folha, foi mais duro em sua opinião. "A Comissão de Educação não será picadeiro de circo. Que o espetáculo circense dele permaneça nas suas redes sociais". Outra deputada que se mostrou indignada e preocupada foi Tábata Amaral (PSB-SP) que publicou um vídeo em suas redes sociais destacando o retrocesso que a Comissão de Educação sofrerá com o deputado bolsonarista em sua presidência.


Usando uma peruca, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) fez discurso considerado transfóbico no plenário da Câmara (Foto: Valadares/Câmara dos Deputados)

Esses três golpes não estão ligados diretamente e tão pouco foram orquestrados para acontecerem quase que ao mesmo tempo, porém nos mostra uma tendência que pode crescer nos próximos meses que antecederão as eleições municipais.


Atacar a Educação com discursos moralistas recheados de conservadorismo e retrocesso não é uma tática nova da extrema direita. Vimos em 2018 o barulho feito pelo movimento "Escola sem Partido" e ações como o da deputada estadual eleita por Santa Catarina, Ana Caroline Campagnolo (PSL), de Itajaí, que incentivou alunos a filmarem e divulgarem professores em sala de aula que estivessem fazendo "manifestações político-partidárias ou ideológicas". Isso aconteceu às vésperas das eleições que acabaria colocando Bolsonaro na presidência.


Eu mesmo fui vítima dessa perseguição em 2018, quando recebi um comunicado de que os pais de uma aluna na faculdade no qual sou professor pediram minha demissão por eu postar textos no meu blog e nas minhas redes sociais sobre política. Segundo eles, eu estava doutrinando meus alunos por meio das minhas postagens.


A extrema direita sabe como capitalizar politicamente o discurso envolvendo a Educação que é um tema sensível para qualquer sociedade. Levar esse assunto para o campo do conservadorismo em sistemáticos ataques gera a atenção que os dependentes dos votos precisam para serem eleitos ou reeleitos. O resultado é o retrocesso como censura de livros, ataque a profissionais da Educação e perda de direitos adquiridos por estudantes.


Não duvido que novos golpes como esses virão. Os socos serão inevitáveis. A questão é se a Educação vai conseguir se esquivar e, se necessário for, se levantar depois das porradas. Pois como nos ensina Rocky Balboa, é assim que se ganha uma luta.


Conhecimento é conquista.

-FS



27 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Comments


bottom of page